O sucesso de Cuba com a Covid-19 explicado de dentro

por Andreu Barnils | VillaWeb - Tradução de Gabriel Deslandes, Revisão de Beatriz Aguiar

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(Foto: GCIS)

Cuba é um dos países com um dos sistemas de saúde de maior reconhecimento no mundo e, durante a pandemia da Covid-19, isso foi demonstrado mais uma vez. É o que os números apontam: no dia 2 de maio, havia 67 mortos e uma proporção de seis por milhão de habitantes. Situação muito melhor que as de Portugal (102) e Alemanha (81), sem falar da Suécia (265), EUA (205) ou Espanha (540 para cada milhão). Em Cuba, seis. A média mundial, 31. E na Espanha, 540. Em decorrência de seu prestígio, os cubanos têm 28 mil médicos em missões internacionais há anos e, durante a atual epidemia, uma equipe foi a Andorra para colaborar. O Estado espanhol não permitiu que uma parte dessa equipe chegasse a Valência e à Catalunha, conforme solicitado.

As diferenças já são vistas nos longos e detalhados relatórios médicos publicados pelo Ministério da Saúde cubano. Segundo o informe de 2 de maio, uma pessoa havia morrido, 2.744 estavam hospitalizadas e 6.515 seguiam sendo monitoradas em casa. Esses relatórios explicam, sem dar nomes, caso a caso – os casos críticos, os graves e os óbitos. Todos. Por exemplo, o falecido citado no material é apresentado da seguinte forma:

“Faleceu cidadão cubano de 58 anos, procedente do Centro de Proteção Social do município de Cotorro. Ele tinha um histórico patológico pessoal de alcoolismo, doença pulmonar obstrutiva crônica. Ele foi internado por apresentar diarreia e cárie. O exame físico revelou acentuada deterioração física e nutricional, presença de sibilos nos dois campos pulmonares, estabilidade hemodinâmica. Apresentou repentinamente dispneia súbita, bradicardia, hipotensão e cianose. Ele teve uma parada cardiorrespiratória, foram realizadas manobras de ressuscitação cardiopulmonar que não foram eficazes. Lamentamos profundamente os eventos e transmitimos nossas sinceras condolências aos familiares e amigos.”

Um por um, casos críticos, sérios e positivos da Covid-19 são explicados nos relatórios diários. Algo inimaginável em nossa terra.

“Somos fortes na prevenção”

Há alguns dias, o Ministério da Saúde de Cuba relatou os três medicamentos que utiliza nos casos mais graves. Eles são o antirretroviral Kaletra, o Interferon Alfa-2b e a cloroquina. Contudo, a grande força do sistema cubano não é a tecnologia ou recursos de ponta. É a saúde pública, medicina básica e prevenção. Explica à VilaWeb a Dr.ª Tania González Vázquez, médica de atenção básica no bairro El Vedado, em Havana, e professora da Universidade de Ciências Médicas da Escola Latino-Americana,: “Nós em Cuba somos fortes na prevenção, o que nos ajudou muito com a Covid-19. Usamos drogas monoclonais ou até homeopatia, algumas gotas sublinguais que estimulam o sistema imunológico e que já usávamos contra a dengue. Fazemos terapia antecipatória para impedir que os pacientes piorem, usamos retrovirais, antibióticos e o Interferon Alfa-2b por via intramuscular. Também o Oseltamivir. Tudo isso ajuda na prevenção. Porque parte do sucesso é que não esperamos os casos se agravarem. Em Cuba, por conta do bloqueio, contamos com menos recursos ainda. A situação piorou, mas temos treinamento e estamos preparados para trabalhar sem recursos. É a população, por exemplo, que tem feito as grossas máscaras de tecido com três camadas; substituindo as luvas, muitas vezes, escassas”.

A Dr.ª González trabalha na policlínica de Corinthia, em Havana, que atende 22 mil pessoas com 23 escritórios. Ela pessoalmente cuida de 1.033 pessoas, das quais 342 são idosas, abrangendo 417 famílias: “Dividimos as policlínicas em duas zonas: uma para pacientes com problemas respiratórios e outra para outras doenças. As duas zonas não se comunicam. Na nossa, tivemos nove casos e duas mortes”.

“Ficar em Cuba foi uma boa ideia”

Desde 2015, Lena Solà Nogué, nascida em Barcelona, ​​passa longas temporadas residindo em Cuba, pois trabalha no estúdio do artista plástico Wilfredo Prieto. Semanas atrás, ela teve que decidir se deveria passar a pandemia na ilha ou retornar à Catalunha: “No final, decidi ficar aqui e acho que foi uma boa ideia”, disse à VilaWeb. “Vivo muito mais relaxada que vocês (na Espanha). Observo que há um controle muito mais rigoroso aqui e não o descontrole que tenho visto dos governos europeus. Cuba tem muitas falhas, mas, em tempos de crise ou emergências, é um país que dá bons resultados. Você vê isso com ciclones ou furacões, com poucos mortos, e agora vimos novamente. Sob esse disfarce de ruína, a saúde funciona. De outra maneira, mas funciona. As pessoas aqui têm muito mais conhecimentos médicos básicos do que nós. A população, em geral, é mais informada.”

Estes são alguns aspectos-chave do sucesso da gestão da Covid-19 na ilha.

Confinamento

“As pessoas são obrigadas a ficar em casa e, se você precisar sair, terá que usar uma máscara. Por outro lado, há bairros ou edifícios isolados. Você não pode entrar nem sair, e eles são controlados pela polícia. As pessoas obedecem ao confinamento? Temos de tudo, pois não há percepção de risco. Acontece sempre. Todo mundo acredita que ‘não será a minha vez’”, diz a Dr.ª González. “Acho que, em Barcelona, o confinamento foi feito muito tardiamente, enquanto aqui, com somente quatro casos, as coisas realmente começaram a fechar”, diz Lena Solà. “Porém, mesmo antes que as autoridades tenham dito, todo mundo se adiantou. As pessoas pediram que as escolas fossem fechadas antes das autoridades. Caminhões com megafones alertam para que saídas desnecessárias sejam evitadas e controlam para que todos usem máscara ou saiam em grupo. A maioria não pode ir trabalhar.”

Crianças

“As crianças devem estar em casa e receber as aulas pela televisão. Das 8h às 9h, são dadas as aulas de um curso; das 9h às 10h, de outro e assim por diante. E assim as aulas continuaram. Apesar de haver cada vez mais pessoas que usam telefones celulares e têm acesso à Internet por dados móveis, o que mais funciona é, principalmente, a televisão. Todo mundo a assiste. E as crianças hoje em dia acompanham seus cursos pela televisão”, diz Lena Solà.

Pesquisas

“Vamos às casas das pessoas, pois nem todo mundo tem telefone ou celular e, sem entrar, perguntamos se têm sintomas, desconforto, quantas pessoas vivem lá, se há pessoas mais velhas ou se tiveram contato com casos confirmados. Casa por casa. Fazemos isso com toda a população. Como são muitas pessoas, não só os estudantes de enfermagem foram mobilizados, mas também a população que perdeu o emprego. Eu vou, por exemplo, junto a um trabalhador de uma companhia telefônica e um professor universitário. Ambos me ajudam com a pesquisa. Eles trabalham comigo, mas a universidade e a companhia telefônica pagam a eles 60% de seus salários”, diz a médica.

Centros de isolamento

“Junto da atenção primária e os hospitais, existem centros de isolamento. Alguns são pequenos hotéis ou escolas que se voluntariaram. Para lá, vão pessoas que não apresentam sintomas, mas que sabemos que entraram em contato com os pacientes. Ou em contato com pessoas não infectadas, mas que, por sua vez, tiveram contato com casos confirmados. Nós as isolamos 14 dias em casas para duas pessoas e as monitoramos. Caso elas apresentem sintomas, vão para o hospital. E se não, quando saírem do centro de isolamento, eu as acompanharei em casa”, afirma Solà.

Hospitais

“Começamos a utilizar plasma de pacientes recuperados. É usado em pacientes muito graves e tem dado bons resultados. Já fizemos isso com o Ebola”, diz a médica.

Aeroportos

“Medimos a temperatura de todos que entraram no país e os colocamos nos centros de isolamento por 14 dias, apresentando sintomas ou não, com monitoramento diário. E, para aqueles com mais de 60 anos, damos estimuladores de células. Depois que esses viajantes recebem alta, também os monitoramos em casa”, afirma a médica. “Os cubanos, quando entram no país, antes de pegar a bagagem, precisam passar por um check-up médico e depois são mandados a um consultório. Isso sempre aconteceu, não é de agora. Toda vez que entravam, antes de pegar suas malas, tinham que explicar onde estiveram”, conclui Lena Solà Nogué.