Covid-19: Como a mídia agitou o público em um frenesi anti-China

Por Alan Macleod | Mintpress - Tradução de Bernardo Muratt para a Revista Opera

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(Foto: Paul Becker / Becker1999)

Uma nova pesquisa da Harris descobriu que, em meio à crise, a atitude do público estadunidense em relação à China se transformou de indiferente para hostil. 77% do país culpa a China pelo surto, com 54% afirmando que os chineses devem reparações aos EUA por serem o epicentro do surto. O público também acredita que a China agiu de maneira irresponsável: apenas 23% consideram o presidente Xi Jinping uma fonte confiável de informações sobre o vírus e, se comprovado que subnotificou seus casos, mais de 80% exigem uma guerra econômica total contra a nação chinesa.

Praticamente todos os países do mundo estão subnotificando seus números, incluindo os Estados Unidos. Por exemplo, oito vezes mais nova-iorquinos morreram em suas casas em comparação com o ano passado. Muitos sob forte suspeita de terem morrido de COVID-19, mas como não morreram em um hospital, eles não são adicionados à contagem oficial. Os resultados da pesquisa são relativamente bipartidários, com 88% dos republicanos e 78% dos democratas favorecendo a imposição de sanções econômicas em larga escala; a diferença é que os republicanos querem que Trump faça isso unilateralmente, os democratas exigem aprovação do Congresso. Como tal, as duas posições representam um microcosmo perfeito de décadas da política externa dos EUA.

Apesar do tratamento incompetente da pandemia por parte do governo Trump (durante semanas, Trump alegou que se tratava de um “embuste” liberal e que não era grande coisa) 58% do público culpou a China pela disseminação do coronavírus nos Estados Unidos; apenas 42% culparam seu próprio governo. 50% dos americanos queriam que Trump fosse “duro” com a China, em comparação com apenas 17% que defendiam uma abordagem mais diplomática.

A condenação da China por parte do público estadunidense contrasta fortemente com a reação de organismos internacionais de saúde como a Organização Mundial da Saúde (OMS), que tem equipes em campo há meses. A OMS elogiou o “compromisso com a transparência” da China, exaltando a rapidez com que identificou o vírus e compartilhou informações com o mundo. “Eu nunca vi o comprometimento e a proporção de uma resposta epidêmica nesse nível em termos de todo o envolvimento governamental”, disse o Dr. Michael Ryan, diretor executivo da OMS para emergências de saúde, elogiando a organização do Estado chinês. “O desafio é grande, mas a resposta tem sido massiva e o governo chinês merece imenso crédito por esse retorno e pela transparência com que lidou com a situação”.

De onde, então, vem o fomento de tal atitude do público norte-americano? Uma fonte tem sido de políticos como o senador do Arkansas, Tom Cotton, que sugeriu, sem evidências, de que o novo coronavírus realmente começou sua vida em um “superlaboratório” chinês, e então, presumivelmente, liberado ou acidentalmente descarregado sobre a população. Três em cada dez americanos concordam com a teoria de Cotton, de acordo com pesquisa publicada pelo Pew Research Center. Apenas quatro em cada dez acreditam que o vírus surgiu de forma natural.

Outro impulsionador do sentimento anti-chinês tem sido a mídia. Mesmo quando a China faz algo inquestionavelmente positivo, como doar cargas de equipamentos médicos para países europeus, a CNN mostra Pequim como ardilosa, a qual tenta apenas “desviar a culpa” e busca “ganhar favores”.

Enquanto isso, o Washington Post escreve que “trabalhar juntos para enfrentar o mau comportamento da China não é apenas um imperativo de segurança nacional. É também uma política inteligente”, alegando que apenas a “extrema esquerda” poderia desejar um relacionamento mais amigável com a China, até mesmo fazendo acusações* contra Joe Biden por não ser suficientemente incriminador de Pequim.

Como resultado da cobertura da mídia, uma epidemia de xenofobia anti-chinesa também se espalhou pelos EUA, afetando negativamente muitas comunidades asiáticas não chinesas. Uma mulher tailandesa foi vítima de ataques racistas no metrô de Los Angeles, os hotéis de Indiana se recusaram a servir dois homens Hmong, alegando que provavelmente tinham coronavírus, e estudantes vietnamitas na Califórnia foram intimidados e abusados ​​na escola por turmas gritando “coronavírus”. Racistas não são conhecidos por possuir conhecimentos precisos de cultura e geografia.

A culpabilização da China não é apenas um meio de desviar a atenção da resposta sem brilho de Washington à pandemia. Como o MintPress relatou em fevereiro, a solicitação de orçamento do Pentágono para 2021 exigiu 705 bilhões de dólares para “mudar o foco das guerras no Iraque e no Afeganistão e dar uma ênfase maior aos tipos de armamentos que poderiam ser usados para enfrentar gigantes nucleares como Rússia e China”.

A equipe de política externa de Joe Biden também é favorável à intensificação do “pivô para a Ásia” de Obama – uma tentativa de cercar militarmente e asfixiar a nação asiática emergente. Sua “prioridade principal” caso chegue ao poder, de acordo com um artigo recente, é combater o “desafio chinês”, decidindo “qual nível de sanções os Estados Unidos devem impor” sobre Pequim e “o quão longe os EUA devem ir”. Se assume como inquestionável que Washington tem o direito legal ou moral de realizar esse tipo de ação.

Embora o novo ataque à China, tanto de políticos quanto da imprensa, possa ser visto como uma tentativa de afastar a culpa do governo Trump e evitar a auto-reflexão, ele também pode ser visto como uma tentativa cínica de fabricar o consentimento para uma guerra com Pequim que vem sendo construída há anos. E, de acordo com a pesquisa da Harris, está funcionando. “Culpar a China” pode se transformar em pedidos para “bombardear a China” mais cedo do que pensamos.

Notas:

*Red-baiting: isca vermelha em tradução livre. Tentar minimizar ou difamar seu oponente político acusando-o de comunista. (Nota do Tradutor)