Na famosa fábula infantil publicada em 1837, “A Roupa Nova do Imperador”, o dinamarquês Hans Christian Andersen conta a história de um mandatário vaidoso. Chegam a seu reinado dois vigaristas que, passando-se por tecelões, prometem ao imperador roupas especiais, feitas sob medida, que só poderiam ser vistas por funcionários preparados para seus cargos e cidadãos que não fossem tolos.

Fingindo preparar a roupa sem gastar sequer um fio no tear, os dois trapaceiros logo colhem elogios de toda a corte, e até próprio imperador, pelo esplendoroso trabalho. Marchando publicamente, as novas roupas do soberano são destino de elogios desvairados, até que uma criança aponta e denuncia: “Ele não está usando nada! Está nu!”. Parte da multidão começa a afinal reconhecer a nudez do rei, que no entanto decide manter a pompa, com seus ajudantes carregando longa cauda de tecido imaginário.

No pequeno conto de Andersen, é por não quererem reconhecer que são tolos e que não estão à altura de seus cargos que toda a corte é enganada. No Brasil, e em grande parte na intelligentsia midiática global, algo similar parece ocorrer em relação aos Estados Unidos, com apenas uma diferença: não agem como tolos evitando reconhecer suas falhas intrínsecas, mas como imorais que, não importando a qual custo, buscam lustrar a roída imagem do império.

O país mais rico do mundo, controlador da moeda de câmbio de todo o globo, comandante dos maiores exércitos, é hoje o maior dizimado pela Covid-19. Já são 614 mil casos confirmados, com 26 mil mortos – números que superam até mesmo países como Espanha e Itália, que há pouco motivavam grande ansiedade pelas manchetes dos jornais. O império, que estende suas mãos por todos os cantos desse mundo, não parece suficientemente preparado para afagar seus próprios cidadãos, a despeito de toda a louca tecnologia que possibilita a multimilionários planejar suas próprias expedições ao espaço. Em três semanas, 16 milhões de empregos foram perdidos nos EUA, e a emergência alimentar se revela uma questão prioritária para milhões de famílias no mesmo país que desperdiça 150 mil toneladas de comida por dia. Na cidade das luzes, se avolumam os caixões de madeira crua, carregados e enterrados por prisioneiros vestidos em jalecos brancos, com corpos agora destinados à escuridão absoluta.

Com a postura demencial e homicida de costume, o império parece buscar assegurar que haja um maior número de mortos também nos países que toma por inimigos. Contra um Iêmen conflagrado pela guerra e sofrendo por anos de uma epidemia de cólera, Trump decidiu cortar dezenas de milhões de dólares de um programa de ajuda à saúde do país, e a coalizão liderada pela Arábia Saudita, apoiada pelos Estados Unidos, continua a bombardear civis no país. Na Somália, os bombardeios e ataques a drones continuam.
No Afeganistão, as bombas norte-americanas também seguem caindo, a despeito do recente acordo com o Talibã – que, apesar de todo o imaginário midiático, é mais próximo dos Estados Unidos do que se costuma imaginar. O império também decidiu cortar um bilhão de dólares prometidos aos afegãos, o que sem dúvidas não é uma boa notícia para as centenas de infectados pelo Covid-19 no país. Quanto ao Iraque, no dia 27 de março, quando o país já contava 458 casos confirmados de coronavírus, o The New York Times publicava uma diretiva secreta do Pentágono que considerava aproveitar a pandemia global para pôr em marcha ações contra milícias ligadas ao Irã no país. De acordo com o jornal, “alguns altos oficiais, incluindo o Secretário de Estado, Mike Pompeo, e Robert C. O’Brien, o conselheiro de segurança nacional, têm pressionado por novas ações agressivas contra o Irã e suas forças proxy – e veem uma oportunidade para tentar destruir as milícias apoiadas pelos iranianos no Iraque enquanto os líderes no Irã estão distraídos pela crise pandêmica em seu país”. De fato, o presidente iraquiano, Barham Salih, denunciou as “repetidas violações” contra a soberania de seu país por parte dos Estados Unidos em meio à pandemia global. No entanto, não é só com bombas que o império mata: no Irã, que já tem quase 5 mil mortos pelo coronavírus, as sanções impostas pelos EUA – e que não foram sequer afrouxadas em meio à crise – já golpeavam o sistema de saúde do país, impossibilitado de acessar certos remédios e equipamento médico. Ainda assim, os EUA anunciaram novas sanções contra o país.

Mas a mão do império é extensa. Enquanto se movia pelo Oriente Médio e África, ela também fazia uma “campanha de pressão máxima” contra a Venezuela, que incluiu a expansão de sanções, ameaças de bloqueio naval, reforço na presença de navios e aeronaves na região e, mais recentemente, a acusação de “narco-terrorismo” contra Maduro, bem como o anúncio de uma recompensa de 15 milhões de dólares por sua cabeça.

Não se trata só de um imperador senil, mas da insanidade de todo um império que acostumou-se a tratar a carnificina dos povos como um “efeito colateral” para a manutenção do modo de vida americano a seu povo, destinado à sua posição por Deus. E enquanto a mão do império enrijecia nas ações militares e sanções, também manifestava uma outra contração característica e inconsciente sua: a da pilhagem.

O embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, classificou com fake news as notícias de que material médico comprado pelo Brasil havia sido retido, roubado, desviado ou comprado pelos Estados Unidos. “Eu sei que há muitas fake news por aí de pessoas dizendo que isso está acontecendo, mas já investigamos e não está”, afirmou, a despeito do nosso ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ter declarado que compras de equipamentos de proteção individual junto à China não haviam sido concluídas após os EUA comprarem e transportarem, com 23 aviões cargueiros, o material. A Casa Civil da Bahia também tinha acusado os EUA de terem “unilateralmente cancelado” a compra de respiradores feitos por estados do nordeste com a China; o fornecedor chinês não teria conseguido embarcar de Miami, onde fez uma escala. Também fizeram acusações semelhantes os governos da Alemanha e França.

A Folha de São Paulo informa que “uma vez embarcado, o carregamento tem de cumprir rotas específicas entre China e Brasil para não correr o risco de ser confiscado por outros países no reabastecimento”, e o Estadão noticia que, pretendendo enviar aviões à China, “o governo brasileiro quer evitar problemas com retenção de suprimentos, como ocorreu a diversos países, que tiveram suas compras bloqueadas pelos Estados Unidos”. Talvez devamos, no entanto, confiar nos representantes do império de roupas novas, que há alguns anos avistava invisíveis armas de destruição em massa no Iraque. Ao menos, é o que aparenta ser a posição do embaixador brasileiro em Washington, Nestor Foster, que ao invés de seguir a lida de Chapman, negando os fatos, justificou-os, declarando que “existe a faculdade de o presidente americano recorrer à Lei de Defesa da Produção, que é da época da Guerra da Coreia, para direcionar a produção para o esforço de guerra, bens considerados essenciais para a manutenção da ordem, da segurança nacional. […] Não há uma proibição à exportação nem há confisco imediato, é uma orientação para fazer o que for possível para não faltar aqui [nos EUA]. Se isso requerer o confisco, há poderes legais para fazer isso”.

Nem fábula infantil nem obra de realismo mágico poderia descrever com exatidão uma camarilha de canalhas, em redações de jornais ou em corpos diplomáticos, que como funcionários do imperador se recusam a dizer as coisas como são. Procuram na China desculpas, números, fabricam fatos, como cavalos amestrados que seguem pela estrada, bem-comportados, contanto que não olhem imediatamente a seu redor. Especulam sobre “autoritarismos” do Estado chinês, sem mencionar nenhuma das ações de guerra e sanções levadas adiante unilateralmente pelo império-amigo em todo o mundo, quase como reconhecendo que, mais do que parte de um destino-manifesto, as ações norte-americanas são leis naturais, contra as quais não cabe protesto. Ao que parece, no Brasil, os jornalões até se dispõem a tentar frear a insanidade tropical do nosso bobo da corte, mas nunca a desafiar seu verdadeiro amo, que alinha seu discurso tanto nos diários quanto nas bocas de lunáticos bolsonaristas que protestam contra o “comunismo chinês”.

Talvez se os jornais e as embaixadas brasileiras fossem ocupadas por crianças, elas dissessem sem pestanejar: o império está nu. Assim ao menos uma parte dos cidadãos, vendo o rei desfilar, tomaria a coragem de dizê-lo. Mas os espertos encarregados não o fazem, e assim continuam carregando a longa cauda tricolor e estrelada do imperador, que arrasta povos por onde passa.