Morreu na madrugada de hoje, 4 de maio, vítima da Covid-19, o compositor Aldir Blanc, um dos maiores letristas da música brasileira em todos os tempos. Ele tinha 73 anos e estava internado desde o dia 15 de abril no CTI do Hospital Pedro Ernesto, localizado em Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro. Ainda não há informações sobre seu enterro e velório, mas por conta da doença a cerimônia de despedida deve ser rápida e reservada aos familiares. 

Carioca profundamente ligado ao bairro da Tijuca, onde morou a maior parte da vida, Aldir Blanc eternizou seu nome na história da MPB ao assinar canções que serão para sempre ouvidas e lembradas. Seu desaparecimento físico abre uma lacuna que dificilmente será ocupada na cultura brasileira. 

Embora deixe um rico legado de textos literários e canções gravadas, Aldir ainda tinha muito a contribuir com o país: estava lúcido e produzindo artigos, crônicas, poesias e letras de música. Mesmo quase sem sair de casa, numa reclusão voluntária de muitos anos, nunca deixou de acompanhar a política nacional e de se posicionar sempre que o momento exigia. 

Até onde sabemos, sua última composição foi Valhacouto, em parceria com Douglas Germano, gravada pelo artista paulistano no ano passado. Na letra, Aldir Blanc faz uma ácida crítica ao estado de coisas no Brasil de Bolsonaro.

Foi na Alemanha que a escumalha
Fez armas virarem leis
Em vales de lama onde a canalha
Roubava vidas sem talvez

É um valhacouto: sangue e mentiras
Vitória da insensatez
Crianças matando, imitando tiras
Vale da morte, estupidez

Chacais arrancando na marra valor
De gente que nem trabalhou
Escroques, laranjas, fantasmas, vilões, um horror

A eterna irmandade do mal
A bandalha metralha revezando a vez
Se é duro prender um bandido
Imaginem três, seis, mil!

Quero danças sobre as ruínas
Dos reinos da escuridão
Riam, riam, o circo começou a lamber
Eu quero beber pelas esquinas, reza, rimas
Mas vou precisar de vocês

Foi na Alemanha que a escumalha
Fez armas virarem leis
Entraram na guerra pensando em mil anos
A arrogância durou seis.

Formado em Medicina, com especialização em Psiquiatria (ofício que chegou a exercer na juventude), Aldir Blanc começou a notabilizar-se como compositor aos 25 anos de idade, ao lado do parceiro João Bosco. A dupla foi revelada por um disco de bolso lançado em 1972 pelo jornal O Pasquim, editado à época por Ziraldo e Sérgio Cabral. A música Agnus Sei, que dividia o compacto com Águas de Março, de Tom Jobim, seria gravada por Elis Regina no ano seguinte, o que daria grande visibilidade à obra de Bosco-Blanc.

João Bosco é o parceiro com quem Aldir mais criou: forma mais de 120 canções gravadas por inúmeros intérpretes dentro e fora do Brasil. A parceria é marcada pela forte presença de melodias aboleradas, contendo letras que são verdadeiras crônicas sociais, e também de sambas com temáticas afro-brasileiras. Destacam-se Incompatibilidade de Gênios, Bala com Bala, Gol Anulado, De Frente pro Crime, Rancho da Goiabada, Violeta de Belford Roxo, Linha de Passe, Tiro de Misericórdia e O Bêbado e a Equilibrista — esta última, na voz de Elis, tornou-se uma espécie de hino da Anistia nos estertores da ditadura.

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil!

Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora
A nossa Pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil

Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar.

Se O Bêbado e a Equilibrista, em clima de abertura política, escapou da censura do regime militar, menos sorte teve O Mestre-sala dos Mares, samba-enredo em homenagem ao marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata. É o próprio Aldir quem conta essa história em reportagem publicada no jornal O Globo pela ocasião de seu aniversário de 70 anos:

“Fui uma vez liberar O Mestre-sala dos Mares. Primeiro você passava por uma triagem de ex-policiais — era um cabide de emprego aquilo — até ser passado pra uma sala. Ali era mais complicado. (…) O interessante é que o sujeito virou pra mim e começou a fazer um sinal esfregando o dedo no antebraço. Eu não tava entendendo nada, até que ele disse que o problema de O Mestre-sala dos Mares, que não tinha esse título ainda — era primeiro O Almirante Negro ou O Navegante Negro —, o problema era justamente a palavra “negro”. E o censor era negro. Ou seja, ele estava inteiramente vendido ao sistema. Foi minha primeira vez ao lidar com um racismo oficial”.

O letrista se lembra de ter saído do departamento de censura e entrado no primeiro bar que encontrou pela frente: “Tomei uma cerveja um quarteirão depois e não conseguia chegar com o copo na boca de tanto que eu tremia. Não por medo, mas pela revelação de que o problema com João Cândido, com a Revolta da Chibata, era um problema racial e não político. João Cândido é um herói nacional sim, queiram ou não”, disse. 

Após a separação da dupla Bosco-Blanc, em meados da década de 1980, Aldir começa a compor quase que ao mesmo tempo com Moacyr Luz e com Guinga. Com o primeiro constrói uma obra mais popular e acessível; com o segundo uma obra mais erudita, em que explora seu vasto cabedal de referências literárias e filosóficas.

Com Moacyr fez dezenas de sambas falando do Rio e seus personagens inseridos na paisagem suburbana. Destacam-se Mandingueiro, Anjo da Velha Guarda, Centro do Coração, Só Dói Quando Eu Rio, A Cereja e o Vermute, Maçã Tatuada, Medalha de São Jorge e Saudades da Guanabara — tida por muitos como o hino extraoficial do Rio de Janeiro. 

Em Maçã Tatuada, esbanjando sua melhor pegada de cronista, Aldir aborda a prostituição infantil numa letra carregada de imagens que oscilam entre a delicadeza do universo infantojuvenil e a crueza da realidade a que estão submetidas milhares de crianças e adolescentes brasileiras. 

Numa esquina de Copa ficava parada
alvejada pelas setas do vício
e o início tinha sido divino:
um amante latino…
Sua boca vermelha, a maçã tatuada
sobre o ombro (a sombra de veludo)
a pele onde um homem que é nada
pensa que é capaz de tudo.

Entre o ouro e a miçanga ofegava a audácia
entre a joalheria e a farmácia
entre ser a nova estrela da Banda
e uma filha de Umbanda…
Toda vez que as pestanas castanhas batiam
o olhar trocava mil slides
Na praia, na lambada,
com a amiga que já faleceu de Aids…

E na bolsa quando ia ao toalete
a gilete, o sempre-livre
e o chiclete importado
o velho exemplar do despertar de algum mago
O apelido que não posso esquecer:
a Jezebel da Duvivier
Saiu assassinada na manchete
entre a greve e os motins urbanos…
Chamava-se Moema, era morena,
e tinha apenas treze anos

Com Guinga compôs principalmente valsas e choros. Suas letras passam, na definição de seu biógrafo Luiz Fernando Vianna, a “versos orgulhosamente repletos de delírios para melodias assimétricas”. Destaque para as canções contidas nos dois primeiros álbuns do violonista: Simples e Absurdo e Delírio Carioca, lançados em 1991 e 1993 respectivamente. Desses trabalhos saíram algumas obras-primas, como Catavento e Girassol, Ramo de Delírios, Baião de Lacan, Nem Cais Nem Barco, Lendas Brasileiras e Canção do Lobisomem.

Da parceria com Guinga, Canção do Lobisomem é uma de suas letras mais psicológicas. Ao mesmo tempo bela e sombria, faz referência a um traço oculto da personalidade humana — a fera adormecida dentro de nós que, em certas ocasiões, manifesta-se selvagem para destruir tudo o que mais desejamos. No caso, Aldir fala da paixão de um homem por uma mulher. Justamente por querê-la demais é que ele a afasta de si. O seu violento desejo, por fim, é o seu veneno.

Eu sou inquieto assim pra dar um corte
No elo entre a satisfação e a morte
Sou o ofício secreto do veneno
Corroendo o amor

Deus o tenha!
Como disse Drummond (mais que epopeia)
“Essas flores no copo de geléia” me alucinam
“Essa lua, esse conhaque” e o mar
O que mais quero
Quando não espero é que Deus dá!
Minhas unhas em garras transformadas
Rasgam a roupa da virgem apavorada
Meia-noite, ao romper aquela porta
Que a separa de mim, ela tá morta!
Não dá pra entender

Essa angústia é boa companheira
Da conversa entre o Príncipe e a caveira
Deduzi que a esperança
É uma besteira corroendo o amor

Deus o tenha!
Entre amar e matar não sobra espaço:
Quantas lâminas rente ao meu abraço
E cristais de arsênico em meu beijo
Vão matar o que mais quero
Quando não espero é que Deus dá

Nem a cobra coral, nem mesmo a naja
Dão bote da prata que viaja
Numa bala entre a arma e o meu peito
Acho graça em desgraça
Dito e feito: sou meu matador.

Foi também parceiro esporádico de Maurício Tapajós, com quem mais cantou a sua aldeia e fez Querelas do Brasil. Com Paulo Emílio fez a Valsa do Maracanã, uma ode ao riozinho poluído que corta o bairro da Tijuca. Só com Cristóvão Bastos foram mais de trinta composições, sendo que Resposta ao Tempo figurou em trilha sonora de novela, mereceu gravação antológica de Nana Caymmi e está entre as canções mais brilhantes de sua carreira. 

Esta canção, aliás, foi escolhida pelo próprio Aldir para encerrar o único álbum em que ele interpreta, de cabo a rabo, todas as faixas: Vida Noturna, de 2005, é um disco obrigatório não só pelo repertório impecável que sintetiza sua obra, mas também porque apresenta ao público o lado intérprete de Aldir Blanc — cuja voz boêmia, até então, havia se manifestado apenas de forma tímida, em participações pontuais perdidas em antigos trabalhos. 

Neste álbum, o letrista filosofa sobre a velhice. Na ocasião, perto de completar 60 anos, queixava-se do avanço da idade, que começava a lhe privar da companhia de amigos que não paravam de falecer. Ele diria, anos depois a Luiz Fernando Vianna, no livro Aldir Blanc — Resposta ao Tempo, sua biografia e inventário de letras: “Meu caderno de telefones é um cemitério: uma cruz atrás da outra. Estou pressionado por essa evidência.”

Ateu convicto, não acreditava em vida após a morte e dizia que a chegada dos netos foi um fator determinante para demovê-lo da ideia do suicídio — possibilidade nunca descartada enquanto conviveu com a depressão.   

Na matéria do jornal O Globo, publicada em 28 de agosto de 2016, respondeu a perguntas de artistas e pessoas do seu círculo de amizades. Uma delas feita pelo amigo Fernando Szegeri: “Aldir, o que, de verdade, dói? E o que, a despeito da dor toda, faz seguir em frente? O que, afinal, vale a pena?”

Assim respondeu o letrista: “O que vale a pena mesmo é, nessa altura do campeonato, quando você fica esperando a neta que vai chegar daqui a pouco, ajudar as filhas. Isso é minha grande paixão. Minha mãe teve psicose puerperal e nunca se recuperou, até morrer. Sempre foi muito quieta, muito sofrida. E eu fui criado por avô e avó maternos. Então eu faço questão, como avô, de cumprir com os ensinamentos que recebi dos dois.”

Esse amor expresso pelas crianças da família está registrado na letra de Acalanto pros Netos, feita sobre melodia de Cristóvão Bastos, que revela muito da forma como o compositor lidava com o passado e de como o passado estava sempre presente em seu caminho: 

Na primeira febre, a minha febre
E quem é quem pedindo proteção?
Ponho a mão na testa do meu neto
E é meu avô que está estendendo a mão
Nessa comunhão dos três
Eu sou avô do meu avô
Ele é o menino ali
E ri das confusões
Que o grande amor pode fazer.

É um milagre essa multiplicação
De mãos e febres por buscar ternura
E então com medo de morrer
A fragilíssima trindade jura
Ficaremos sempre assim por perto
E quando meu neto tiver neto
Uma febre unindo o que passou
Dirá pro tempo: oi, meu avô!

É por aí: um piano em Debussy
O morcego e o sapoti na praia dos coqueiros
O avô sou eu numa bicicleta
De canelas finas, mexe com as meninas
Explode a trovoada, a chuva canta
E a enxurrada leva todos nós
Fracionados sim, mas fusionados.

Rumo ao delta, à queda, ao fim, à foz
E uma vez que voltaremos
Numa febre que menino-avô terei
Até o filósofo sorri:
“É o mesmo rio, eu me enganei.”

Aldir Blanc foi um letrista genial, capaz de falar de maneira simples sobre ideias complexas e de modo profundo sobre assuntos banais. Com humor e lirismo na mesma proporção, criava imagens de rara poesia utilizando-se de palavras que nenhum outro compositor de seu nível ousaria incluir numa canção, como “hemoptise”, “xereca”, “bronha”, “cabaço”, “modess”, “camisinha” e “band-aid”. 

Podia ainda criar histórias envolvendo temas arriscados, como a pedofilia e o incesto — e o fez com maestria no bolero Adolescente (“Aos hipócritas que estão no júri/ Tenho a declarar que não sou culpado/ Nem sou inocente/ De ter me envolvido com uma adolescente”), uma das poucas canções que ele assina sozinho, letra e música. Ele também se colocou na pele de um psicopata assassino — em Retrato Cantado, cujos versos iniciais revelam seu grande élan literário (“Quem me vê sentado atrás dessa mesa de escriturário/ Não vê o tarado, o louco, o sanguinário/ O bárbaro sem véu/ O estripador cruel”).

Quando completou 50 anos, em 1996, o compositor lançou um álbum comemorativo que contou com a participação de vários artistas. Dorival Caymmi abre o disco com um depoimento. Suas palavras não poderiam definir melhor o bardo tijucano: “Aldir Blanc é compositor carioca. É poeta da vida, do amor, da cidade. É aquele que sabe como ninguém retratar o fato e o sonho. Traduz a malícia, a graça e a malandragem. Se sabe de ginga, sabe de samba no pé. Estamos falando do ourives do palavreado.” 

O “ourives do palavreado” tinha algumas obsessões. Uma delas eram as enfermeiras, por quem se dizia “completamente apaixonado”. Não há na frase, contudo, qualquer conotação sexual. Aldir era um admirador da dedicação dessas profissionais à vida humana. Como médico e como paciente, aprendeu a ver auréolas sobre a cabeça das enfermeiras. 

Anos após se recuperar de uma delicada cirurgia no fêmur, fruto de um acidente de trânsito, disse em entrevista: “Trabalhei e estive internado em hospital. E vi como essas pessoas se dedicam. Sou muito grato à enfermagem. Fiz questão de deixar claro isso num samba-canção.”

O samba-canção citado por ele é Lupicínica, uma das composições de que mais se orgulhava de ter feito. Se tivesse sobrevivido ao coronavírus, talvez saísse do hospital cantando seus versos para a equipe que o atendeu em meio à mais grave crise sanitária do país desde a gripe espanhola. Assim como Ana Karenina, personagem de Tolstói, a enfermeira de Aldir se mata por amor. 

Amei
uma enfermeira do Salgado Filho,
paixão passageira, sem charme nem brilho,
roteiro batido, romance na tarde.

E aí, numa seresta na Dois de Dezembro,
me perguntaram por ela: “Nem lembro…”,
eu respondi com um sorriso covarde.

Ouvi que bofetada! “Morreu duas vezes.
Uma aqui e agora, a outra há seis meses”.
Balbuciei: “Morrida ou matada?”

“Depende do seu conceito de assassinato.
Um pobre amor não é amor barato.
Quem fala de tudo não sabe de nada.”

Na rua do Tijolo, bloco 5, aquele de esquina,
morou uma enfermeira com a chama vital de Ana Karenina.

Dirá um dodói que Tolstói era chuva demais pra tão pouca planta.
Ô trouxa, heroínas sem par podem brotar na Rússia ou lá em Água Santa.

Aquela mulher que dosava o soro nas veias dos agonizantes
não teve sequer um calmante pra dor sem remédio que aflige os amantes.

Por mais que a literatura celebre figuras em vã fantasia
ninguém foi mais nobre que a Pobre da Enfermaria.

Aldir Blanc Mendes nasceu em 2 de setembro de 1946, no Rio de Janeiro. Antes de se estabelecer na Tijuca, passou a primeira infância em Vila Isabel, numa casa com árvores no quintal. Havia uma goiabeira branca que se curvava, imensa, até o chão. “Eu subia por ela e ficava lá em cima sonhando, lendo Monteiro Lobato, atirando com atiradeira em manga, porque não tinha coragem de matar passarinho”, disse certa vez. 

A infância vivida em Vila Isabel, que ele considerava ser a base mais sólida de sua formação como compositor, foi retratada em canções como Galho de Goiabeira, sobre música de Raphael Rabello. A letra cita traumas antigos a partir de fragmentos de memórias infantis que, invariavelmente, aparecem relacionadas à presença de um amor romântico nunca realizado.  

Num galho de goiabeira
Banquei o Tarzan pra você.
Foi num chá-de-panela
Ou na festa junina:
O garoto magrela caiu,
Minha sina cair
Ao ver você

Eu levei tombo de bonde,
No baile me esparramei,
Das escadas da Penha
Ao laguinho da Praça
Até hoje acham graça
Dos vexames que eu passei

Numa seresta, na Vila,
A valsa eu te dediquei
E apesar do luar,
Que subia do morro,
Tropecei no cachorro e caí,
Todo mundo vaiou, menos você

Em Paquetá, tão discreta,
Você fingiu não notar
Quando fiquei sem freio
E a cruel bicicleta
Pegou uma reta e
me atirou do quebra-mar

Só uma vez não caí:
Na terça de Carnaval
Vesti o velho pierrô de cetim
Pra tentar ver você no Boulevard
Sei que riam as máscaras só de mim
Na confusão ao redor
E num cordão, bailarina de organza e filó,
Você não estava só

Eu fiquei firme e sorri,
Você não retribuiu:
Um arlequim te envolvia
Em seu lenço de lança
E você pedia mais
Sei que riam as máscaras só de mim
Nos guizos da insensatez:
Ao ficar firme de amor,
Ora vejam vocês,
Meu Deus, caí de vez.

Até o fim da vida, em suas letras geniais, Aldir nunca deixou de ser o menino de joelhos ralados correndo pelas ruas de Vila Isabel. Mesmo quando sério, deixava transbordar pureza infantil na forma como via e descrevia o mundo à sua volta — condição sine qua non para a poesia. 

Respondendo à pergunta feita pelo cantor e compositor Carlos Lyra, sobre quais seriam as suas inspirações para escrever, confidenciou: “Sem dúvida, quem letra é o garoto do curtíssimo período que passou em Vila Isabel, dos 3 aos quase 11 anos. Quando esse garoto morrer, o letrista, articulista, seja lá o que for, morre junto.”

Hoje o Brasil perdeu o garoto Aldir Blanc. Com ele desaparece todo um universo: o universo blanquiano, composto por citações e imagens que jamais voltarão a se repetir na música brasileira, bem como um estilo único de escrever sobre as relações humanas. Ele foi o letrista que melhor introduziu a crônica, como gênero literário, na canção popular. E suas crônicas cantadas versavam sobre temas pouco explorados na MPB, como crimes, suicídios, doenças, delírios, tragédias, amores proibidos… Mesmo quando falava sobre o Rio de Janeiro, tema por demais cantado, sua abordagem era original: desprezava os clichês turísticos da Zona Sul e preferia ver beleza na podridão da cidade.

Resta, a quem fica, o consolo de saber que sua obra continuará disponível a quem queira nela se aventurar. O compositor foi profético ao dizer, em Pálida, que a morte talvez o esquecesse. De certa forma, por meio de suas canções, Aldir Blanc conquistou a imortalidade. Aldir está vivo. Viva Aldir!    

Sei que vivo de morrer
Por ter outra ideia na cabeça
De tanto brincar com a sorte
Pode ser que a morte canse
E me esqueça.