Guerra Fria contra os LGBTs no Canadá: homofobia, luta de classes e “segurança nacional”

por Gabriel Deslandes | Revista Opera - Revisão de Érico Bomfim

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(Imagem: Estúdio Gauche)

No início dos anos 1970, a prática de bullying perturbava o então estudante canadense na Escola Secundária Victoria Park, em Toronto, Gary William Kinsman: seu armário aparecia diuturnamente rabiscado com o xingamento “commie pinko fag” (“bicha vermelha comunista”, em inglês). Ser chamado de “comunista” e “vermelho” parecia algo óbvio – ele era militante dos Jovens Socialistas e, mais tarde, do Grupo Marxista Revolucionário –, mas o jovem secundarista não entendia bem por que também era xingado de “bicha”, já que ainda não tinha certeza da própria sexualidade. Kinsman achou que essa ofensa tinha origem na recusa em rir das piadas homofóbicas dos colegas. À época, ele já havia se percebido excluído das interações heterossexuais “normais”.

Os anos se passaram, e Kinsman já tinha se assumido gay, enquanto se mantinha radicalmente à esquerda. Porém, a associação imediata entre ser “comunista” e “bicha”, feita por seus antigos assediadores, marcou profundamente sua militância política. Professor do Departamento de Sociologia da Universidade Laurentian, em Sudbury, Kinsman é hoje um dos maiores especialistas em estudos de gênero e história social do movimento LGBT no Canadá, e sua experiência pessoal na juventude o motivou a investigar um quadro político bem mais amplo e complicado – a repressão a gays e lésbicas pelo Estado canadense durante a Guerra Fria, sob o pretexto da “segurança nacional”. Naquele cenário, a vigilância sobre os homossexuais se mesclava com a paranoia anticomunista, tal qual nos EUA.

A pesquisa de Kinsman rendeu, entre outros estudos, um capítulo especial no livro Love, Hate, and Fear in Canada’s Cold War (Amor, ódio e medo no Canadá da Guerra Fria, em tradução livre)[1], em que o sociólogo resgata histórias de “caça às bruxas” à comunidade LGBT canadense e a construção da imagem das minorias sexuais como “ameaças à segurança nacional” junto aos comunistas. Para sua análise, Kinsman entrevistou 35 gays e lésbicas que sofreram com a perseguição política, sobretudo pela Real Polícia Montada do Canadá (RCMP).

Maior força de segurança do país, a RCMP é a única corporação do mundo responsável simultaneamente pelo policiamento federal, provincial e municipal, concentrando todo o poder policial em uma só organização. Sob os olhos da RCMP, mais de nove mil homossexuais tiveram suas vidas vigiadas e escrutinadas, entre “suspeitos”, “supostos” e “confirmados” nos anos de 1967 e 1968 – a homossexualidade seria apenas parcialmente descriminalizada no Canadá em 1969, com uma limitadíssima reforma do Código Criminal que, na prática, não reduziu a repressão nos anos seguintes.

Resistência queer, pela ótica dos oprimidos

Se a perseguição estatal era implacável, os perseguidos políticos não se acomodaram na condição de vítimas. Os homossexuais canadenses souberam criar e desenvolver redes de solidariedade para resistir à guerra de segurança nacional deflagrada contra eles, como denunciam os próprios documentos desclassificados da RCMP. Ao resistirem, aprenderam a usar a criatividade para burlar a vigilância do Estado e, em especial, identificar e isolar espiões dentro de seus círculos sociais.

Para Kinsman, essa resistência traz em si os pontos de vista sociais adotados pelos gays e lésbicas afetados pelas campanhas de segurança do Estado. A perspectiva dos oprimidos ajuda a compreender os temas da Guerra Fria para além dos limites do discurso ideológico dominante da “segurança nacional”. Essa postura, segundo o sociólogo, ajuda a descodificar a narrativa-mestra da história canadense da Guerra Fria e coloca as experiências sociais e as formas de resistência dos queers em primeiro plano – por “queer”, o autor entende gays e lésbicas, além de recuperar um termo histórico de abuso e estigmatização contra minorias sexuais.

Apesar de usar o termo, Kinsman não é adepto da chamada teoria queer, que, na sua visão, seria limitada por tender a contestar a heteronormatividade apenas em termos literários, discursivos e culturais. Para ele, a “teoria” da linguagem usada na teoria queer, extraída do pós-estruturalismo, não descreve com clareza como a linguagem e o discurso são práticas sociais, e isso poderia levar a um reducionismo, como se as complexidades dos processos sociais estivessem restritas ao campo do discurso.

Por isso, ele tenta relacionar as ideias da teoria social queer com o materialismo histórico de Marx. Assim, o materialismo histórico pode desvelar a aparências “naturais” e a-históricas da heteronormatividade e analisar como a dinâmica das relações sociais no capitalismo moldam a vida de pessoas queers na sociedade de classes. Nesse sentido, a Guerra Fria contra os queers – iniciada nos anos 1950 e indo até o começo dos anos 1990 – não se concentrou só na sua dimensão de homofobia institucionalizada. Os homossexuais vivem em um contexto de classe, gênero, raça, idade e outras relações sociais, e a perseguição contra eles teve aspectos classistas, antissocialistas e anti-imigrantes.

Dentro do marxismo, Kinsman é assumidamente influenciado pela “história vista de baixo” do inglês E. P. Thompson, corrente historiográfica que busca dar protagonismo ao ponto de vista das pessoas marginalizadas pela historiografia oficial, como mulheres e trabalhadores. Já da socióloga feminista marxista Dorothy Smith, Kinsman usa a noção de etnografia institucional para entender como as relações que governam toda a sociedade são construídas e organizadas – no caso, os operadores das campanhas de segurança no Canadá da Guerra Fria e a própria ideia de “segurança nacional” como código ideológico. Essa análise etnográfica também conecta as campanhas canadenses com relações sociais mais amplas, como as alianças internacionais de segurança com os EUA e a OTAN, da qual o Canadá faz parte.

Na lógica da guerra, a construção da imagem do “inimigo” está presente nos documentos de segurança nacional no Canadá. Esses textos da época da Guerra Fria revelam como as práticas e relações sociais dos queers foram “coisificadas” pelo discurso oficial do Estado para transformá-los em uma “terrível ameaça”.

Revelar as histórias por trás das campanhas de segurança nacional da RCMP serve não só para entender as raízes do “heterossexismo” na formação da ideologia da Guerra Fria, mas também para combater a organização social do esquecimento, que busca aniquilar as memórias sociais e históricas e fazer com que os trabalhadores e oprimidos em geral se esqueçam de suas próprias lutas e conquistas. Desse modo, o resgate da memória é uma forma de rebelião.

A Guerra Fria e a “caça aos anormais”

Historicamente, solidificou-se o consenso de que a Guerra Fria se limitou a uma disputa geopolítica entre os EUA e a União Soviética pelo domínio global. Porém, é preciso repensar a Guerra Fria como um fenômeno bem mais abrangente. Para além das defesas político-ideológicas do capitalismo e socialismo e dos conflitos do imperialismo norte-americano com o bloco soviético, a Guerra Fria abarcou a dura repressão a organizações da classe trabalhadora e os movimentos de descolonização do Terceiro Mundo – foi, portanto, uma guerra “quente” em múltiplos aspectos.

A dimensão política e geopolítica trouxe consigo também uma dimensão racial e sexual que reafirma uma certa “normalidade” de sexualidade e gênero. Desse modo, como pondera Kinsman, as mobilizações anti-queer das décadas de 1960 e 1970 tinham um caráter social profundamente arraigado e continham uma esfera política mais ampla. Essa criação dessa “normalidade” sexual, dotada de sua própria regulação moral, precisava necessariamente de um Outro, algo ou alguém “fora do normal”, que representasse um risco ao tecido social da “nação”. A heteronormatividade se consolaria, assim, no interesse nacional como sinônimo de “lealdade” e “segurança”. A heterossexualidade é a “sexualidade da nação”, e aquilo que destoa dessa norma é visto como “subversão” política, social, sexual e cultural.

Nesse campo, atividades ou ideias radicais com potencial de recrutar apoio popular podem ser rotuladas como “subversivas”. Mesmo quando tal atividade “subversiva” for legal, será negada proteção contra vigilância ou assédio estatal, por ela ser considerada ilegítima. Apontado como um “risco à segurança nacional”, o subversivo é colocado para fora do tecido social “normal” e “nacional” e pode ter seus direitos humanos e civis excluídos. No contexto canadense, entram nessa categoria os comunistas, socialistas, sindicalistas, pacifistas, estudantes, imigrantes, ativistas indígenas, militantes do movimento negro, soberanistas de Quebec e, é claro, os homossexuais. Todos esses são indivíduos ou grupos “desviantes” de uma imagem unitária do Canadá, baseada na supressão das diferenças nacionais, linguísticas, de classe, sexuais e culturais.

No ideário da “segurança nacional”, os queers eram vistos como “companheiros de viagem” dos comunistas por causa de sua violação das fronteiras políticas, classistas, sociais e sexuais. Um exemplo, citado por Kinsman, é o artigo The International Homosexual Conspiracy, de R. G. Waldeck, publicado em 1960, que dá uma amostra do discurso conservador dominante sobre o tema:

“Oficiais homossexuais são um perigo para nós na presente luta entre o Ocidente e o Oriente: os membros de uma conspiração tendem a se juntar aos de outra […] Muitos homossexuais deixam de ser inimigos da sociedade em geral para se tornarem inimigos do capitalismo em particular. Sem serem necessariamente marxistas, eles servem aos fins da Internacional Comunista em nome de sua rebelião contra os preconceitos, padrões, ideais do mundo ‘burguês’. Outra razão para a aliança homossexual-comunista é a instabilidade e a paixão à ‘intriga pela intriga’, algo inerente à personalidade homossexual. Uma terceira razão é a promiscuidade social dentro da minoria homossexual e a fusão de seus efeitos entre as classes altas e a corrupção proletária.”[2]

Em outro exemplo de discurso anti-queer, Kinsman demonstra como essa narrativa conspiracionista, que coloca o homossexual como ser “desviante” da sociedade, encontrava ecos no aparelho do Estado canadense. Em um memorando de 1959 do Painel de Segurança do Canadá, comitê interdepartamental que coordenava as campanhas de segurança nacional à época, há as seguintes considerações:

“A natureza da homossexualidade parece se adaptar a esse tipo de exploração. Tomando precauções bastante simples, os homossexuais geralmente conseguem manter seus hábitos ocultos daqueles que não os procuram especificamente. Além disso, os homossexuais parecem acreditar que o código ético aceito que governa os relacionamentos humanos normais não se aplica a eles. Sua propensão é frequentemente acompanhada de outras fraquezas específicas, como beber em excesso, com suas consequentes instabilidades, uma atitude desafiadora em relação ao resto da sociedade e um desejo simultâneo de procurar a companhia de pessoas com características semelhantes, geralmente em mesas de bar de má reputação, clubes noturnos ou restaurantes […] O caso do homossexual é particularmente difícil por várias razões. Da pequena quantidade de informações que conseguimos obter sobre o comportamento homossexual em geral, certas características parecem se destacar –  instabilidade, auto-engano voluntário, provocação à sociedade, uma tendência a cercar-se de pessoas de propensões semelhantes, independentemente de outras considerações. Nenhuma delas inspira a confiança esperada em pessoas necessárias para preencher cargos de responsabilidade.”[3]

“Fraqueza moral” como subversão

Para garantir a heteronormatividade dentro de suas instituições, o Estado recorria à imposição de regulamentos de gênero, como no serviço público e nas Forças Armadas. As medidas incluíam códigos de vestimenta para mulheres e até concursos de beleza como forma de assegurar o desempenho da feminilidade heterossexual no serviço público. Nas Forças Armadas, qualquer experiência erótica com pessoas do mesmo sexo se tornou suspeita. Isso fez com que mesmo homens não-afeminados e mulheres não-masculinizadas dentro da “normalidade” de gênero pudessem também ser alvos de represália caso, aparentemente, se envolvessem em algum ato erótico com alguém do mesmo sexo. Para os militares canadenses, essas pessoas seriam mais vulneráveis ​​a chantagens de agentes soviéticos.

Essa política revela o quanto as campanhas de segurança nacional miravam em indivíduos supostamente com algum tipo de “fraqueza moral” ou de “caráter”. Para os agentes da repressão do Estado, se uma pessoa não se apresenta dentro da “normalidade”, era, portanto, mais suscetível a chantagens, porque tinha algo a esconder. Documentos oficiais da época faziam considerações sobre gays e lésbicas que “estavam no armário” e viviam uma “vida dupla”; porém, em momento algum, os agentes do Estado percebiam sua própria responsabilidade em ter ajudado a criar e manter essa situação de reclusão.

Nesse ponto, vale observar que essa “invisibilidade” dos homossexuais não consistia em algo “natural” de sua própria sexualidade, nem foi um fenômeno a-histórico na sociedade canadense – segundo Kinsman, havia mais liberdade para práticas eróticas homossexuais no início do século XX do que durante Guerra Fria. Em sua pesquisa, o sociólogo constatou, por exemplo, uma maior abertura a práticas queers em Vitória, na Colúmbia Britânica, antes das operações militares e da RCMP para investigação do assassinato de Aaron “Bud” Jenkins por seu namorado Leo Mantha. Também verificou que Ottawa era uma cidade mais aberta à diversidade sexual antes das campanhas contra os homossexuais no fim dos anos 1950.

A partir de então, começou a ser construído oficialmente o estereótipo relacionando gays e lésbicas a chantagens. Contudo, no ponto de vista dos próprios homossexuais, quem de fato fazia chantagem contra eles era a RCMP. Em inúmeros depoimentos, gays e lésbicas relatam que eram alvos de interrogatórios da polícia canadense, em que eram obrigados a delatarem nomes ou identidades de outros homossexuais. Era comum que os policiais cobrassem dos interrogados lealdade ao Estado e perguntassem “qual traição era maior – aos amigos ou ao país”.

Esses interrogatórios compuseram campanhas anti-queer que afetaram a vida de milhares de pessoas entre as décadas de 1950 e 1990. Investigações de segurança dentro do Departamento de Assuntos Externos e da Marinha em 1960 “descobriram”, por exemplo, 17 “supostos” homossexuais, 33 “suspeitos” e nove “confirmados” em Assuntos Externos, e 76 homossexuais “suspeitos” e 123 “confirmados” na Marinha.[4] A função dos interrogatórios era justamente “confirmar” os “suspeitos” ou “supostos” homossexuais por meio do depoimento de outros gays e lésbicas. No fim dos anos 1960, havia na Diretoria de Segurança e Inteligência da RCMP, inclusive, uma subdivisão para averiguação de “fraqueza de caráter”, e seus oficiais tinham a missão de andar com homens gays, tentando fazer amizade com eles para convertê-los em informantes. A partir dessa investigação, caso um servidor público qualquer tivesse sua homossexualidade “confirmada”, poderia ser expulso de seu cargo no serviço público ou nas Forças Armadas.

Todo esse processo de identificação e confirmação dependia da existência de informantes homossexuais “cooperativos” e “confiáveis”. Como a cooperação de gays e lésbicas informantes foi se tornando cada vez mais escassa, a RCMP começou a desenvolver um “meio científico objetivo” para determinar a orientação sexual alheia, com base na pesquisa de “especialistas nas disciplinas psicológica e psiquiátrica”. Esse programa – apelidado de “máquina de frutas” – foi desenvolvido pela RCMP, Forças Armadas, Painel de Segurança e o Departamento de Saúde e Bem-Estar Nacional e funcionou durante os anos 1950 e 1960. Em suma, um programa do Estado que atestaria quem era homossexual ou não.

Na “máquina de frutas”, havia um teste de resposta pupilar. Nesse procedimento, um indivíduo sentava em uma cadeira e, a ele, eram exibidas fotos de homens e mulheres nus. O nível de dilatação “involuntária” de suas pupilas confirmaria se a pessoa estava excitada com a foto exibida e, consequentemente, sua orientação sexual. A pesquisa também usava escalas de masculinidade e feminilidade e examinava a reação do indivíduo testado ao ouvir palavras consideradas “gays” no linguajar popular canadense, como “queen”, “drag”, “punk”, “fruit”, “swing” ou “top man”. A resistência a esse programa foi tamanha dentro até da própria RCMP que a pesquisa acabou sendo abandonada.

Solidariedade entre os iguais

À medida que recrudescia a repressão, aprimoravam-se também as formas de reação da população LGBT à violência e à vigilância do Estado, contando com o apoio também de pessoas heterossexuais aliadas. A organização e solidariedade mútua entre gays e lésbicas obrigou a RCMP a constatar oficialmente, em 1962 e 1963, que suas campanhas de segurança estavam sendo dificultadas pela não-colaboração por parte de outros homossexuais e pela falta de informantes dentro desses grupos.[5] Os próprios gays formaram redes de proteção por meio das quais identificavam e localizavam espiões e agentes policiais infiltrados, além de nunca delatarem os nomes de seus pares nos interrogatórios da RCMP.

Na pesquisa de Kinsman, uma das vítimas de perseguição entrevistadas pelo sociólogo, David, conta como aprendeu a reconhecer quando um investigador policial o estava vigiando em bares: “Você via alguém com um jornal erguido e, se olhasse de perto, poderia vê-lo segurando uma câmera por trás do jornal. E essas pessoas estavam fotografando todos no bar”.[6] David estava se referindo às suas experiências na taberna do porão do Lord Elgin Hotel por volta de 1964, que era então um dos principais pontos de encontro de homens gays em Ottawa. “Sempre que você via alguém com um jornal na frente do rosto, outra pessoa no bar tirava a carteira do bolso e fazia um gesto [imitando bater uma foto, para indicar que a pessoa com o jornal estava lhe fotografando]. E todo mundo sabia assim que era para tomar cuidado com aquele cara”, conta David, que chegou a ser interrogado e seguido pela RCMP e teve sua casa revistada, mas se recusou a cooperar com os policiais.

O relato de David demonstra que nessas redes de solidariedade e apoio, a comunidade LGBT sabia o que a RCMP estava tramando e, mais do que isso, sabia dar resposta coletiva aos policiais. A base para a formação desses laços estava nas próprias relações amorosas e de amizade entre eles.

Contudo, engana-se quem acredita que essas políticas de vigilância terminaram no fim dos anos 1960 ou início dos anos 1970. Elas prosseguiram no decorrer das décadas de 1970 e 1980, à medida que foram surgindo novas organizações feministas e LGBT, que permaneceram sob o escrutínio da RCMP como grupos subversivos. A polícia canadense desenvolveu novas classificações para “ativismo político gay” e “ativismo lésbico radical”, e o caráter de subversão era ainda mais enfatizado graças também ao envolvimento de muitos desses grupos com organizações trotskistas, como a Liga para Ação Socialista e os Jovens Socialistas.

O monitoramento policial das ações de grupos LGBT se fez notar em algumas das principais manifestações queers dos anos 1970 no Canadá. Quando um grupo de homossexuais realizou um protesto pioneiro na Colina do Parlamento, em Ottawa, em agosto de 1971, a RCMP estava presente vigiando. Na conferência de fundação da Aliança Gay pela Igualdade (GATE) em 1975, as forças policiais também estiveram acompanhando de perto. A vigilância se estendeu ao movimento feminista e levou a RCMP a monitorar o grupo Wages Due Lesbians, que fazia parte da campanha Salários para o Trabalho Doméstico, de Toronto. Em seu relatório, a RCMP descreveu as militantes como “fracassadas mal-nascidas”, bem como atacou a aparência física delas, alegando que tinham um “orgulho perverso de se desfeminilizarem, cultivando um aspecto sujo e desleixado”.[7]

O diferencial dos anos 1970 para as duas décadas anteriores é que as ativistas feministas homossexuais, em geral, não escondiam mais sua sexualidade. Ao “saírem do armário” para construir movimentos políticos, elas começaram a minar a noção de “fraqueza de caráter”, construída em cima da “vida dupla” e da necessidade de manter sigilo sobre sua orientação sexual. Essas novas organizações foram cruciais para enfraquecer o poder repressivo do Estado canadense.

A perseguição à comunidade LGBT somente se tornou passado no começo dos anos 1990, graças aos anos de luta dos ativistas queers. A própria RCMP perdeu sua função de serviço de inteligência civil para o Serviço Canadense de Segurança e Inteligência (CSIS), criado em 1984, após denúncias de envolvimento da RCMP nos chamados “truques sujos” contra os movimentos soberanistas e de esquerda em Quebec, como o incêndio criminoso de um galpão da Frente de Libertação do Quebec, em 1972.

Contudo, apesar de a Guerra Fria ter acabado, a lógica das campanhas de segurança nacional persiste na sociedade canadense. Se, entre as décadas de 1950 e 1970, os comunistas e os queers eram alvos preferenciais, canadenses árabes e muçulmanos passaram a ser assediados desde a Guerra do Golfo e, sobretudo, com a Guerra ao Terror. O Estado canadense também mobilizou seu aparato repressivo contra manifestantes contrários à Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), acordo internacional de comércio assinado com, entre outros governos, a ditadura de Suharto na Indonésia. Quando a cúpula da APEC se reuniu em Vancouver, em 1997, manifestantes da Universidade da Colúmbia Britânica foram presos e duramente atacados pela RCMP.

A mesma repressão policial recaiu sobre os protestos contra o acordo da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) durante a 3ª Cúpula das Américas em 1999, na cidade de Quebec. Os manifestantes antiglobalização foram tachados pelo CSIS e por grande parte da mídia canadense como “anarquistas”, instigando uma estigmatização semelhante à mobilizada contra os comunistas nos anos 1950 e 1960.

Para Kinsman, essa violência é a evidência concreta de que o discurso político típico da Guerra Fria pode ainda ser mobilizado contra quaisquer ameaças às relações sociais capitalistas, ainda que a URSS não exista mais. Afinal, a naturalização constante de tais relações hegemônicas de classe, gênero e etnia cria um ideal de Estado nacional livre de contradições, e, na dinâmica da guerra, quem não corresponde a essa “harmonia” deve ser posto para fora. Dessa maneira, a reafirmação da heteronormatividade foi parte essencial da construção da ideologia da Guerra Fria no Canadá, às custas do sofrimento de milhares de pessoas queers.

Fontes:
[1] – Kinsman, Gary. “The Canadian Cold War on Queers: Sexual Regulation and Resistance.” In Love, Hate, and Fear in Canada’s Cold War, ed. Richard Cavell (Toronto: University of Toronto Press, 2004), pp. 108-132.
[2] – R.G. Waldeck, “The International Homosexual Conspiracy”, Human Events, 29 de setembro de 1960.
[3] – D. F. Wall, Security Cases Involving Character Weaknesses, with Special Reference to the Problem of Homosexuality. Memorando ao Painel de Segurança, 12 de maio de 1959, pp. 12-13.
[4] – J.M. Bella, ‘Appendix “A”: Homosexuality within the Federal Government Service – Statistics/ in Director of Security and Intelligence, Homosexuality within the Federal Government Service, 29 de abril de 1960.
[5] – Directorate of Security and Intelligence, RCMP (1962-3), p. 19.
[6] – Kinsman, Gary. “The Canadian Cold War on Queers: Sexual Regulation and Resistance.” In Love, Hate, and Fear in Canada’s Cold War, ed. Richard Cavell (Toronto: University of Toronto Press, 2004), p. 108.
[7] – RCMP, “Assessment of the Gay Alliance towards Equality” (Vancouver 1973).