Sérgio Moro e o governo em xeque

por Leonardo Laurindo | Revista Opera

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(Foto: Marcos Corrêa/PR)

A última sexta-feira de abril amanheceu com a consolidação de uma ameaça: com a boca no trombone em uma coletiva, Sérgio Moro, até então bastião de moralidade do governo Bolsonaro, anuncia sua saída da equipe de ministros. O motivo seria uma divergência na escolha de um quadro para a direção da Polícia Federal. Moro acusa que Bolsonaro almejava ter acesso a relatórios da inteligência do órgão. Mais tarde, foi revelado que o inquérito das fake News também estava no radar de preocupações do presidente.

Assim, nosso paladino sacou sua espada e, em defesa de seus aliados da Polícia Federal e da moralidade administrativa, abandonou a cavalaria. Ou as cabeças de gado. É no mínimo irônico que as acusações de Moro sejam pivô de um possível impeachment. Seria o segundo em quatro anos. A república brasileira atestaria, de vez, sua bancarrota, para quem ainda não acredita no que os olhos por si só veem.

A extrema-direita, porém, não dorme no ponto – como já afirmei. Procura, a todo momento, se renovar. No horário de almoço, a Globo News alternou na sua programação a reluzente careca de Wilson Witzel, que discursava sobre a necessidade de se manter em casa, e algum pronunciamento estéril de Dória prestando “solidariedade” ao ex-ministro. Toda coalizão de extrema-direita é precária, instável. A história mostra: seus quadros precisam de constante renovação devido às suas contradições. A alternativa é suprimí-las pela guerra. O fascismo italiano e alemão, por exemplo, nos primeiros momentos que cambalearam, iniciaram uma violenta guerra interna, primeiro contra o movimento operário, depois contra camadas e etnias oprimidas e, por fim, assassinando seus próprios aliados e desmontando suas milícias e bases de apoio. O passo seguinte foi o que levou os regimes a entrar na história: a mobilização completa da nação para uma aventura imperialista-colonialista da Segunda Guerra Mundial.

Bolsonaro, porém, não tem consigo os meios da guerra, expondo os limites do “fascismo dependente”. Sua nação não é uma potência imperialista, como a de Trump, que vira e mexe bombardeia um novo país. Sua proximidade com os militares, por outro lado, apenas expôs que é tutelado por eles, ao invés do contrário. Seus meios ainda não se esgotaram, mas se enfraqueceram. A mais recente empreitada de “carreatas” se mostrou um fracasso, sendo minada por governadores do mesmo espectro político, sem alcançar resposta de massas. Se os velhos nazistas assassinaram os aliados, aqui as peças se invertem: os peões que cercam o Rei, esperando pelo xeque-mate. Caso o tabuleiro não seja reorganizado para seu proveito, só restará a ele um papel completamente decorativo ou, quem sabe, um suicídio político, para ser “lembrado” por meia dúzia de aloprados. Terá ele a virtù de reorganizar o caco que resta de seu governo, tirando os “revólveres da gaveta”?

No xadrez, quando uma casa estratégica é disputada, se apontam todas as peças possíveis para ela. Dessa forma, o jogador sabe que poderá conquista-la, mas nem sempre sabe com qual das peças apontadas – isso só a troca das peças, o decorrer jogo, poderá dizer.

De uma forma ou de outra, a balança são as armas, e para onde elas serão apontadas: para a república decadente ou para o fascista isolado. De uma forma ou de outra, caminhamos para a “ameaça consolidada” de construção de um novo ordenamento político – mas só a história poderá dizer qual, ainda que já saibamos com quais armas.