Governo dos EUA teme que a China ofereça gratuitamente vacina de Covid-19

por Alan Macleod | Mintpress News - Tradução de Leonardo Igor

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(Foto: Xinhua/Peng Ziyang)

O número global de mortos oficiais de coronavírus ultrapassou hoje um quarto de milhão de pessoas, incluindo mais de 69.000 nos EUA (embora esse número seja subnotificado). Pesquisas mostram que o povo norte-americano está extremamente preocupado com a contração do vírus. No entanto, seu governo tem uma preocupação bem maior: a de que, se encontrarem a vacina COVID-19, a China a copie e a distribua gratuitamente.

Para muitos, não ficará imediatamente claro por que seria um problema para uma superpotência industrial, lar de 1.4 bilhão de pessoas, inocular a si própria e a outras. Mas para a Casa Branca, isso seria “roubar” uma potencial inovação norte-americana. “A pesquisa biomédica tem sido um foco de roubo, especialmente pelo governo chinês, e as vacinas e tratamentos para o coronavírus são o santo graal de hoje”, disse John C. Demers, procurador-geral adjunto da Segurança Nacional, que acrescentou que, “pondo de lado o valor comercial, haveria um grande significado geopolítico em ser o primeiro a desenvolver um tratamento ou vacina. Usaremos todas as ferramentas que temos para proteger a pesquisa americana.” O fato de a propriedade intelectual e os lucros das empresas farmacêuticas multinacionais serem oficialmente colocados acima da salvação de vidas, mesmo durante uma pandemia que ameaça toda a humanidade, não foi mencionado pelo The New York Times, que cobriu os comentários de Demers.

Dean Baker, professor visitante de economia da Universidade de Utah e economista sênior do Center for Economic Policy Research, em Washington, DC, ofereceu uma visão alternativa, alegando que ficaria satisfeito se a China “roubasse” a tecnologia da vacina e a cedesse a bilhões de pessoas, dizendo ao MintPress News: “A pandemia de coronavírus é um exemplo claro de que o mundo inteiro compartilha o interesse comum no desenvolvimento e distribuição de uma vacina. Isso deve significar ter uma pesquisa aberta, onde todas as descobertas são postadas na Web o mais rápido possível, para que as pesquisas possam se basear nelas. Uma vez desenvolvida a vacina, devemos espalhá-la pelo mundo o mais rápido possível, ao menor custo possível. A preocupação de Trump de que a China de alguma forma ‘roube’ uma vacina significa que ele está mais preocupado em proteger os lucros de alguém por aqui, bem como possivelmente em uma questão de ego (somos o número um) do que supostamente salvar centenas de milhares de vidas.”

Baker já havia defendido a substituição do sistema de pesquisa médica privada por um sistema de código aberto de capital público que ele acredita ser capaz não apenas de salvar vidas, mas também economizar dinheiro.

O fato do governo dos EUA acusar outras nações hipoteticamente de roubo durante a pandemia é particularmente digno de nota, visto que ele lidera o mundo no confisco e detenção de suprimentos médicos pagos e vinculados a outros países. Barbados, por exemplo, acusou o governo Trump de “pirataria moderna” depois de bloquear o envio de 20 ventiladores para a ilha, mantendo-os para si. Autoridades norte-americanas também sequestraram um avião cheio de 60 milhões de máscaras com destino à França enquanto estavam na pista de um aeroporto chinês. Enquanto isso, no auge da pandemia, um avião militar norte-americano misteriosamente conseguiu voltar ao Tennessee com meio milhão de kits de testes da Lombardia, Itália.

As empresas farmacêuticas americanas também estão testando seus produtos em pacientes chineses com COVID-19, na esperança de entenderem o que funciona melhor como um tratamento eficaz. Em março, o governo Trump tentou obrigar uma empresa farmacêutica alemã a transferir sua produção para os EUA, a fim de garantir que os Estados Unidos tivessem acesso e controle de qualquer vacina contra o coronavírus que pudesse produzir. O presidente supostamente queria garantir que ela só estaria disponível em uma base com fins lucrativos. “A Alemanha não está à venda”, respondeu o indignado ministro da Economia do país, rejeitando a ânsia por lucro.

No início dos anos 50, o cientista americano Jonas Salk foi pioneiro em uma vacina que mudava o mundo no combate à poliomielite, uma doença mortal que dezenas de milhares de americanos contraíam anualmente. Em vez de patentear e fazer uma fortuna, ele insistiu que sua invenção pertencia a toda a humanidade. Em 1994, a poliomielite foi erradicada na América do Norte. No entanto, 70 anos depois, a lógica do capitalismo determina que, onde há grande utilidade, há enormes lucros a serem obtidos, e quem age fora desse sistema para reproduzir uma vacina não está agindo com responsabilidade, mas “roubando”. O fato de Washington querer limitar que outros possam beber de qualquer “santo graal” que encontrar, em nome daqueles que podem pagar por isso, mostra quão longe estamos dos dias de Salk.