A frase vem de Hamlet. Na obra, Polônio diz, depois de Hamlet o informar sobre as loucuras indecentes que lê: “Apesar de loucura, revela método. Não quereis sair do vento, príncipe?”. Ao que Hamlet contesta: “Entrar na sepultura?” e Polônio responde: “Realmente, desse modo saíreis do vento”.

Há método na loucura homicida do pronunciamento realizado pelo presidente nesta semana. Não loucura escrita – mas loucura dita. Não pelo príncipe da Dinamarca, mas pelo bobo da corte.

Sustentando em cadeia nacional de rádio e televisão a posição de que a pandemia era uma “gripezinha” ou, no máximo, “um resfriadinho”, o presidente Jair Bolsonaro buscava algumas coisas. Primeiro, emular as posições de seu mestre, Donald Trump.

Segundo, o presidente pretendia – e isto conseguiu – tirar suas bases virtuais do isolamento nas redes sociais ao qual estavam submetidas. Foram vários os relatórios que apontavam que, em meio à crise de pandemia, as milícias virtuais ficaram acuadas. Foi depois do insano pronunciamento que as tropas de sedados quebraram as portas tecnológicas do hospício.

Terceiro, Bolsonaro imaginava que por meio de um grande ato de propaganda, no qual denunciava a irresponsabilidade de governadores que “não se preocupam com a economia”, conseguiria se livrar, daqui alguns meses, quando a economia de fato estará derretida, de suas próprias responsabilidades.

Por fim, o mandatário buscava apoio. Especificamente, de abutres da bolsa – que pretendem continuar negociando os espólios da recentes perdas de seus home-offices – e da pequeno-burguesia, que em seu desespero quanto à semana que vem, é capaz, de uma hora para a outra, de se convencer da loucura presidencial, ainda que saiba que a sua verdadeira demanda – à qual não tem condição de reivindicar por sua natureza vacilante – é a de que o governo os apoie enquanto estiverem fechados. Aos pequenos-burgueses soma-se também uma cadeia de proletários seduzidos no canto de sereia do “empreendedorismo”.

Mas, a despeito do método, a loucura não terá efeito.

Não que as bolsas de ações tenham respondido mal ao pronunciamento. Muito pelo contrário.

Tampouco é o caso de pequenos-comerciantes e “empreendedores” não estarem dispostos a, depois de se convencerem os primeiros de que são burgueses e os segundos de que são pequenos-burgueses, se convencerem também do discurso presidencial quanto ao Covid-19.

Bolsonaro também não é de todo inábil quando pretende se fantasiar de Trump – mas, sem 2 trilhões de dólares disponíveis para injetar na economia, falta a ele os recursos com os quais seu colega faz de seu showzinho particular um espetáculo da Broadway.

Quanto à sua capacidade propagandística e às suas milícias, de fato o presidente tem algum provento. Mas no primeiro caso não se sustentarão quando o povo se enfrentar com a morte, e, no segundo caso, como tudo o que desmancha no ar neste momento, trata-se de um provento puramente virtual, abstrato e anímico.

O caso é que os grandes jogadores da vida sob o capital, ao contrário da pequeno-burguesia, têm consciência de si como classe e, diferentemente dos especuladores médios, sabem que o mundo não é feito de pequenos papéis especulativos. Acima de tudo: sabem que aos pequenos papéis, em meio à crise, têm condições de dar uma grandeza maior de valor – como já revelamos que fazem.

No primeiro aspecto, ao ter consciência de si, descobrem que tudo o que é vivo pode morrer. Quando falam em “defender a vida”, portanto, querem dizer na verdade as suas próprias. Não porque os ricos também se infectam – mas porque os pobres podem se infectar com um vírus muito mais perigoso para seus negócios à medida que seus familiares e amigos morrem com água nos pulmões. Se é certo que a morte de favelados não os atinge na alma – um certo “mestre de aprendizes” deixou perfeitamente claro nessa semana -, também é certo que os pobres, em revolta, podem atingi-los não só em suas casas, mas também em seus bolsos. E o que são esses senhores senão mais bolsos que alma?

No segundo aspecto, trata-se de recordar que nem sempre a burguesia mantém a postura fiscalista e austera quanto ao Estado. Ao contrário; ela o impõe precisamente depois do endividamento do Estado, que a permite também comprá-lo. Não é isso o que o já denunciado Plano Mansueto fará? Por que estariam dispostos a possivelmente ajudar a cavar sua própria cova por pequenos lucros especulativos agora, feitos por espólios da bolsa, se podem comprar a propriedade das empresas em alguns meses? Por que enriquecer um pouco mais com a variação das ações das companhias estaduais se podem, muito em breve, terem as companhias estaduais?! Por que oferecer o corpo à infecção pelos lucros pequenos, se podem lucrar generosamente da ruína dos pequenos e do Estado?

O caos não deve ser subestimado. Ao menos, é certo que os grandes capitalistas não o subestimam. Numa situação caótica, de exceção – até o alucinado presidente a reconhece – procuram tomar o quanto podem as rédeas do destino. O que os diferenciam do presidente é que, enquanto este vê o caos no “desemprego” (por excelência controlável pelos donos de propriedades), os segundos o vê na morte em massa do povo, capaz de catalizar aqueles sentimentos profundamente humanos que eles há muito já perderam.

Há método na loucura. Por isso o presidente desfila confiante. Mas há loucura no método. Por isso não desfilará por muito mais tempo. “Não quereis sair do vento, príncipe?” perguntam. “Entrar na sepultura?”