Movimento “pró-democracia” de Hong Kong faz aliança com políticos da extrema-direita dos EUA que buscam esmagar o Black Lives Matter

por Ajit Singh | The Grayzone - Tradução de Ana Flávia da Cruz com revisão de Giovanna Olivetti

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(Foto: Studio Incendo)

Uma figura proeminente “pró-democracia” de Hong Kong, Jimmy Lai, vem condenando protestos de âmbito nacional nos Estados Unidos contra a brutalidade policial e o racismo sistêmico, cujo gatilho foi o assassinato de um homem afro-americano, George Floyd. A visão de Lai reflete um segmento significativo do movimento da cidade, que afirma o mito do excepcionalismo estadunidense como um farol de “liberdade e democracia”.

Os ativistas “pró-democracia” de Hong Kong chegaram ao ponto de impedir os esforços de uma mulher afro-americana que tentou organizar uma manifestação do Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) na cidade, acusando-a de ser uma agente da polícia e do Partido Comunista Chinês.

Enquanto isso, alguns líderes da oposição anti-Pequim de Hong Kong, como Joshua Wong, declararam apoio aos protestos nos EUA e ao Black Lives Matter. No entanto, essas expressões de “solidariedade” soam vazias, considerando que, assim como Lai, esses líderes “pró-democracia” também firmaram alianças com o próprio Estado americano e políticos de extrema-direita que vêm demonizando e buscando reprimir brutalmente os manifestantes norte americanos. De fato, Wong e seus camaradas têm evitado cuidadosamente fazer qualquer crítica especifica ao presidente Trump ou a qualquer um de seus patrocinadores em Washington.

Os comentários de Lai e a ambiguidade da oposição “pró-democracia” mais uma vez destacam as verdades inconvenientes desse movimento que muitos no Ocidente insistem em chamar de progressista. Embora alguns tenham tentado igualar o movimento “pró-democracia” de Hong Kong ao Black Lives Matter, eles estão, de fato, em lados opostos do espectro político.

Líder “pró-democracia” de Hong Kong condena protestos por George Floyd

Conforme reportado por Dan Cohen para o portal The GrayZone, Jimmy Lai é um bilionário magnata da mídia amplamente citado como “o Rupert Murdoch da Ásia” o qual é um dos maior apoiadores financeiros e midiáticos do movimento de Hong Kong.

Além de injetar milhões de dólares na oposição de Hong Kong nos últimos anos, o auto-intitulado “líder da mídia de oposição” e fundador do tabloide antigoverno Apple Daily forneceu aos protestantes uma “cobertura midiática inabalável”, de acordo com o jornal The New York Times.

Lai recebeu cobertura muito favorável pela mídia dos EUA e Ocidental em geral, com o oligarca frequentemente sendo aclamado como um “‘causador de problemas’ com a consciência limpa” que está “resistindo à China”.

Em 2 de junho, Lai compartilhou um vídeo de Avi Yemini, uma personalidade do Youtube e ex-soldado do exército israelense, declarando que era “vergonhosamente cruel” comparar os “motins nos EUA” com os protestos do movimento de Hong Kong.

No vídeo, Yemini recitou o discurso da direita, referindo-se aos protestantes antirracismo como “antifas extremistas” que estão “destruindo tudo que é americano, de fato, tudo que o povo de Hong Kong está lutando para obter”.

Lai expressou gratidão a Yemini, escrevendo “obrigado por levantar a voz por nós #HKers”.

De acordo com Sociedade Democrática Judaico-Australiana, Yemini formou laços extensos com neo nazistas como os Soldados de Odin e agitadores fascistas como Milo Yiannopoulis.

Alguns dias antes, Lai, que se encontrou repetidas vezes com a cúpula do governo Trump, disse à CNN que “apenas Trump pode salvar Hong Kong”.

Lai então reiterou seu pedido de apoio ao presidente Trump poucas horas depois que o presidente ameaçou ordenar que militares atirassem em manifestantes por George Floyd.

O pedido não surpreende, considerando que grande parte do movimento em Hong Kong glorifica Washington, defendendo o governo norteamericano e o presidente Trump como seus “libertadores”.

Durante anos, líderes da oposição de Hong Kong se reuniram e desenharam estratégias com políticos e oficiais do governo dos EUA, mais frequentemente com aqueles da extrema-direita.

De fato, a visão que Lai tem dos protestos por George Floyd parece refletir o que pensa um segmento significativo do movimento “pró-democracia” de Hong Kong, para tristeza daqueles que argumentam que o movimento é “progressista”.

O Coletivo Lausan, que se descreve como uma publicação de “esquerda decolonial” em língua inglesa fundada por apoiadores fiéis dos protestos de Hong Kong, lamentou que “alguns cidadãos de Hong Kong tenham se recusado a apoiar o Black Lives Matter” pedindo que seus camaradas ofereçam suporte aos protestos que estão ocorrendo nos EUA.

Wilfred Chan, escritor do The Nation baseado em Nova York e membro-fundador do Lausan, expressou frustração diante da prevalência de visões como essa.

Em um tweet no dia 2 de junho, Chan escreveu que “qualquer cidadão de Hong Kong no LIHKG (uma plataforma online popular entre os manifestantes locais que vem sendo chamada de “Reddit de Hong Kong”) “de repente se tornou especialista no sistema de justiça norteamericano e também acredita que o único motivo possível para alguém ser crítico do Trump é porque é um agente do PCC” (Partido Comunista da China).

 

Exemplos disso têm surgido no Twitter, com apoiadores dos protestos em Hong Kong alegando que o Partido Comunista da China está por trás do Black Lives Matter, comparando manifestantes negros com gorilas, e alegando que os “EUA de verdade” consistem de pessoas negras que saqueiam e pessoas brancas que limpam tudo depois.

Correntes racistas e nativistas marcaram presença nos protestos de Hong Kong. Embora tenham se voltado majoritariamente à China continental, racismo anti-negros já eclodiu anteriormente durante as manifestações.

Depois que a estrela do NBA LeBron James se recusou a declarar apoio ao movimento, reações intensas varreram a cidade com manifestantes pisando e queimando camisas com o nome do ícone do basquete.

Em uma aglomeração, centenas de manifestantes enraivecidos parecem ter entoado xingamentos racistas direcionados a James, com a Associated Press reportando que o canto seria “indizível”.

Ativistas “pró-democracia” de Hong Kong  impedem uma passeata do movimento Black Lives Matter

Ativistas “pró-democracia” de Hong Kong chegaram ao ponto de impedir esforços de organizar uma passeata do Black Lives Matter na cidade em decorrência do assassinato de George Floyd.

Em uma carta enviada à Livre Imprensa de Hong Kong, a organizadora do evento Jayne Jeje, uma mulher afro-americana que vive na cidade há oito anos, destacou o assédio sofrido por ela, levando-a a cancelar o evento.

De acordo com Jeje, ativistas “pró-democracia” acusaram-na de “trabalhar com a polícia para encurralar pessoas” e de “ter apoio do PCC [Partido Comunista Chinês]”. Na página do evento em uma rede social, Jeje escreveu que estava sendo bombardeada com “ataques” e comentários hostis que consistiam em “mentiras, bullying, acusações e palavrões”.

Jeje escreveu que foi acusada de ter “privilégios de expatriada”, atormentada sobre “porque o evento era apenas sobre o BLM, já que vidas de Hong Kong também importam”. Mais preocupados em cooptar o evento para avançar sua própria agenda do que demonstrar solidariedade, ativistas “pró-democracia” de Hong Kong disseram à Jeje que ela “não tinha direito a comentar sobre o BLM” a não ser que ela fizesse os protestos de Hong Kong um foco do evento.

Seguindo a mesma linha, manifestantes de Hong Kong recentemente se apropriaram dos slogans “Eu não consigo respirar” e “Vidas Negras Importam” para seus próprios protestos.

Em última instância, devido ao assédio e ao medo de que ativistas “pró-democracia” fossem sabotar o evento, Jeje e os outros organizadores do evento optaram por cancelar a passeata do Black Lives Matter.

“Nós tomamos a difícil decisão de cancelar o evento, com base nas mensagens de ódio de que estaríamos cooperando com a polícia, ou não incluindo suas causas ou atendendo suas demandas”, escreveu Jeje. “Temíamos que eles viriam e arruinariam o evento de propósito”.

Oposição de Hong Kong alinhada com os mesmos políticos dos EUA que reprimem o Black Lives Matter

Há algumas pessoas dentro do movimento “pró-democracia” de Hong Kong que publicaram declarações de apoio aos protestos que estão ocorrendo nos EUA e ao movimento Black Lives Matter, com o argumento de que ambos os movimentos estão engajados em uma luta compartilhada contra opressão e brutalidade policial.

Joshua Wong, garoto-propaganda dos protestos de Hong Kong, junto com Nathan Law e outros líderes de seu partido político, Demosistō, declararam que apoiam o Black Lives Matter. “Muitos de vocês têm me perguntado a respeito dos protestos ocorrendo nos EUA”, escreveu Wong em um tweet de 2 de junho. “Como um ativista pelos direitos humanos, eu me posiciono firmemente ao lado do movimento #BlackLivesMatter e me oponho à brutalidade policial, seja onde for”.

Apesar de nunca ter mencionado o Black Lives Matter antes desse tweet, Wong agora alega que tanto ele quanto os manifestantes de Hong Kong sempre se posicionaram em solidariedade ao movimento. “De tempos em tempos, nós vemos como as pessoas que lutam contra a opressão em Hong Kong continuam a apoiar as pessoas que lutam contra a opressão nos Estados Unidos. #BlackLivesMatter,” escreveu Wong em um tweet de 4 de junho, compartilhando a imagem de um manifestante de Hong Kong segurando uma placa em que se lia “EU NÃO CONSIGO RESPIRAR”.

Ao evocar solidariedade entre os dois movimentos, Lausan argumentou que “ambos resultam do mesmo sistema de violência e opressão estatal” e estão conectados por “serem vítimas de violência policial de forma similar”.

No entanto, o que Joshua Wong e outros líderes “pró-democracia” de Hong Kong, junto de outros apoiadores “de esquerda” como Lausan, omitem de suas declarações de “solidariedade” para com o Black Lives Matter é que o principal aliado do movimento asiático é o mesmo Estado americano que reprime brutalmente manifestantes norte-americanos lutando por justiça racial.

Líderes da oposição de Hong Kong como Wong passaram os últimos anos cultivando relações próximas com algumas das mais vis figuras em Washington; Seus aliados mais ferozes incluem os senadores republicanos de extrema-direita Ted Cruz, Josh Hawley, Marco Rubio, Rick Scott e Tom Cotton, este último tendo recentemente se manifestado favorável ao uso da violência por parte dos militares a fim de inibir manifestantes do Black Lives Matter.

Seu objetivo explícito, conforme apresentado por uma empresa de lobby baseada nos EUA, é avançar o movimento contra o governo chinês e “preservar os interesses políticos e econômicos dos EUA em Hong Kong”.

Dada sua aliança explícita com os mesmos políticos que demonizaram manifestantes dos EUA como “arruaceiros” e “terroristas antifa”, que expuseram dados pessoais de manifestantes, que alegaram que o governo venezuelano estaria por trás das manifestações, e que fizeram chamados fascistas para que os militares impusessem lei marcial, as expressões de apoio ao Black Lives Matter por parte dos líderes do movimento “pró-democracia” de Hong Kong soam rasas.

Não é coincidência que as declarações de Wong e seus camaradas não mencionam, e tampouco criticam, seus patrocinadores de extrema-direita em Washington. De fato, apenas dias antes de seu pronunciamento em solidariedade ao Black Lives Matter, Wong desejou feliz aniversário ao senador Rubio.

 

Essas alianças destacam a superficialidade da “solidariedade” da oposição de Hong Kong com o Black Lives Matter e refletem as diferenças políticas fundamentais entre os dois movimentos.

Em um contraste gritante com o movimento Black Lives Matter, que traz o questionamento da opressão racial que sustenta o sistema político norte-americano, os manifestantes de Hong Kong têm afirmado orgulhosamente uma noção excepcionalista e embranquecida dos EUA como um farol de “liberdade e democracia”, enfeitando a si mesmos com as cores da bandeira e cantando a plenos pulmões o hino nacional norte-americano enquanto suplicam aos EUA que policiem a região do Pacífico asiático.

Enquanto o Black Lives Matter inspirou o reconhecimento global dos legados europeu e norteamericano de escravagismo e colonialismo, o movimento “pró-democracia” de Hong Kong é inspirado pelos antigos colonos britânicos da cidade.

Nos últimos dias, o movimento Black Lives Matter vem sendo aterrorizado por grupos de vigilantes brancos. Enquanto isso, os protestos “pró-democracia” em Hong Kong vêm atraindo apoiadores de extrema-direita dos EUA e da Europa.

As peregrinações de ultra-direita para Hong Kong incluíram um grande número de nacionalistas brancos norte-americanos e neonazistas ucranianos que lutaram no grupo paramilitar fascista Azov Battalion.

O interesse parece mútuo, com os “democratas” de Hong Kong buscando inspiração na Euromaidan, “revolução” ucraniana pró-Ocidente que empoderou forças da extrema-direita e fascistas.

Os manifestantes de Hong Kong assumiram o slogan “Glória a Hong Kong”, adaptado de “Slava Ukrayini” ou “Glória à Ucrânia”, slogan inventado pelos fascistas ucranianos e usado por colaboradores nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e que foi ressuscitado pelo movimento Euromaidan.

“Não importam as diferenças entre Ucrânia e Hong Kong, nossas lutas por liberdade e democracia são as mesmas,” disse Joshua Wong ao The Kyiv Post em 2019. “Nós temos que aprender com os ucranianos… e demonstrar solidariedade. A Ucrânia é confrontada pela força da Rússia – nós enfrentamos a força de Pequim.”

Apesar das tentativas de igualar suas experiências, ambos os movimentos enfrentaram respostas policiais radicalmente distintas. A política dos EUA matou pelo menos três manifestantes nos últimos dias e impôs pesados toques de recolher, enquanto o governo Trump ameaçou enviar os militares para aniquilar o levante.

Ainda assim, depois de um ano de protestos em Hong Kong – período em que manifestantes assediaram jornalistas e os tomaram como reféns, uniram-se contra e espancaram incontáveis indivíduos indefesos, queimaram pessoas vivas e assassinaram um idoso que trabalhava limpando as ruas ao acertar sua cabeça com um tijolo – a polícia não matou manifestantes nem impôs toque de recolher na cidade.

Isso ocorre apesar de os manifestantes de Hong Kong terem explicitamente utilizado provocações agressivas para “instigar a polícia a agredi-los” a fim de conquistar simpatia internacional, o que incluiu atirar tijolos, bombas de gasolina e flechas em chamas nos policiais.

De fato, o exército chinês nunca foi enviado a protestos, exceto uma única vez em que soldados deixaram seus alojamentos desarmados, vestindo shorts e camisetas, para limpar detritos deixados nas ruas.

Fica claro que o movimento “pró-democracia” de Hong Kong e o Black lives Matter são movimentos separados com objetivos e ideologias políticas radicalmente distintos.

Com os partidos da ordem norteamericana unidos em sua nova estratégia de Guerra Fria contra a China, Joshua Wong e a oposição anti-Pequim de Hong Kong estão bastante cientes de que o suporte bipartidário para seu movimento está garantido. Se suas declarações de “solidariedade” para com os protestos nos EUA significam algo, é um desejo desesperado de evitar ser manchado ainda mais pelas alianças estreitas que firmaram com políticos linha-dura pró-polícia em Washington.