‘Breque dos apps’ é movimento mais importante em meses

por Pedro Marin | Revista Opera

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São Paulo, SP. 01 de julho de 2020. 'Breque dos apps' ma Avenida Paulista. (Foto: Roberto Parizotti/Fotos Publicas)

Pouco menos de um mês após a primeira paralisação, os trabalhadores de entrega por aplicativo voltam às ruas de todo o País nesse sábado, em mais uma greve nacional por melhores condições de trabalho.

As reivindicações do segundo “breque dos apps” são as mesmas do dia 1 de julho: aumento nas taxas de entrega, aumento da taxa mínima, fim dos bloqueios indevidos, seguro para roubos e acidentes, licenças pagas para entregadores infectados na pandemia e distribuição de EPIs. A estratégia da mobilização, no entanto, será um pouco diferente. De acordo com fontes envolvidas na organização e que preferem não se identificar, dessa vez os grevistas se concentrarão mais em “brecar” pedidos por meio de piquetes do que em fazer moto-carreatas. Além disso, estão previstos também piquetes no período da noite. A expectativa é que o movimento os efeitos da paralisação serão maiores do que na greve anterior, apesar de menos midiático e com concentrações mais esparsas. 

Por outro lado, se os entregadores aprenderam com a primeira greve e aperfeiçoaram seus métodos, é seguro supor que as empresas também o fizeram. Desde a grandiosa greve do 1 de julho, começaram a surgir nas redes sociais páginas contra a greve, possivelmente campanhas de relações públicas das próprias empresas. É de se esperar também que a repressão seja mais dura dessa vez.

A greve dos entregadores não é envolvida do cretinismo daqueles que imaginam que compondo a partir de forças que já estão mobilizadas (normalmente muito mal, por vezes exclusivamente em gabinetes) conseguirão avançar. Também não sofre de uma espécie de arrivismo performático e marqueteiro, sob o qual a luta política de rua vira uma disputa em que o vencedor é aquele que consegue formular a melhor palavra de ordem – às vezes a mais ampla, noutras a mais “radical” – para depois se auto esvaziar; todo espetáculo, afinal, tem um fim já previsto quando o roteiro foi escrito.

No primeiro caso, me refiro, por exemplo, às famigeradas frente amplas, por tantos consideradas indispensáveis sob o argumento de que seria necessário “juntar forças” contra Bolsonaro. Nessa lida, ignora-se que o significante esforço colocado para apaziguar diferenças entre burocratas, se direcionado à maioria da população, desprovida de organização própria, humilhada e desconfiada, daria muito mais frutos. No segundo caso, falo de mobilizações “pela democracia”, ineptas para fazer as reivindicações mais urgentes, básicas e concretas, colocando em seu lugar palavras de ordem que significam tanto quanto num dicionário couber.

O movimento de entregadores por aplicativo, sem se pretender político, faz mais contra o governo do que todos os citados: sem sequer mencioná-lo, demonstra, na medida que avança, que aquilo que possibilita fenômenos como o bolsonarismo – o neoliberalismo desenfreado que arrasta trabalhadores por onde passa – não triunfará incólume. É nesse sentido que o breque dos apps é verdadeiramente radical: é uma rasteira, não só no governo, mas antes a quem ele serve. O que sobra dos defensores da frente ampla quando surge um movimento dessa envergadura contra a exploração de um trabalho desregulado por, entre outras coisas, a reforma trabalhista, aprovada pelo mesmo Congresso ao qual teríamos que acudir para formar tal frente? O que sobra de quem rebaixa as bandeiras e as tornam abstratas (falam em democracia) ao mesmo tempo que não tocam na questão econômica (sequer tratam de auxílios emergenciais) argumentando que têm de fazê-lo para incluir em seu movimento o máximo de pessoas, quando de repente vemos uma categoria cada vez mais explorada se dispondo a piquetes para defender suas reivindicações econômicas? Não sobra nada.

É certo que há nesse movimento elementos de rejeição mecânica a partidos e sindicatos, que geram desconfiança em muita gente. Mas não há nada mais natural: que tipo de postura esperariam de uma classe que começa a dar seus primeiros sinais de organização frente a organizações históricas que, no entanto, tem tomado posturas excessivamente mornas na sua oposição aos ataques contra os trabalhadores? No mínimo, é preciso reconhecer que se há um clima de desconfiança geral em relação a partidos e sindicatos, é mais do que natural que numa determinada classe essa desconfiança se manifeste igualmente. Quem não se dispõe a lidar com essas contradições no seio da classe trabalhadora, mas logo se anima a rebaixar suas próprias posições para negociar com este ou aquele político demonstra que, mais do que não confiar nas forças populares, escolhe deliberadamente ficar ao lado de seus inimigos.

A rejeição que têm à “política” – frequentemente dizem que o movimento “não é político” – é passageira. É no decurso de sua luta por reivindicações econômicas que aprenderão que uma coisa está ligada à outra, que o modelo de trabalho a eles imposto tem determinados representantes, que por decisões políticas este modelo poderia ser transformado; aprenderão que legislam e executam com mais força nas ruas, acelerando e piquetando, do que fazem alguns senhores no Congresso e em palácios. A tarefa de uma esquerda verdadeiramente comprometida com as palavras de ordem que proclama é compreender o ritmo dessa luta e aprendizagem, e se adaptar a ele – não levantar determinado mote e esperar que os outros venham a seu socorro, ou pior: rejeitar aqueles que não vieram.

Por essas e outras, as greves de entregadores de 1 de julho e desse sábado já figuram como as movimentações populares mais importantes dos últimos meses.