Na pandemia, organizações populares estendem a mão até onde o Estado não chega

Diante deste cenário e da falta de perspectiva a respeito do futuro, iniciativas populares de solidariedade tem aflorado e se espalhado pelo Brasil - por Amanda Xavier | Revista Opera

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(Foto: Jaine Amorin / MST-PR)

O período de pandemia do novo coronavírus no Brasil acarretou numa série de deficiências no dia-a-dia do povo brasileiro. Se já antes da Covid-19 a miséria no País apontava para um crescimento, durante a pandemia as desigualdades se mostram ainda mais acentuadas. De acordo com estudo do Banco Mundial, a população em situação de extrema pobreza pode chegar a atingir 14,7 milhões de brasileiros no ano de 2020. 

Medidas apresentadas por partidos de oposição, como o pagamento do Auxílio Emergencial no valor de R$ 600,00, aprovado pelo governo depois de grande pressão no início de abril, parecem não surtir efeito, ou pelo menos não o esperado. Como sintoma de uma má organização do cadastro e de pagamento do auxílio emergencial, famílias viram a falta de renda trazer em si a fome.

Diante deste cenário e da falta de perspectiva a respeito do futuro, iniciativas populares de solidariedade tem aflorado e se espalhado pelo Brasil. Movimentos que pautam a  luta contra o déficit habitacional, contra injustiças sociais e pela democracia, que têm criado campanhas de arrecadação de fundos para ajudar as famílias em situação de vulnerabilidade. 

Cleber Santos, membro da coordenação nacional do Movimento de Lutas por Bairros, Vilas e Favelas (MLB), é uma das pessoas que se encontra nesta luta. Motivado não só pelas contradições que se apresentam no seio do sistema capitalista, mas também por situações que viveu em sua infância, Santos atua há 12 anos junto ao MLB. Quando pequeno, morador de uma favela em Peixinhos, bairro da cidade de Olinda, no estado de Pernambuco, vivia em uma casa localizada na taipa de um rio. Nesse época, dias chuvosos eram sinônimo de alagamento e de angústia em sua vida.

A partir da uma leitura pautada em sua própria realidade, juntamente com o agravamento da situação social, sanitária e econômica do país por conta da pandemia, Cleber passou a construir a Rede de Solidariedade no estado de Pernambuco, ação organizada pelo MLB. A campanha da rede, que já está no segundo mês de arrecadações, recebe doações por meio de uma vaquinha online e, também por meio de doações de alimentos feitas por pessoas e organizações. 

“Aqui em Pernambuco, através da coordenação estadual do MLB, nós estamos cadastrando as famílias que têm uma necessidade maior. Temos uma base de quase 4 mil famílias no estado, são famílias que têm pessoas que são diaristas, garis, serventes, trabalhadores informais, desempregados. Existe uma coordenação estadual organizada em 15 núcleos, mais ou menos em 10 cidades, e aí onde nós temos esses núcleos, núcleo de lutas do MLB, nós estamos fazendo um chamado para ajudar essas famílias”, conta o coordenador a respeito do mapeamento das famílias beneficiadas com as doações. 

Além de repassar alimentos, a ação doa também materiais de limpeza, máscaras e Equipamentos de Proteção Individual, os EPIs. Apesar da urgência da ação e da importância para as famílias, de acordo com Cleber, o movimento, que possui parceria com prefeituras e com o governo estadual, habilitado inclusive pelo Ministério de Desenvolvimento Regional, não recebeu nenhum tipo de apoio do Executivo no sentido de ajudar as iniciativas.

Assim como Cleber, a militância por moradia é algo presente na vida de Débora Pereira há oito anos. Mulher negra, trabalhadora e mãe, a moradora da Zona Norte de São Paulo se aproximou  do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) no ano de 2012. Nessa época já possuía filhos e ainda morava com os pais em uma pequena casa, – muitas pessoas em um pequeno espaço. Sua jornada, que era composta pelo trabalho como chefe de cozinha, dividida também com os estudos, já que no período cursava faculdade de Matemática, era extremamente extenuante, e se tornava ainda mais precária pela falta de moradia.  

A partir disso, apesar de já ter tido experiência em uma ocupação anterior, Débora optou por construir novamente uma ocupação, a Novo Pinheirinho do Embú, onde junto de outras 800 famílias passou a se inserir e a construir a luta por moradia de maneira mais incisiva. A alternativa encontrada para o problema de falta de habitação, comum a tantas outras famílias, se materializou na construção de lutas junto ao MTST e se demonstrou importante em outros aspectos de sua vida também. “Por ser negra e morar na periferia, assim como muitas outras mulheres negras, a gente cresce numa sociedade em que nos falam que a gente não pode ocupar espaços de protagonismo de voz, de fala. Quando eu entrei na ocupação eu ainda não me enxergava nesses espaços. O que me chamou atenção nessa ocupação era que era uma ocupação organizada por mulheres”, relata. 

Atualmente, Débora constrói a Ocupação Marielle Vive, também localizada em São Paulo. Foi com esse acúmulo e com a percepção assertiva de quem já vivenciou as dificuldades expostas pela falta de moradia que, junto ao MTST, a militante passou a construir a campanha “Fundo de emergência para sem-tetos afetados pela pandemia”. Com doações realizadas por meio de uma arrecadação online, que já levantou mais de 1 milhão de reais em doações, a ação contemplou mais de 18 mil famílias com alimentos, materiais de higiene e álcool em gel.

No estado do Rio de Janeiro, as iniciativas de solidariedade também tomam espaço importante. Para Juliete Pentoja, militante do MLB desde 2008 e educadora popular do projeto de Alfabetização de Jovens e Adultos da cidade de Duque de Caxias, localizada na Baixada Fluminense do Rio, a realidade de desamparo de milhões de brasileiros e brasileiras é muito revoltante

E foi essa mesma revolta que lhe forneceu as primeira reflexões necessárias para que notasse a necessidade da organização política. “Os motivos pelos quais decidi me organizar no movimento são muitos. Mas o principal deles acredito que seja a vontade de transformar a realidade que vejo, onde milhões de pessoas produzem tudo o que necessitamos mas não têm o direito a uma vida digna. Enquanto que uma minoria de ricaços vivem como parasitas, explorando nosso trabalho, lucrando com a miséria do povo pra manter a vida boa deles”, relata. 

Dessa vontade de transformar a realidade, comum à de Cleber e Débora, Juliete passou a compor o MLB. Neste ano, com os efeitos da pandemia sobre as famílias do Rio de Janeiro, a atuação se demonstrou mais urgente. De acordo com a educadora, a ideia inicial era ajudar somente as 60 famílias organizadas nos núcleos de moradia e luta do Movimento, a partir da rede organizada desde o dia 17 de março. Porém a cada dia novas demandas e pedidos de ajuda passaram a chegar. “Por esse motivo espalhamos a rede em 7 cidades: Rio de Janeiro,, Niterói, Belford Roxo, Nova Iguaçu, Nilópolis e São João de Meriti, essas duas últimas abarcadas pela rede de Nova Iguaçu” explica Juliete. 

A campanha organizada pelo MLB no Estado tem como base principal de arrecadação depósito em contas bancárias, que garantem a compra de cestas básicas. Porém, a arrecadação de alimentos não perecíveis através de caixas também é uma estratégia utilizada. Ao todo, quase mil cestas e kits de limpeza já foram entregues, com uma organização semanal que se dá por meio de reunião online e encontro para organização e entrega. No Brasil, o MLB já conseguiu alcançar mais de 17 mil famílias com as doações. 

Outras ações

Além da atuação enfática dos movimentos sociais no que diz respeito à realização e fortalecimento das iniciativas solidárias no país, iniciativas independentes, realizadas por trabalhadores de camadas médias de esquerda também se mostram como alternativa em meio à crise social, sanitária e econômica pela qual passa o país. Na cidade de Alvorada, localizada na região metropolitana do Rio Grande do Sul, a iniciativa popular de solidariedade Colabora é um exemplo. 

Para Rafael Melo, graduado em enfermagem e em saúde coletiva, especialista em produção científica e tecnológica em saúde,  mestrando em saúde coletiva pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e enfermeiro no hospital Nossa Senhora da Conceição, o Colabora surge diante da emergência colocada pela pandemia do coronavírus, agravada pela incerteza da garantia do isolamento social para as camadas mais pobres da classe trabalhadora que dependem de seu trabalho para sobreviver.

“Em conversa com alguns amigos aqui de Alvorada, surge a ideia do Colabora, que seria uma iniciativa que uniria pessoas que sentiam necessidades, que se sentiam motivadas a doar ou a colaborar com outros trabalhadores que, por questão da pandemia, não poderiam manter seu isolamento, ou que estavam passando por dificuldades financeiras, econômicas”, diz.

Unidos pela percepção de que o Estado não dá conta de combater a pandemia, o Colabora se organiza semanalmente com a intenção de doar cestas básicas para as famílias em dificuldade.  Com grupos de trabalho divididos entre gerenciamento do fundo de doações, compra dos produtos, higienização e entrega, a ação já arrecadou mais de 3 toneladas em alimentos e atingiu cerca de 1.500 famílias.

“A gente faz geralmente uma reunião semanal online, aí tem uma equipe que pega as doações, seja em dinheiro, e reúne em uma conta do banco, seja pegar nas casas utilizando os devidos cuidados, tem uma outra equipe que é responsável pelas compras, semanal, com os dinheiros que entram de doação, e tem uma equipe grande que é equipe de entrega, que geralmente os sábados a tarde que a gente sai pra entregar”, explica Melo.

Além das cestas montadas através das doações, a iniciativa também contou com verba adquirida por meio de um edital lançado pelo Instituto Federal campus Alvorada (IFRS), voltado para ações de combate à Covid-19. O valor de 4.500 reais foi integralmente revertido para a compra de alimentos para serem doados.

Ainda que criado como uma maneira de ajuda a curto e médio prazo, visto a necessidade material em um cenário onde a fome se mostra cada vez mais presente, de acordo com Melo a ideia é que o Colabora não acabe em si mesmo. “Com o colabora o nosso objetivo inicial era levar alimento, agora a gente vem trabalhando com a ideia de algo a mais. Talvez disputar um pouco o discurso, fazer uma análise mais crítica com essas pessoas, a partir do capitalismo, do estado, enfim”, revela.

Como ajudar as iniciativas

Para contribuir com a Rede Solidária do Movimento de Luta por Bairros, Vilas e Favelas, clique aqui: https://www.mlbbrasil.org/redesolidaria

Para ajudar a campanha realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, você pode doar por meio do Fundo de emergência para Sem-tetos afetados pelo coronavírus, para acessar a vaquinha clique aqui: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-os-sem-teto-a-enfrentar-o-coronavirus

Para ajudar a iniciativa Colabora, ligue para o telefone (51) 8235-5902 ou entre em contato por meio da página do Facebook: https://www.facebook.com/ColaboraAlvorada/

1 COMENTÁRIO

  1. […] Reportagem de Amanda Xavier para a Revista Opera afirma que o período de pandemia do novo coronavírus no Brasil acarretou numa série de deficiências no dia-a-dia do povo brasileiro. Se já antes da Covid-19 a miséria no País apontava para um crescimento, durante a pandemia as desigualdades se mostram ainda mais acentuadas. De acordo com estudo do Banco Mundial, a população em situação de extrema pobreza pode chegar a atingir 14,7 milhões de brasileiros no ano de 2020. Leia neste link o texto completo. […]