No dia 27 de maio, foi publicado um comunicado à imprensa pela embaixada dos Estados Unidos na Colômbia, e começou a circular a notícia de que o governo colombiano havia firmado um acordo com os EUA para que militares pertencentes ao Comando Sul (da sigla em inglês SOUTHCOM) entrassem no país em junho para auxiliar no combate às drogas.

Nas duas últimas décadas, a Colômbia foi a principal receptora de ajuda militar norte-americana no hemisfério ocidental, superando 10 bilhões de dólares. Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), a Colômbia apresentou em 2019 um gasto militar de US$ 10,084 milhões, o que representa 3,2% de seu PIB, um dos mais altos da região. No entanto, a fórmula de maior gasto em Segurança & Defesa não resultou em maior desenvolvimento e integração social, e está longe de marcar uma redução na produção de drogas ilícitas.

Em que consiste o acordo?

O documento publicado pelo Comando Sul em 28 de maio afirma que a Brigada de Assistência das Forças de Segurança (da sigla em inglês SFAB) “proporcionará apoio militar aos esforços diplomáticos e de desenvolvimento dos EUA e da Colômbia, treinando, assessorando e ajudando as unidades anfitriãs com o fortalecimento de capacidades cruciais para a melhoria da cooperação antidrogas entre EUA  e Colômbia”.

Congressistas do Partido Social de Unidad Nacional e da coalizão de oposição (Colômbia Humana – UP, FARC, Pólo Democrático e outros) questionaram o governo citando o debate de controle político por transgredir o artigo 173 da Constituição e omitir a solicitação de aval do Congresso, enquanto os meios de comunicação justificaram a ação porque a missão estrangeira “não irá intervir em operações militares”, vai oferecer apenas assessoria, conforme anunciou o ministro da Defesa.

O fato de que a SFAB é uma força militar pertencente ao Exército dos EUA é elemento suficiente para respaldar a preocupação dos que se opõem à missão. No entanto, também é certo que a política externa entre ambos os Estados tem uma tradição extensa, pela qual existem “acordos de cooperação militar” aos quais o governo pode recorrer para justificar a chegada das forças norte-americanas, como em 2009, quando o governo Uribe pôs à disposição o “acesso, uso e propriedade das instalações” correspondentes a sete bases militares (Palanquero, Malambo, Tolemaida, Larandia, Apiay, Cartagena e Málaga).

Para entender melhor, as SFAB são unidades militares formadas na Military Advisor Training Academy (MATA) de Fort Benning, a nova “Escola das Américas” localizada no estado da Geórgia, e sua ajuda “se baseia nas necessidades operacionais e institucionais das nações parceiras e aliadas dos EUA”. Em outras palavras, participam das operações de comando, controle, comunicações e inteligência (C3I), tarefas que esta mesma brigada apoiou no Afeganistão em 2017. O que o governo colombiano propõe em seu discurso, equivaleria a dizer que generais encarregados de operações à distância não participam das mesmas.

Qual o contexto?

Os governos anteriores mantiveram a ajuda dos EUA, especialmente no programa de Controle Internacional de Narcóticos & Aplicação da Lei (da sigla em inglês INCLE), no qual os EUA investiram US$ 6,929 milhões em 20 anos. Podemos destacar que a Colômbia segue sendo considerada a principal produtora de drogas ilícitas da região, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), que estima a exportação de 1.200 toneladas de cocaína em 2019, equivalente a 70% da produção global. Paralelamente, os EUA se posiciona como o principal consumidor de cocaína do mundo.

A mesma UNODC, que posiciona a Colômbia no topo de seu ranking, não registra a presença da Venezuela em seu ranking, apesar da emissão, no dia 26 de março, de uma ordem internacional de captura com uma lista de recompensas – ao melhor estilo faroeste – contra o presidente Nicolás Maduro e mais 14 pessoas, incluindo membros do governo e militares reformados. A ordem foi emitida por William Barr, Procurador Geral dos Estados Unidos sob a acusação de narcoterrorismo, corrupção e tráfico de drogas. Consequentemente, em primeiro de abril, o presidente Donald Trump anunciou um desdobramento militar para aumentar “os esforços antidrogas na área de responsabilidade do Comando Sul”, um dia após o Departamento de Estado apresentar um plano chamado de marco para a transição democrática na Venezuela”; uma novidade evidente no documento redigido por Elliot Abrams é a ausência de Juan Guaidó, o que expressa esgotamento e fracasso de seu papel como líder opositor.

Com efeito, a operação da SFAB em andamento se enquadra nessa manobra contra o vizinho à leste da Colômbia, de acordo com a declaração emitida pela embaixada norte-americana em Bogotá. Um indicador alarmante é que duas das chamadas “Zonas Futuro”, onde os membros da missão irão atuar, fazem fronteira com a Venezuela. O Departamento de Estado vem tentando construir uma fachada legal para intervir em uma nação que, para eles, é transgressora das leis internacionais e uma ameaça à segurança das “nações livres”, tal qual fez com o Iraque em 2003 e faz atualmente com o Irã. Uma continuação da Guerra ao Terror a nível global levada a cabo pela administração Bush, que justificou o combate ao “narcoterrorismo” através do Plano Colômbia.

O fato fundamental do contexto é que este movimento se dá no meio da pandemia do COVID-19, que vem fazendo estragos inegáveis nos EUA, com mais de 100 mil mortes e mais de 36 milhões de empregos perdidos. A situação de emergência que se formou na América do Sul parece que será explorada para ativar uma ofensiva sem resistência do lado colombiano e se aproveitar do lado venezuelano.

Quais as consequências?

Diante da relação assimétrica entre EUA e Colômbia, o que se sobressai dela são os interesses da potência norte-americana. As acusações judiciais contra o governo, a Operação Antidrogas de Maiores Esforços, assim como a missão da SFAB (da qual não se conhece ainda documento legal que autorize sua entrada em território colombiano) confirmam a postura ameaçadora e desesperada que reaviva a incerteza sobre o alcance da estratégia norte-americana em sua liderança mundial decadente.

Ainda que os dados do governo colombiano sejam esclarecedores sobre a concentração geográfica e as rotas de circulação de cocaína até o Pacífico, infelizmente seu grau de subordinação a e compromisso com os EUA, assim como o das elites conservadoras do continente, permitiram a interferência norte-americana contra o povo da Venezuela e garantiram o silêncio de Bogotá diante da chamada “Operação Gideon”, composta por mercenários contratados por uma empresa de segurança privada dos EUA para assassinar o presidente venezuelano. Tal situação leva a Colômbia a envolver-se em uma guerra com a Venezuela.