Família tradicional: o sonho do Éden e a vida no Inferno

por André Kanasiro | Revista Opera

0
865
Adão e Eva, de Albrecht Dürer, na favela. (Imagem: Estúdio Gauche).

O termo “família tradicional” dispensa rodeios, introduções ou explicações preliminares. Convocado como estandarte de guerra da direita desde os tempos do próprio Marx, esse conceito, indefinido e mistificado de acordo com públicos e conveniências, é familiar a todos nós, e já estamos acostumados a tomar posições em trincheiras que por vezes não compreendemos. A quem interessa, afinal, a destruição da família? À militância de esquerda, que estaria pronta a tomar os filhos do povo brasileiro para criá-los de forma coletiva e depravada? Aos cruzados da direita, que ocultariam personalidades abusivas e criminosas por trás de uma defesa hipócrita da família? Há algum sentido nessa guerra, afinal?

Entre os grandes objetos de disputa no conflito está a Bíblia: reivindicada como fonte absoluta da moral e dos bons costumes por conservadores, ou descartada e deslegitimada como uma obra feita por reacionários para reacionários, sua instrumentalização encontra-se no centro da disputa pela verdadeira narrativa a respeito da família. Nos convém, então, entendê-la para além dos discursos rasos e inflamados de teólogos que, se a estudam de fato, não desejam que também o façamos.

Neste primeiro texto pretendo me debruçar sobre a Bíblia Hebraica, popularmente conhecida como Antigo Testamento, começando pelo Éden, origem bíblica da família monogâmica e de uma tensão que atravessa toda a narrativa bíblica — a tensão entre o ideal e o real, entre máximas morais e humanos livres, entre a clareza divina e a ambiguidade de seus filhos.

A utopia perdida

O estabelecimento eterno do casamento monogâmico costuma ser apontado em Gênesis 2:18-25, texto que descreve a criação da mulher por Deus. O verso 24, especialmente propositivo por ser uma intervenção direta do narrador, diz que “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.” Há de fato um modelo de vida estabelecido aqui, e não se pode descartar a natureza etiológica da narrativa do Éden como um todo. Os primeiros capítulos de Gênesis oferecem um mundo ideal e utópico ao leitor bíblico, mas que será destroçado e lançado ao caos logo em seguida, no terceiro capítulo do livro, quando o primeiro casal transgride a única proibição divina. É necessário, portanto, ir além das obviedades e compreender qual é o papel da utopia na narrativa bíblica.

A utopia, o mundo bíblico ideal representado no Jardim dos Prazeres, não apresenta só o casamento monogâmico como característica. Trata-se de um jardim com abundância de água e comida (o que implica a ausência de esforço para sua obtenção) e harmonia entre as diversas espécies de animais, nenhuma delas carnívora (incluindo os humanos). A vida conjugal de Adão e Eva possui suas próprias especificidades: a despeito da ordem divina de reprodução e multiplicação, não há preocupações econômicas, e consequentemente não há propriedade privada ou questões de herança. Há relativa igualdade entre os gêneros e a nudez mútua não os envergonha, indicando a transparência e a cumplicidade do casal entre si e com Deus — não surpreende que a primeira transformação após ambos comerem do fruto proibido seja justamente a percepção e o incômodo com a própria nudez, dado que o diálogo com a serpente introduz desconfiança do Outro onde antes não havia nenhuma (Gn 3:1-7).

Adotar o modelo edênico de família tradicional, portanto, implica mais do que o discurso conservador por vezes faz parecer. Este não defende o ideal da criação, e sim uma quimera de ideais distorcidos pela história dos povos, chegando a atribuir caráter absoluto a relações que só surgem com a queda da humanidade — seria o caso da submissão da mulher ao marido, por exemplo, que mesmo sendo descrita como consequência do pecado é postulada como norma de relacionamento (Gn 3:16). A existência de um modelo edênico de vida familiar ideal tampouco significa a condenação divina imediata a qualquer um que desvie de tal modelo, como demonstra magistralmente o restante do livro. 

O livro das famílias quebradas

O livro de Gênesis, a princípio preocupado em contar as origens do mundo e da humanidade, muda de tom a partir do final do capítulo 11. A narrativa amplia seu foco para a história da origem de Israel através da vida de seus patriarcas ancestrais: Abraão, Isaque e Jacó, e os 40 capítulos restantes são dedicados aos dramas familiares do clã que eventualmente se tornaria uma nação.

Acontece que estas famílias não poderiam estar mais distantes do ideal edênico. Tomemos como exemplo o caso de Abraão, que engravida a escrava de sua esposa Sara a pedido desta (Gn 16) — escrava que fora obtida no Egito, após Abraão praticamente vender sua esposa ao Faraó sob a alcunha de irmã (Gn 12:10-20). Ou tomemos como exemplo a Jacó, que é enganado de forma a casar-se com duas irmãs enquanto amava só uma e ainda tem filhos com as servas de ambas; a terrível cisão familiar ocasionada pela rivalidade entre as irmãs resulta que, na geração seguinte, o filho favorito da esposa preferida é vendido como escravo por todos os seus irmãos (Gn 37). Todas as matriarcas mencionadas são, por fim, estéreis, incapazes de satisfazer a máxima divina da procriação sem que o próprio Deus intervenha e torne-as férteis.

Tais narrativas, repletas de ambiguidade e de personagens nos mais variados tons de cinza, apresentam um Israel descendente de famílias quebradas, incapazes de viver conforme o ideal divino, e pintam uma resposta multicolorida à pergunta que atravessa todo o livro: como andar com Deus em um mundo quebrado? A resposta bíblica não parece estar em um idealismo cego, que fecha os olhos para o presente enquanto sonha com um passado que nunca viverá; está num realismo moral e consequente, que caminha e luta com Deus enquanto busca formas de viver corretamente em um mundo que não poderia estar mais distante do ideal. Abraão, pai de uma família tão desestruturada, passa a ser conhecido como o pai da fé; Jacó, o enganador que roubara a herança de seu irmão, passa se chamar Israel, pois lutou com Deus — e venceu (Gn 32).

Quem é o inimigo?

Imersos em tão agridoce cenário, caso insistamos em buscar inimigos para nossos modos de vida, devemos nos perguntar quem é, de fato, inimigo de nossas famílias. Um exemplo salutar encontra-se muito à frente do livro de Gênesis; trata-se de um episódio na vida do grande Rei Davi (2 Samuel 11), consagrado como o “homem segundo o coração de Deus” (1 Sm 13:14).

A história é conhecida. Davi, com seu reinado já consolidado em Israel, manda seu exército à guerra enquanto espera em seu palácio. Certo dia, no entanto, vê do terraço uma mulher se lavando; obcecado pela desconhecida, descobre que se chama Bate-Seba, que é esposa de Urias, um de seus soldados, e, não satisfeito, manda buscá-la. Ele então se deita com ela, num caso que pode muito bem ser considerado um estupro. Bate-Seba engravida, e Davi, desesperado para encobrir o que fizera, manda chamar Urias, que se recusa a deitar com sua esposa enquanto seus companheiros lutam na guerra. O rei dá então sua cartada final. Mandando através de Urias uma carta para o comandante do exército, Davi o instrui a avançar imprudentemente contra as muralhas inimigas, colocando Urias na linha de frente. O soldado morre como planejado, e Davi casa-se com Bate-Seba.

“Mas o SENHOR enviou Natã a Davi; e, apresentando-se ele a Davi, disse-lhe: Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre.
O rico possuía muitíssimas ovelhas e vacas.
Mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; e ela tinha crescido com ele e com seus filhos; do seu bocado comia, e do seu copo bebia, e dormia em seu regaço, e a tinha como filha.
E, vindo um viajante ao homem rico, deixou este de tomar das suas ovelhas e das suas vacas para assar para o viajante que viera a ele; e tomou a cordeira do homem pobre, e a preparou para o homem que viera a ele.” – 2 Samuel 12:1-4

Deus não é cego para as atrocidades de Davi, e logo envia Seu profeta, Natã, para contar uma parábola terrível ao rei. Os paralelos são claros, e bastante ilustrativos ao comparar mulheres a gado; já dizia Engels que a poligamia no mundo antigo surge associada à posse de gado e de escravos, sendo, portanto, um negócio de ricos. Aos pobres cabe a mera e insossa monogamia, num tipo de relação que, a despeito de suas possíveis necessidades materiais, aproxima-se muito mais do ideal divino que na abundância dos ricos. O recado está dado: o Rei Davi comportara-se como um verdadeiro inimigo da família tradicional, dispondo de vidas como se fossem sua propriedade, e devorara o amor alheio numa pulsão que não poderia ser mais oposta ao amor romântico. 

Mas Davi, que se arrepende na hora, poderia comportar-se como nossas elites — poderia acusar o profeta, que critica obedecendo à ordem divina, de atentar contra a família tradicional que o rei supostamente representa. Natã não está arruinando, afinal, a pura imagem da realeza? Não estamos, afinal, arruinando a impecável imagem burguesa de uma família que se une em matrimônio como quem assina um contrato e que enxerga como mercadoria o leito de núpcias?

O inimigo não está em modelos alternativos de família cujos membros, lançados no turbilhão de nosso caos existencial, tentam às braçadas encontrar a felicidade; não está na mãe solteira, no casal gay ou na igualdade de gênero. Está, sim, nas elites que tiram o emprego e salário de famílias inteiras; está nos gerentes do açougue que vetam às famílias um envelhecimento feliz ao cortar sua aposentadoria; está nos policiais que invadem residências e matam crianças adormecidas. Não basta sonhar com o Éden e usá-lo de venda — abram os olhos e vejam o Inferno.