Chile: a sociedade empurra a mudança

por Gisela Brito e Guillermo Javier González - Celag | Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera - Revisão de Giovanna Olivetti

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(Foto: Carlos Figueroa)

Em outubro de 2019, o Chile surpreendeu o mundo com um surto social que ninguém previa. A expressão massiva do desconforto de milhões de chilenos que saíram às ruas, mesmo em um contexto fortemente repressivo, explodiu as frágeis costuras do “país modelo neoliberal” da América Latina. Não foi um fenômeno conjuntural, mas um ponto de ruptura dado por uma série de demandas sociais não atendidas que o atual sistema político é incapaz de absorver e processar. A partir daí, foi imposta uma significativa mudança constitucional  por uma demanda majoritária para colocar fim em um modelo econômico, político e social que não funciona.

Nesse desajuste estrutural é necessário buscar as chaves para analisar o contexto atual e as perspectivas que se abrem sobre o futuro político do Chile. Uma leitura global da pesquisa nacional realizada pelo CELAG evidencia como o momento de efervescência política que atravessa o país não foi ofuscado pelo surto da pandemia de coronavírus – que na verdade estaria contribuindo para acentuar as deficiências do modelo econômico em termos das desigualdades que ele gera. No ano passado, 4 em cada 10 chilenos tentaram acessar empréstimos para financiar suas despesas, e a pandemia significou um golpe adicional no bolso de três em cada quatro chilenos: metade (50,2%) teve parte de seus recursos econômicos reduzidos devido à situação atual, enquanto um em cada quatro (23,9%) perdeu por completo sua fonte de renda.

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Em relação ao atual governo, a opinião majoritária segue sendo muito contrária a Sebastian Piñera: 71,7% dos chilenos e chilenas qualifica sua gestão de forma negativa, e tem um saldo de imagem de -52,9% (diferença entre negativo e positivo). Deixando de lado o contexto da Covid-19, quase dois terços (64%) consideram que o governo abusou do seu poder  com o uso do Estado de exceção e toque de recolher durante o último ano, dado que se relaciona com o fato de que ¾ dos cidadãos (74,3%) tenham uma visão positiva sobre os protestos que se desencadearam a partir de outubro.

É opinião da maioria da sociedade (61,6%) que o Chile vive um momento de transformação política, questão que a princípio pareceria pôr em dúvida o lugar-comum de que a sociedade chilena é majoritariamente apática, e que abre uma perspectiva interessante para analisar o que ocorrerá quando passar o pico da pandemia e as águas da política nacional voltem a se agitar. Ao serem consultados sobre as sensações sobre a situação atual, como ocorre em outros países, a sensação predominante, de longe, foi de incerteza (48,7%). Mas, em compensação, quando perguntados sobre a palavra que melhor expressa as sensações em torno da mudança constitucional, as sensações positivas chegam a até 60,7%, entre “esperança” (43,5%) e “confiança” (17,2%), o que significa um clima de alta expectativa positiva.

Esta breve radiografia mostra que boa parte dos imaginários sociais dos chilenos estão em um processo de reconfiguração, que não tem uma direção necessariamente inequívoca. Cresce o questionamento ao modelo econômico, centro de gravidade de um modelo de sociedade que também está em crise, onde sentidos comumentes neoliberais fortemente arraigados estão começando a conviver com percepções emergentes em torno do papel do Estado como garantidor de direitos fundamentais (por exemplo, o acesso a um recurso tão vital como a água, além de saúde e educação). Quanto a política chilena se moverá a um sentido progressista ou conservador dependerá da capacidade das forças políticas de aglutinar e levar em frente tais demandas. Campo fértil para o progressismo há.