Elizeth Cardoso e a construção da canção brasileira no século 20

Para celebrar o centenário da cantora, o jornalista e compositor Bruno Ribeiro selecionou os dez melhores discos de sua carreira. - Por Bruno Ribeiro | Revista Opera

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Elizeth em 1960. (Foto: Arquivo Nacional)

Se viva estivesse, Elizeth Cardoso completaria cem anos no último dia 16 de julho. Ela foi, talvez, a maior cantora brasileira de todos os tempos e sua permanência no imaginário popular tem algumas explicações: além da qualidade de seus registros e de seu repertório, Elizeth participou ativamente das fases mais importantes da música brasileira: da década de 1930 — quando começa a se apresentar profissionalmente em programas de rádio — até 1990, quando morre perto de fazer 70 anos de idade, a “Divina”, como era conhecida, aparece como protagonista na história cultural do Brasil de sua época. 

Vozes como as de Dolores Duran, Clara Nunes ou Elis Regina — que também eram intérpretes de técnica apurada e tinham a mesma sensibilidade rara na escolha do repertório — poderiam rivalizar com a de Elizeth Cardoso em importância? Sem dúvida. Mas Elizeth tem uma “vantagem”em relação a elas: sua obra foi muito mais longeva e abrangente. 

Apesar de estarem no rol das grandes cantoras do Brasil, Dolores, Clara e Elis morreram jovens, quando suas carreiras estavam apenas chegando ao ápice. Elas deixaram discografias de grande relevância musical, porém limitadas a um período de tempo de pouco mais de uma década cada uma. De Canções à Meia-Luz, de 1955, ao álbum póstumo Todo Sentimento, de 1991, Elizeth Cardoso gravou 46 discos, entre solos e conjuntos.

Pela longevidade de sua carreira e pela influência exercida sobre as intérpretes contemporâneas, Elizeth é tida como “a mãe de todas as cantoras brasileiras”, nas palavras de Chico Buarque. Contribuiu para isso não apenas o modo como ela cantava, mas sobretudo o que cantava: a “Divina” estava sempre atenta ao trabalho dos novos compositores e os gravava junto aos clássicos — o que tornava seus discos “arejados” e sempre atuais. Ela foi responsável também por revelar compositores e ressuscitar a carreira de músicos veteranos que estavam no ostracismo — como foi o caso de seu “padrinho” Jacob do Bandolim. 

A discografia de Elizeth Cardoso passa pelo samba-canção, pelo samba de carnaval, pelo choro, pela fossa, pelo bolero, pela valsa, pela toada, pelo samba de terreiro, pela bossa nova (revelou João Gilberto em seu LP Canções do Amor Demais) e por outros gêneros musicais, constituindo assim um verdadeiro compêndio da música popular brasileira produzida no século 20, o que faz dela uma das principais construtoras da canção como produto artístico no Brasil.

Em homenagem ao centenário da “Divina”, aponto aqueles que, em minha opinião, são os dez melhores álbuns da carreira de Elizeth, e destaco minha faixa preferida em cada um deles. É por onde eu começaria a ouvir a obra de Elizeth Cardoso, caso não a conhecesse. As canções a seguir não estão em ordem de preferência ou importância, mas cronológica.

  1. Álbum: Canção do Amor Demais (1958)

Destaque: Chega de Saudade (Tom  Jobim / Vinicius de Moraes)

 

  1. Álbum: Elizete Sobe o Morro (1965)

Destaque: Folhas no Ar (Elton Medeiros / Hermínio Bello de Carvalho)

 

  1. Álbum: A Enluarada Elizeth (1967)

Destaque: Melodia Sentimental (Heitor Villa-Lobos / Dora Vasconcellos)

 

  1. Álbum: Momento de Amor (1968)

Destaque: Derradeira Primavera (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)

 

  1. Álbum: Falou e Disse (1970)

Destaque: Refém da Solidão (Baden Powell / Paulo César Pinheiro)

 

  1. Álbum: Preciso Aprender a Ser Só (1972)

Destaque: O Pranto Deste Mundo (Paulinho da Viola / Hermínio Bello de Carvalho)

 

  1. Álbum: Mulata Maior (1973)

Destaque: Serenou (Delcio Carvalho)

 

  1. Álbum: Feito em Casa (1974)

Destaque: Aroeira (Romildo / Toninho)

 

  1. Álbum: Luz e Esplendor (1986)

Destaque: Felicidade Segundo Eu (Dona Ivone Lara / Nei Lopes)

 

  1. Álbum: Ary Amoroso (1990)

Destaque: Inquietação (Ary Barroso)