EUA: A pandemia do coronavírus gera uma emergência alimentar para milhões de norte-americanos

por John Bachtell | People's World - Tradução de Felipe Barbosa para a Revista Opera

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(Foto: U.S. Navy photo by Mass Communication Specialist 3rd Class Cristina Gabaldon/Released)

Diversos veículos formaram uma fila de quilômetros em direção ao Banco de Alimentos da Grande Cleveland (BAGC) nos Estados Unidos. O engarrafamento era tão grande que muitas pessoas deixaram seus carros e andaram todo o caminho para pegarem um pouco de comida.

“É incrível e inconsolável ao mesmo tempo” disse Karen Pozna, diretora de comunicações do BAGC, ao descrever a chegada de 4 mil pessoas em busca de alimentos no dia 24 de março. “Nós fazemos a distribuição de comida todo mês e nunca tínhamos visto algo assim.”

A distribuição do dia 24 de março estabeleceu um recorde: dois terços das pessoas que compareceram ao Banco de Alimentos naquele dia estavam indo lá pela primeira vez. “Nós estamos tentando ajudar qualquer um que precise de comida nesse momento” disse Pozna. “Tanta gente foi dispensada e não sabe para onde ir.”

Não há falta de alimentos nos Estados Unidos: armazéns e os entrepostos federais estão lotados. As prateleiras vazias dos mercados refletem apenas o pânico da população, mas toda noite os trabalhadores fazem a reposição dos produtos. Todavia, a pandemia e a consequente crise econômica criaram uma emergência alimentar, sobretudo para os milhões que sofrem com a insegurança alimentar todo dia. 

A cena vista em Cleveland está se repetindo por todo o país em razão do número recorde de empregos perdidos. Em Cleveland, Pittsburgh, Dayton e outras cidades e estados, a Guarda Nacional está ajudando a empacotar e distribuir comida. Em San Diego, o Sindicato dos Trabalhadores dos Condados de San Diego e Imperial está ajudando a distribuir comida. 

Muitas das pessoas que estão se valendo dos Bancos de Alimentos passarão a receber seguro-desemprego como resultado da aprovação, em 27 de março, do Ato de Auxílio, Alívio e Segurança Econômica do Coronavírus (AASECV), totalizando um auxílio de 2.2 trilhões de dólares. Outras pessoas, incluindo milhões de trabalhadores imigrantes  sem documentos, não fazem jus ao seguro-desemprego e aos demais benefícios do AASECV e estão passando por uma crise aguda.

O Ato Famílias Primeiro em Resposta ao Coronavírus foi aprovado em 18 de Março e concedeu 1 bilhão de dólares em recursos emergenciais para o Programa de Assistência à Suplementação Nutricional (PASN, antes chamado de food stamps), para os bancos de alimentos e para a alimentação a preço reduzido para os estudantes na escola. O Ato de Auxílio, Alívio e Segurança Econômica do Coronavírus adicionou mais 15 bilhões ao PASN, mas não aumentou a quantidade de benefícios ou a elegibilidade a estes. Outros 200 milhões de dólares foram destinados às colônias dos Estados Unidos, incluindo Porto Rico, Ilhas Virgens, Samoa Americana e Guam, e outros 450 milhões de dólares para os bancos de alimentos.

Antes da pandemia do coronavírus, a administração Trump propôs um corte nos benefícios do Programa de Assistência à Suplementação Nutricional em 30% nos próximos dez anos, conforme constou no Orçamento Federal de 2021. Os cortes eliminariam benefícios para muitos adultos e pessoas com necessidades especiais, além de restringir a elegibilidade a programas de alimentação gratuita ou a baixo custo para crianças.

Esses cortes, que os defensores dos movimentos contra a fome reputaram como cruéis e desumanos, vieram na forma de regulamentos que a administração Trump adotou após os Democratas terem rejeitado as mesmas medidas na Câmara dos Deputados. As regras do governo federal já cortaram benefícios do Programa de Assistência à Suplementação Nutricional a qualquer um que não trabalhasse um mínimo de 20 horas por semana. Mas muitos estados desprezaram essas normas por outros caminhos.

Caso essas regulações de Trump tivessem sido adotadas, as restrições seriam capazes de negar o acesso aos benefícios a cerca de 700 mil pessoas. Citando o impacto da pandemia, um juiz federal impediu que a regulação de Trump passasse a valer em 13 de março, após o Secretário de Agricultura dos Estados Unidos, Sonny Purdue, ter se negado a suspendê-la. 

Ao mesmo tempo, os bancos de alimentos estão ficando sobrecarregados com a demanda. O aumento no custo dos alimentos (em parte devido à especulação), o declínio nas doações e o decréscimo na quantidade de voluntários estão ameaçando levar os bancos de alimentos ao colapso bem quando eles são mais necessários.

Os bancos de alimentos de Nova Iorque estão ficando sem recursos e correndo risco de fechar. O presidente da Câmara dos Vereadores de Nova Iorque, Corey Johnson, pediu com urgência para que o governador do Estado, Andrew Cuomo, e o prefeito da cidade de Nova Iorque, Bill de Blasio, concedam 50 milhões de dólares em crédito emergenciais para as entidades sem fins lucrativos que estão realizando a distribuição de comida.

“Estou como se fosse uma pessoa que chega na emergência e espera que os médicos façam a coisa certa” disse David Greenfield, CEO do Conselho Metropolitano, ao New York Post. “Todos nós estamos nessa situação emergencial e precisamos de ajuda. Basta o governo decidir se quer nos ajudar ou nos deixar morer.”

Nova Orleans está passando por uma emergência alimentar. A cidade sofre com o coronavírus e também com o colapso do turismo após uma situação crítica que os políticos da área de saúde ligam às celebrações de Mardi Gras. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos abriu seu estoque de comida aos bancos de alimentos locais após forte pressão, incluindo políticas de Democratas e Republicanos eleitos.

A insegurança alimentar já afeta 37 milhões de americanos, incluindo 11 milhões de crianças. Muitas dessas crianças estão em famílias nas quais ambos os pais trabalham recebendo baixos salários. Eles sofrem para colocar a comida na mesa e muitas vezes têm de decidir entre pagar o aluguel ou comer.

“Famílias de baixa renda certamente não podem estocar comida” disse Rachel Cahill, uma defensora do movimento anti-fome e especialista em políticas públicas alimentares de Ohio. “Mesmo se mantivermos os benefícios do Programa de Assistência à Suplementação Nutricional e nos certificarmos que as escolas estão distribuindo cafés da manhã e almoços de graça, isso ainda não fará com que essas famílias consigam estocar comida.”

O fechamento das escolas está dificultando a operação dos programas de alimentação escolar custeados pelo governo federal, que servem 30 milhões de crianças. O governo Trump informou aos estados que eles devem agir por conta própria para achar equipamento de proteção pessoal e entregar comida aos estudantes.

Mas a distribuição de alimentos só continua por conta do trabalho heroico de diretores, trabalhadores do setor de alimentação, bedéis, motoristas de ônibus e voluntários. “Hoje chorei duas vezes”, escreveu Heather Smith Yutzy, diretor de uma escola pública de Chicago no Facebook. “Eu vi diversos pais de estudantes vindo à escola em busca de comida para as suas famílias. Homens fortes, trabalhadores, ótimos pais pedindo alimento para seus filhos. Fico muito feliz que temos comida, mas essa situação é difícil. A pandemia está atingindo muito fortemente as famílias, até mesmos aqueles que eu não achava que eram vulneráveis.”

“Sinto o estresse dos bedéis e trabalhadores do setor de alimentação que estão servindo centenas de pratos de comida por dia e estão no front interagindo com pessoas que podem transmitir o vírus. Eles estão sendo muito cuidados, mas essa situação é muito estressante para os trabalhadores, que não querem colocar em risco as suas famílias, incluindo recém nascidos e idosos. Está sendo uma semana longa. Cuidem-se.” disse Yutzy.

A diretoria de ensino de Seattle está oferecendo comida em 22 pontos ao redor da cidade. Da mesma forma, o sistema de ensino público da cidade de Nova Iorque está fornecendo café da manhã e almoço para que os alunos que deles necessitarem. Em Chicago, refeições podem ser retiradas em qualquer escola, independentemente de o estudante lá estar inscrito ou  não.

A cidade da Filadélfia está oferecendo comida gratuita para qualquer morador que necessite. Os alimentos estão disponíveis em lugares determinados, além dos locais em que os estudantes podem retirar almoços. O time de basquete Philadelphia 76ers doou recursos para que 20 mil caixas de comida pudessem alimentar cerca de 160 mil pessoas.

A pandemia e a crise econômica evidenciaram a massiva desigualdade de classe, raça e gênero na sociedade dos Estados Unidos, bem como a enorme quantidade de riqueza de alguns. Elas demonstraram também a incapacidade do capitalismo de suprir as necessidades básicas dos seres humanos. A realidade enfrentada por milhões, que sofrem diariamente com a fome, a falta de um teto e de saúde, incluindo imigrantes sem documentos, pode se tornar uma realidade para dezenas de milhões de pessoas num instante.

Mas essa crise também demonstra o poder da solidariedade das pessoas e a necessidade de governos que as coloquem em primeiro lugar, com políticos eleitos, funcionários públicos e vizinhos que fazem o impossível uns pelos outros.

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