Muita mídia, pouca militância: Reflexões sobre a ação política

por Jones Manoel | Revista Opera

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(Imagem: Estúdio Gauche)

Escrito em homenagem ao meu camarada Paulo Lira, um exemplo do que é ser um militante revolucionário.

O francês Louis Althusser, em famosa polêmica com o hoje esquecido John Lewis, afirmou que “as massas fazem a história”. O debate entre Althusser e Lewis, dentre outros aspectos, abordava o papel do sujeito na história. Criticado por seu estruturalismo, que só analisava a eficácia das estruturas sobre os processos, o filósofo francês criou uma interessante (embora problemática) teoria da história. Embora discordando de Althusser na formulação teórica e no seu significado político, um aspecto desse debate muito me agrada: a tentativa de fundamentar uma teoria da história, e consequentemente uma historiografia, em que o sujeito coletivo – e não as grandes personalidades – é o único protagonista. 

Na produção teórica do conhecimento histórico, jornalismo, análise sociológica, etc., tendemos sempre buscar o protagonista dos processos. A imprensa, na cobertura de uma greve ou manifestação, não consegue conceber uma dinâmica coletiva que não tenha um líder no papel de personificação-direção do movimento. É típico do romance histórico burguês a existência de um protagonista e uma série de personagens secundários que existem apenas para dar sentido à ação do herói. 

Mesmo na historiografia de esquerda, pioneira de uma história social centrada no fazer-se da classe trabalhadora e dos explorados numa maneira geral (lembrem-se, por exemplo, do clássico “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, de Engels), buscamos de maneira viciante entender a personalidade, a história, a vida privada dos líderes. Um bom exemplo é que ao falar de Revolução Russa, sabemos mais sobre Lênin, Trotski e Stálin que dos camponeses, operários e soldados que construíram os sovietes. 

Essa tendência é um reflexo próprio das formas sociais burguesas. Portanto, não é apenas um erro metodológico que será sanado quando a orientação teórica correta for suficientemente consagrada e dominar o campo intelectual. Pois, enquanto produto indissociável do ser social burguês, tal tendência será sempre uma constante nas formas ideológicas vivenciadas. Contudo, essa dimensão ontológica da questão não deve nos furtar do empenho na compreensão do problema e formulação de estratégias para combatê-lo.

Sem qualquer pretensão de esgotar o tema nessa curta e assistemática reflexão, gostaria de delinear alguns pontos. Primeiro, o papel da Internet na potencialização dessa tendência de idolatria das grandes personalidades – e na promoção de falsos líderes ou guias. Ao falar da relação entre Internet e política, o tema corrente é a função das redes na batalha das ideias ou a ideologia, hoje pouco popular, de que a Internet traria o reino prometido da democracia direta e do controle social. Uma temática pouco abordada é como a Internet criou uma dinâmica que projeta personalidades formadoras de opinião política sem qualquer base social de militância e atuação real.

Com um conhecimento razoável de comunicação e marketing, por meio da produção de textos e vídeos, atrelada a outros elementos, como um perfil sociológico de apelo popular, é possível se tornar uma referência em vários setores da esquerda atual sem nunca ter pisado no movimento estudantil, sindical, comunitário, cultural, camponês, etc. Vamos tentar visualizar isso através de dois exemplos hipotéticos, nos quais qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. 

Imagine uma figura que passe a publicar os chamados “textões” no Facebook acerca do feminismo e racismo. Essa mesma pessoa começa a receber atenção acima do comum e transforma seu perfil numa página alvo de muitos acessos e seguidores. Percebendo tal dinâmica, logo passa a comentar, de mesmo modo quase sempre superficial, todo tema genérico em destaque no momento (como Big Brother Brasil), enquanto sua visibilidade cresce num ritmo cada vez mais acelerado. Consequentemente, acaba sendo convidada para várias mesas e palestras; a partir disso, já como um ícone, vira colunista de revistas e programas. Assim temos a referência política criada sem qualquer lastro de atuação coletiva e o famoso “trabalho de base”.

Ou então imagine um grande portal de notícias com nome gringo, algo como The Anti-communistcept Brazil, que saia recrutando jornalistas e professoras que falam mandarim e vivem nos cafés da Europa. De repente, esses jornalistas e colunistas, distantes do chão lamacento das ocupações ou da rotina cansativa de tentar organizar sindicatos, associações estudantis e outros espaços coletivos, começam a escrever colunas dizendo o que a esquerda deve fazer, sempre preocupados em exorcizar os radicais e o radicalismo, e construir uma esquerda de “extremo-centro”: distante dos extremos e que olha para Bolsonaro e vê Mao Tsé-Tung ou que proíbe, sob pena de um expurgo midiático, homenagear figuras como Lênin (só para lembrar: homenagear FHC e Tabata Amaral é prática permitida!). Que sentido faz esses sujeitos quererem pautar a nossa ação? 

Essa tendência à consagração de referências políticas por meio da Internet, sem uma base real de atuação política coletiva, influencia a militância das pessoas organizadas (especialmente os jovens). A busca por ser o formulador teórico, a personalidade pública, a pessoa que fala nos atos e assembleias, acaba configurando ao militante uma função autônoma frente ao necessário: a figura pública de uma organização como apenas o militante destacado para verbalizar e defender em situações de massa o programa político da organização. De modo contrário, a figura pública se projeta como sinônimo de status, prestígio, reconhecimento e, nos setores moderados ou social-liberais da esquerda, fonte de muito dinheiro, espaço para escrever em sites “importantes” e fábrica de passeios por belas cidades da Europa.

Esse tipo de “cultura política” sempre tende a ver o bom militante como a figura pública. Desse modo, especialmente na juventude, coisas estranhas se consolidam: como o sujeito se preocupar mais com a interação em polêmicas de visibilidade nas redes sociais que nos seus espaços de atuação cotidiana. Tal prática política, além de ser porta aberta para carreirismo de todos os tipos, estimula formas de consciência burguesa individualista e hedonista, fomentando uma militância crivada de desvios liberais, em que o mais importante não é atuar de acordo com a tática coletiva, mas estar nos espaços com mais visibilidade.

Ser bom militante é tomado como sinônimo de ser famoso e figura pública. Essa concepção totalmente errada do que é ser um bom militante, além de reproduzir uma forma de consciência burguesa da história feita pelas grandes personalidades, acaba tomando uma compreensão errada da dinâmica de funcionamento de uma organização política que, para o horror do “extremo-centro”, pretende fazer uma Revolução Brasileira. 

Vamos ilustrar isso com um exemplo histórico. Você sabe quem foi Sverdlov? Foi o grande revolucionário russo Iakov Mikailovich Sverdlov, um dos homens fortes do Partido Bolchevique, considerado por todos um organizador brilhante. Lênin, em telegrama enviado a Grigori Zinoviev em 1918, questionava se Bukharin e Sverdlov estariam prontos para assumir o partido caso ele morresse. 

Sverdlov é o tipo de homem que não aparece com foco nos livros de história. Não foi um teórico que deixou livros e mais livros, não tinha como característica ser um grande orador público e estava longe de ser uma figura carismática. Entretanto, foi o tipo de comunista que organizava o partido, garantia seu funcionamento, recrutava trabalhadores, montava sindicatos, garantia a operacionalização do jornal, cuidava do fluxo de caixa das finanças, etc. É como se o partido, ou qualquer outra organização política, fosse um time de futebol: todas as atenções estão voltadas para os meio-campo e atacantes, mas sem uma boa zaga, nada funciona e nenhum título é ganho.

São as qualidades essenciais, mas que não trazem glamour e fama, como disciplina na cotização militante, comparecimento assíduo nas reuniões de núcleo, feitura das atividades, atuação prática no seu local de inserção (estudo, moradia ou trabalho), acompanhamento sistemático da linha política da organização, etc. que constituem um bom militante. Todo militante comunista, para ser um bom comunista, deve ter um pouco de Sverdlov. Isso não significa, é claro, negar a divisão de tarefas. Alguns serão principalmente figuras públicas, outros têm mais um perfil de formulação teórica, outros são agitadores de massa, outros dirigentes de entidades de massa, outros grandes organizadores, dentre outras funções. A divisão e especialização de tarefas é um princípio leninista plenamente correto.

Contudo, um princípio – também leninista – nos ensina que todo militante deve se esforçar para sempre melhorar o máximo possível a disciplina interna na construção de sua organização enquanto um operador político revolucionário. Essa construção faz-se no dia a dia, cumprindo o fundamental. Uma organização na qual a maioria dos seus militantes cumprem o básico – cotização, regularidade das atividades, bom fluxo de informações, garantia das instâncias e demais atividades – cria as condições para realizar o extraordinário. Fazer o básico é revolucionário!

Todos os debates sobre a estratégia revolucionária, se não estão amparados numa atuação cotidiana na base – seja na universidade, no sindicato, na associação de moradores, no coletivo cultural e assim por diante – tornam-se debates escolásticos, controvérsias de intelectuais pedantes que disputam para ver quem vende mais livros ou quem tem o maior ego acadêmico. Disputa política nunca é um livre debate de ideias no qual vence quem tem o melhor argumento. 

Consegue fazer sua estratégia política hegemônica aquela organização que, ao lado de uma boa compreensão da realidade, tem capacidade de organizar e dirigir os explorados e oprimidos em suas lutas. Proclamar que tinha a razão, mas infelizmente as massas não ouviram, uma especialidade de certas vertentes do marxismo (como algumas correntes do trotskismo), é até simpático, mas é principalmente patético.

A capilaridade social de uma organização é a síntese da atuação de milhares de núcleos de base em diversas frentes, em que os militantes realizam o básico de sua atuação política. Ou seja, a título de exemplo, mais valem 100 militantes atuando organicamente nas suas entidades sindicais que 200 digital influencers com peso midiático compondo debates superficiais na Internet. 

Não quero, evidentemente, afirmar que a agitação e propaganda nas redes não são importantes (seria ridículo, logo eu, dizer tal coisa); a questão real é que se somos leninistas, a agitação e propaganda, em todos os espaços, inclusive na Internet, tem como função organizar o povo trabalhador e divulgar a linha política, buscando fazer a ligação entre a organização e o povo, materializando as propostas e programa político da organização em força social real. Toda atuação nos meios digitais, desligada da busca de organizar os explorados e disputar a hegemonia, torna-se inútil. 

Em suma, o militante, para construir um projeto revolucionário, deve combater o culto das grandes personalidades e as ideias equivocadas de que ser “bom militante” significa ser uma grande figura pública. O bom militante é aquele que é organizado, disciplinado, atuante e dedicado na função que cumpre, trabalhando como uma célula viva da organização. O bom militante busca não ser o Lênin da revolução, mas sim inspirar-se no exemplo de Sverdlov e entender que a nossa missão não é entrar para história e almejar estátuas próprias erguidas, mas criar as condições para que as massas façam sua história!

E claro, quando as massas fazem história, elas forjam seus líderes, surgem seus Lenins. Estamos bem longe da concepção de política infantil que toma ares de ideologia “libertária” que imagina um fazer político sem organização e líderes. O que nunca devemos esquecer é que figuras como Lênin, Fidel, Mao, Hugo Chávez etc., só puderam ser líderes de um processo coletivo porque, dentre outras coisas, dedicaram sua vida a organizar as massas com uma disciplina inquebrantável. 

“Há homens, chefes do proletariado, dos quais pouco se fala na imprensa, talvez porque eles mesmos não gostem que se fale sobre a sua pessoa, mas que são, não obstante, seiva vital e verdadeiros dirigentes do movimento revolucionário. Sverdlov era um desses chefes. Organizador até a medula, organizador por natureza, por hábito, por educação revolucionária, por instinto, organizador por toda a sua fervorosa atividade: tal é a figura de Sverdlov.” – Josef Stálin, 1924