Socialismo chinês x individualismo ocidental: sucessos e fracassos na pandemia do coronavírus

por Roberto Santana Santos | Revista Opera

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(Foto: Centers for Disease Control and Prevention)

Enquanto a pandemia de coronavírus varre o mundo deixando centenas de milhares de mortos, os balanços políticos vão se desenhando, especialmente sobre aqueles que foram capazes de responder prontamente à doença, salvando vidas, e aqueles que não demonstraram a mesma eficácia. O fracasso nessas condições, no entanto, não pode ser creditado ao inesperado ou ao inevitável. De certo, não há cura ou vacina até o momento para o novo coronavírus, mas a tecnologia e os conhecimentos para salvar o maior número de pessoas e restringir ao máximo o contágio existem. Portanto, a eficácia ou não de um país – ou sua formação socioeconômica – é uma questão política.

A China, origem da pandemia (ainda que não saibamos se realmente foi a origem do vírus), demonstrou toda a eficiência que um Estado e uma sociedade pode ter. Contando com o elemento surpresa, por ser o primeiro país afetado, coube ao sistema de saúde público do país identificar a nova doença, seus sintomas, formas de tratamento, grupos de risco e comunicar à comunidade internacional sobre a ameaça. Tudo isso se deu em menos de um mês, em dezembro de 2019. Passados os primeiros dias de confusão, um rápido movimento foi realizado para trancar (lockdown) a província de Hubei, especialmente sua capital, Wuhan, epicentro da COVID-19. Esse território foi totalmente isolado do restante do país, todos os habitantes foram colocados em quarentena rígida, hospitais foram construídos em uma semana e a indústria foi orientada para a intensificação da produção de insumos médicos.

A eficiência chinesa foi tamanha que sua forma de combate ao vírus ganhou até mesmo um novo conceito: “supressão”, ou seja, a capacidade de acabar com o patogênico mesmo sem vacina ou cura. O objetivo de “suprimir” o vírus, ou seja, fazer ele “desaparecer” nessas condições somente pode ser alcançado com a identificação de, literalmente, todos os infectados, seu isolamento e tratamento. A China foi o país (um dos únicos, na verdade) que melhor conseguiu implementar as principais táticas de combate à doença indicadas pela OMS, que se concentram em três aspectos fundamentais: isolamento social, testagem em massa e rastreamento das cadeias de transmissão.

A quarentena foi rígida em Hubei, com a maioria das pessoas sequer saindo de suas casas. Assim fica menos difícil realizar os testes e monitorar redes de transmissão. Se uma pessoa apresenta sintomas, ela não é somente testada, mas entrevistada para que seja traçado todos os contatos que teve nos dias anteriores. Essas pessoas são igualmente testadas, localizando, dessa forma, a totalidade dos infectados, inclusive os assintomáticos, cortando as cadeias de transmissão do vírus. Devido ao isolamento social, o número de contatos vai se reduzindo com o tempo, e o mesmo com as novas infecções. Foi desenvolvido um aplicativo que os residentes de Hubei foram obrigados a baixar, que cria um QR Code único para cada pessoa, que deve ser apresentado em todas as barreiras sanitárias onde há medição de temperatura. Se houver qualquer suspeita, a pessoa recebe imediatamente uma mensagem indicando a necessidade de ficar em casa, ao mesmo tempo em que todas as pessoas que estiveram com o possível doente recebem mensagem semelhante.

Os resultados são muito claros: em um mês os casos diminuíram. Em dois, acabou a transmissão comunitária. Em três meses não havia nenhuma pessoa doente nos hospitais da China com COVID-19. O mundo assistiu atônito à eficiência do socialismo chinês em sua capacidade de mover colossais recursos – humanos e materiais – sem apresentar qualquer tipo de gargalo econômico ou distúrbios sociais. Não há notícias de empresários chineses clamando por ”abertura do comércio” enquanto se multiplicam cadáveres; ninguém furando a quarentena para ir à praia ou fazer churrasco na laje; muito menos governantes negando a gravidade da situação. As medidas descritas revelam a extrema seriedade com que a doença foi tratada. Mesmo possuindo a maior população do mundo (mais de 1,4 bilhões de pessoas), a China não se encontra sequer entre os 10 países com o maior número de infectados. A doença ficou restringida à província de Hubei, que não está entre as mais populosas, não se expandindo pelo seu imenso território (o terceiro maior do planeta).

Frente ao completo desastre que vem sendo o combate ao coronavírus no Ocidente e na América Latina, os mais fantasiosos argumentos foram tecidos para explicar o sucesso chinês, todos bem amarrados em um embrulho racista, xenofóbico e etnocêntrico. O vírus ganhou passaporte (“vírus chinês”), virou arma biológica com intenção de ajudar os chineses a se tornarem a maior economia do mundo (como se já não fossem) e a eficiência do governo de Xi Jinping somente pode ser explicada, evidentemente, por se tratar de uma ditadura horrível que controla todos os aspectos da vida social. Até mesmo uma explicação pseudo-filosófica por vezes é lançada, apontando o confucionismo como ideologia que dissemina a “tendência do chinês a obedecer”, como se o cristianismo e o pensamento liberal também não o fizessem, e como se a história milenar da China não estivesse permeada de revoltas, guerras e revoluções.

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A reação histérica do Ocidente (no qual a América Latina é erroneamente inserida nas análises) escancara o limite ideológico do capitalismo neoliberal em lidar com contradições que já não podem mais ser solucionadas em seus termos. Não se pode admitir que o neoliberalismo tão endeusado não consiga distribuir máscaras para a população, construir hospitais em tempo recorde, ou promover o trancamento de cidades. Não o pode fazer porque isso significa paralisar, não a economia, mas sim os lucros, tal como não consegue impor uma quarentena rígida, aplicar testagens em massa e realizar o rastreamento das cadeias de transmissão do vírus porque destruiu seus sistemas públicos de saúde em nome do lucro da iniciativa privada, em detrimento do bem-estar de todos. Viagens aéreas entre países que já tinham casos continuaram sendo realizadas normalmente, fábricas não foram reconvertidas para produção de insumos médicos, e quarentenas só foram decretadas quando a doença já estava disseminada – e mesmo assim de maneira muito frouxa. 

A reação das pessoas também salta aos olhos: o isolamento social é encarado como uma restrição ao indivíduo, quando, na verdade, é uma medida para salvaguardar sua vida; governantes são pressionados a afrouxar a quarentena justamente no pico da pandemia; pessoas continuam visitando parentes nos fins de semana e transitando pelas cidades. Mesmo com toda a cobertura midiática feita em torno do coronavírus, a fortaleza ideológica construída na mente de cada indivíduo de que este está acima do coletivo vence. As pessoas preferem arriscar a própria vida do que deixar de ir ao shopping, como mostrou a grotesca cena de reabertura de um centro comercial desse segmento na cidade de Blumenau, Santa Catarina, dia 22 de abril.

A explicação para isso se encontra no modelo neoliberal seguido pelo Ocidente e sua periferia latino-americana há quase meio século. A destruição da noção de “público”, da responsabilidade social do Estado e de cada indivíduo em particular, e a fantasia do “mercado autorregulado” concebeu uma vida marcada pela precariedade para a maioria da população, solo fértil para o desenvolvimento de um modelo de vida individualista, egoísta e imediatista. Antes da pandemia, o mal-estar já era evidente: concentração de renda em níveis obscenos, devastação ambiental em proporções bíblicas, precarização do trabalho na contramão do desenvolvimento tecnológico. Com o coronavírus soma-se a esses fatos a incompetência total do capitalismo neoliberal em resguardar a vida, quando não, o culto à morte promovido pela extrema-direita – ela própria uma criação da decrepitude neoliberal, do qual, infelizmente, o Brasil se tornou o maior exemplo.

A catástrofe sanitária do neoliberalismo demonstra a falta de eficácia desse modelo nas políticas públicas, na mobilização social pelo bem comum e até mesmo na produção de bens – quando estes não são mercadoria no sentido mais estrito. Quando comparado à China, esse capitalismo neoliberal (e ocidental) revela não só sua pequenez e ineficiência, mas também, seus “erros” de análise – na verdade, discurso panfletário liberal para afastar as massas de outro modelo societário. Algumas ponderações: 

1) O Estado chinês é eficiente porque é socialista. Não faltaram oportunidades para que a China abandonasse este projeto e abraçasse o capitalismo, mas não o fez, porque percebeu que o manejo das enormes contradições existentes em sua sociedade não cabem nos limites do capital. É o socialismo que permite à China manter a estabilidade e prosperidade interna, e a inserção soberana no mundo globalizado. Suas políticas econômicas são hoje o modelo a ser seguido e se demonstraram muito mais eficientes que o capitalismo, inclusive no combate à pandemia.

2) Ao contrário dos seus detratores, que o chamam de ditadura, o Estado chinês é governado por um partido com mais de 90 milhões de filiados, o que lhe permite, literalmente, representar toda a população. Os conflitos da sociedade chinesa se dão dentro do Partido e do governo, mas sua amplitude social lhe permite manejar esses confrontos sem dividir o país. O socialismo chinês apresenta diversos graus de participação popular completamente ausentes das “democracias ocidentais”, como os “comitês de bairro”, o espaço mais básico de atuação política da cidadania chinesa – acessível a qualquer um. Esses comitês foram vitais para a vitória sobre o coronavírus, já que seus representantes foram responsáveis pelas ações comunitárias, como medir a temperatura dos vizinhos, notificar as autoridades sanitárias sobre os infectados, etc. Demonstra-se assim novas formas de participação política, urgência consensual no mundo de hoje.

É a “democracia liberal” que está em descrédito atualmente com seus cidadãos, não o socialismo chinês. Este configura-se como uma nova formação social que já se apresentava como modelo econômico de crescimento mais bem-sucedido do século, e agora escancara sua eficiência também em salvar vidas e organizar a vivência cotidiana. Está na hora de colocar de lado as limitadas ferramentas de “compressão” (negação?) da realidade impostas pelo pensamento neoliberal e entender a China a partir de si mesma. As acusações de “ditadura”, “vigilância” e “desrespeito aos direitos humanos” são “tigres de papel” do capitalismo ocidental para disfarçar suas próprias faltas nesses e outros pontos. Ditaduras não mobilizam a população em massa para emergências sanitárias, ação sem a qual a China não derrotaria o coronavírus com tamanha eficácia. Aplicar e seguir regras de quarentena não são uma restrição ao indivíduo, mas sim, consciência de responsabilidade coletiva.

Modelos devem ser compreendidos apenas como pontos de partida para novas ideias. Jamais devem ser cópias. Cuba e Venezuela, mesmo bloqueadas pelos Estados Unidos, apresentam sucesso no combate à COVID-19 ao adotarem as mesmas táticas chinesas, mas adaptadas às suas realidades. Os próprios chineses têm ciência de sua particularidade ao nomearem seu sistema como “socialismo com características chinesas”. Em outras latitudes, outras soluções devem ser concebidas. Mas quando as disparidades entre realidades distintas são tão fortes, a ponto de decidirem sobre a vida e a morte de enormes contingentes humanos, estamos diante de uma bifurcação histórica. E quando o pensamento em xeque (o capitalismo neoliberal) ataca tão ferozmente a experiência bem-sucedida (o socialismo chinês), com a utilização de clichês racistas e panfletários, fica claro quem está perdendo. Passadas duas décadas do século XXI, estão cada vez mais nítidas as tendências do sucesso e do fracasso para esta quadra histórica. Cada sociedade terá escolhas cruciais a realizar nos anos posteriores à pandemia, que reverberarão por décadas à frente.