Isolamento e repressão: os ‘toupeiras’ da Espanha de Franco

A permanência de Franco à frente da Espanha após o fim da 2ª Guerra obrigou homens que haviam se escondido nos anos 30 a ficarem ocultos por décadas. - por Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: Fondo Car-Kutxa Fototeka)

No dia 27 de abril de 1945, um comboio alemão que viajava no vilarejo de Dongo, na Itália, às margens do lago Como, foi atacado por um grupo de partisans comunistas, liderados por Pier Luigi Bellini delle Stelle e Urbano Lazzaro. Dentre os oficiais e soldados que o formavam, estavam Benito Mussolini, líder da Itália fascista, e Claretta Petacci, sua amante. “A sua face se parecia com cera, e seu olhar era vidrado, mas de alguma forma cego. Via nele exaustão total, mas não medo… Mussolini parecia completamente sem vontade, espiritualmente morto”, descreveu-o Lazzaro. Às 4:10 da manhã do dia 28, com uma metralhadora, Mussolini e Petacci seriam fuzilados, e posteriormente pendurados na praça Loreto, em Milão, para terem seus corpos cuspidos e espancados.

O führer Adolf Hitler soube da execução na tarde do dia 29. A essa altura, se encontrava em seu bunker, e os soviéticos já faziam seu avanço final sobre Berlim. Havia acabado de se casar, às pressas, com Eva Braun. No dia seguinte, os consortes se suicidavam.

Com o nazifascismo derrotado, a guerra e seus escombros na Europa davam lugar à repartição e à reconstrução. Mas resquícios desse imediato velho mundo, erguido na década de 30, remanesceram no novo mundo que, dividido em dois, gestava em seu ventre uma nova guerra.

Em uma carta de fevereiro de 1941, Hitler escrevera a Franco: “Somente no caso de nossa vitória o regime presente continuará a existir. Se a Itália e a Alemanha perderem essa guerra, no entanto, qualquer futura Espanha realmente nacional e independente será impossível […] Portanto eu tenho tentado te convencer, Caudilho, da necessidade, nos interesses de seu próprio país e futuro do povo espanhol, de você se unir àqueles países que formalmente enviaram soldados para te apoiar.”

Naquele mesmo ano, foi criada a Divisão Azul, divisão de infantaria do exército alemão formada sob Franco com a condição de que os voluntários espanhóis só fossem usados em combates contra os soviéticos. No entanto, a despeito das medidas e dos desejos do generalíssimo Francisco Franco em guerrear ao lado de Hitler, e do apoio econômico e logístico que dera ao Eixo, a Espanha franquista se manteve formalmente neutra durante a guerra.

Franco e a Guerra Fria

Enquanto os soldados nas frentes anunciavam nas cartas o iminente fim da guerra, que ainda assim se estendia semana a semana, mês após mês, na Espanha havia homens que esperavam pacientemente, certos de que com a vitória dos Aliados poderiam emergir. Agitadores, sindicalistas, homens sem sorte, perseguidos ao longo dos anos trinta, que viviam escondidos na leveza do vazio, em meio a pesadas paredes de pedra, debaixo de chãos de madeira, por detrás da escada. Ali dentro ficavam enclausurados no tempo, ocultados de tudo, esperando o fim da guerra. Na Espanha, foram chamado de “toupeiras” (ou topos, em espanhol); houve mais de uma centena deles.

Mas, como Hitler, os toupeiras estavam errados. Após a derrota alemã e italiana, Franco, que subira ao poder nove anos antes, em meio à Guerra Civil e com o apoio do führer alemão e de Mussolini, poderia ainda governar o país, apesar de seu regime ter sido condenado e de ser declarado um pária internacional pelas Nações Unidas.

O anticomunismo de Franco e a localização estratégica da Espanha eram vistos como elementos geopolíticos úteis pelos norte-americanos naqueles tempos em que uma nova guerra era gestada. O generalíssimo abriu a Espanha à presença militar dos EUA, em troca de apoio financeiro, diplomático e militar. O regime que fora condenado pela ONU não muito tempo depois era nela aceito. E as visitas de oficiais espanhóis aos Estados Unidos – incluindo Agustín Muñoz-Grandes, Ministro do Exército e ex-chefe da Divisão Azul – eram frequentes. 

Eisenhower e Franco em Madrid, 1959. (Foto: US National Archives)

A guerra acabou, mas o pisar na calçada e o trabalho em campo aberto ainda era impossível aos toupeiras. Se não fossem reconhecidos, se adotassem outra identidade, a mesma Guarda Civil da qual algumas vezes fugiram e que por vezes contra eles disparou seria a autoridade responsável em qualquer pequena cizânia que o destino caprichasse a seus caminhos. Não havia mais bombardeios, mas os ecos da década de 30 continuavam em seus ouvidos: o mundo havia mudado de repente, mas se adaptado a Franco sem que ele se adaptasse ao mundo, e eles ficaram para trás, como poeira incrustada entre os tacos velhos da Espanha. Assim permaneceram a maioria deles, por 30 anos, até que a anistia viesse em 1969.

A vida reclusa de 24 desses homens, metidos em qualquer buraco durante décadas, foi tema do livro “Los Topos”, de  Manuel Leguineche e Jesús Torbado, publicado em 1977.

A vida secreta dos toupeiras

Na noite de 4 de maio de 1939, Ana Cisneros redigiu uma carta a sua cunhada: “tenho que te dizer que meu marido está em casa”, contava. A resposta da contraparte, Ana Gutiérrez, formava um enigma: “o meu marido também veio”.

Juan e Manuel Hidalgo España, os irmãos Hidalgo, viviam no vilarejo de Benaque, em Málaga, quando a Guerra Civil estourou. Não eram especialmente envolvidos com política e, de fato, sequer entendiam o que era a guerra, quem lutava nela e porquê. Em 1937, quando Málaga caiu, foram evacuados de seu vilarejo, em meio a massacres, e acabaram em campos de concentração. Foram recrutados para combater em brigadas militares, e três anos depois, com a vitória dos nacionalistas liderados por Franco, deram um jeito de voltar, a pé, para casa. Mas o clima não havia passado, os falangistas continuavam à solta, e ambos ficaram escondidos em suas próprias casas, a 20 metros um do outro, sem se verem. Só emergiram em 1966, quando o governo espanhol emitiu um decreto perdoando alguns casos “pendentes de cumprimento, derivados da legislação especial de responsabilidades políticas”.

Juan e Manuel Hidalgo com suas esposas, Ana Cisneros e Ana Gutiérrez. (Reprodução / Los Topos – Torralbo e Leguineche)

Manuel Serrano Ruiz foi apelidado de “anarquista solitário” em seu vilarejo, Almodóvar del Campo, por lá ter organizado uma célula da Confederação Nacional do Trabalho. Se tornou presidente do Comitê Local antes da Guerra Civil e, ao fim da guerra, temendo represálias, se escondeu no sótão da casa da sua mãe. “O teto de uma das salas tinha um tampo, no meio de duas vigas, que levava ao sótão”, contou sua irmã. Ficou metido naquele covil, sem poder se levantar, por treze anos. Via sua mulher e seus filhos somente a cada dois meses. Não aguentando mais, deixou o esconderijo e acabou na prisão por mais de uma década.

Manuel Cortés Quero era um barbeiro ligado ao Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e à União Geral dos Trabalhadores (UGT). Se destacou como organizador clandestino nos dias pré-republicanos e em 1931 se tornou prefeito de Mijas, também na província de Málaga. Quando os franquistas entraram, em 1937, partiu para Almería, onde passou ao combate. Com a derrota da República, em 1939, voltou a Mijas, mas logo constatou que teria de se esconder. O fez dentro de um armário em uma sala, ao lado de uma barbearia onde trabalhou. “Foi o melhor de todos os esconderijos que tive, o mais seguro, mas também o mais incômodo”, declarou sobre o abrigo de dois anos. De lá passou para uma casa, vestindo roupas da mãe de sua esposa e andando por trezentos metros fingindo ser uma velha senhora. Não assistiu ao casamento da filha, nem pode se despedir da neta, falecida por leucemia. Ficou encerrado na casa, da qual sairia alguns anos depois para, de novo, se esconder. Na terceira casa, esta de dois andares, se manteria até a anistia ser decretada, em 1969.

Manuel Cortés Quero, com o rádio que o acompanhou durante 30 anos de reclusão. (Reprodução / Los Topos – Torralbo e Leguineche).

“A força humana é incrível; ninguém está seguro disso até que não a sinta. Ninguém sabe do que somos capazes, os humanos, ninguém sabe”, declarou depois ao jornalista Saturnino de Lucas, que também passou 34 anos escondido, debaixo de um telhado cuja parte mais alta tinha 63 centímetros. Ainda assim, ao sair de seu esconderijo, a primeira coisa que dissera foi “estes sapatos estão me matando”. É que os homens se adaptam a tudo, menos aos detalhes.