O que os mísseis balísticos da Coreia do Sul dizem sobre a Coreia do Sul, os Estados Unidos e o Conselho de Segurança da ONU

Por Stephen Gowans - tradução de Fabyola Alves para a Revista Opera

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(Foto: Departamento de Defesa dos EUA / Cherie Cullen)

 

Uma reportagem de Choe Sang-Hun publicada no The New York Times de 28 de julho revelou indiretamente três pontos importantes, que não foram mencionados por Choe, mas que, em um ambiente ideológico menos subserviente aos objetivos da política externa dos EUA, poderiam ser destacados.

A reportagem referia-se à autorização que os Estados Unidos deram recentemente à Coreia do Sul para lançar ao espaço cinco satélites de vigilância em 2023. Os satélites seriam usados ​​para espionar a Coreia do Norte e aumentar a enorme vantagem militar que a Coreia do Sul já tem perante a República Popular Democrática da Coreia (RPDC). Desde 1979, Washington impôs limites ao alcance e à carga útil dos mísseis balísticos que Seul tem permissão para implantar. Em março, a Coreia do Sul testou um míssil balístico com alcance de 800 quilômetros, com a aprovação dos EUA.

O que a reportagem de Choe revela indiretamente é:

1 – Que os Estados Unidos limitam rigorosamente a soberania sul-coreana. Embora um país genuinamente soberano tome suas próprias decisões sobre suas capacidades de mísseis, as decisões sobre implantações, alcance e cargas de mísseis sul-coreanos são tomadas em Washington.

Esse é apenas um dos aspectos da soberania truncada da Coreia do Sul. Em tempos de guerra, o comando das forças sul-coreanas rende-se a um general dos EUA. Richard Stilwell, um ex-comandante das forças norte-americanas na Coreia, comentou que esta é a “concessão mais notável de soberania em todo o mundo”.

2 – A Coreia do Sul continua desrespeitando os compromissos assumidos na Cúpula de Panmunjom de abril de 2018 de “cessar completamente todos os atos hostis […] em todos os domínios, incluindo terra, ar e mar, que são a fonte de tensões e conflitos militares”.

Os planos para colocar satélites espiões em órbita são claramente provocativos. Além disso, a Coreia do Sul está comprando do Estados Unidos caças F-35A avançados, fornecendo aos militares uma capacidade de combate superior à da Coreia do Norte. Esses acontecimentos contradizem o desejo de paz professado pela Coreia do Sul.

A Coreia do Sul quer que os mísseis balísticos aprimorem sua capacidade de inteligência militar a fim de minar a segurança da Coreia do Norte. A RPDC quer mísseis balísticos como sistemas de fornecimento de ogivas nucleares, a fim de impedir a agressão norte-americana. Com o equilíbrio militar decisivamente a favor da Coreia do Sul, os mísseis balísticos são desnecessários para a defesa da Coreia do Sul, mas servem ao seu projeto de provocar o colapso da Coreia do Norte.

3 – O programa de mísseis balísticos aprovado pela Coreia do Sul não foi condenado pelo Conselho de Segurança da ONU, ao contrário do que aconteceu com o programa independente de mísseis balísticos da Coreia do Norte. Em um esforço para pressionar Pyongyang a abandonar seus mísseis balísticos – uma campanha que, se bem sucedida, negaria ao país um meio vital de autodefesa – o Conselho de Segurança, incitado por Washington, impôs um bloqueio quase total à economia norte-coreana.

A reportagem de Choe não faz comentários sobre a dissonância óbvia entre normas internacionais de soberania nacional, por um lado, e a ditadura de Washington sobre a política de mísseis sul-coreanos, por outro. Na melhor das hipóteses, a acusação de Pyongyang de que a Coreia do Sul é um estado fantoche controlado por Washington é vista como exagero pela mídia e estudiosos ocidentais, mas a acusação não pode ser descartada tão prontamente. Certamente, a soberania da Coreia do Sul não é tão severamente restringida para que o país possa ser legitimamente caracterizado como um estado fantoche dos EUA propriamente dito, mas se submete ao comando dos EUA de várias maneiras importantes, a um nível em que outros aliados dos Estados Unidos não se submetem. 

Choe também não comenta sobre a natureza provocativa do plano sul-coreano de colocar satélites espiões acima do seu vizinho do norte. A hipocrisia óbvia do Conselho de Segurança evocando mísseis balísticos como justificativa para sancionar a Coreia do Norte, enquanto a Coreia do Sul tem permissão para desenvolver seu próprio programa de mísseis sem ser importunada (exceto pelos Estados Unidos), também é ignorada sem qualquer comentário.

Essas omissões são previsíveis. Se encaixam na narrativa fundamental que alimenta todo o discurso ocidental sobre a Coreia do Norte. Essa narrativa repousa nas suposições de que o estado do sul busca a paz, contra o estado do norte, que está inclinado à guerra. O sul, de acordo com essa narrativa, entrou voluntariamente e com gratidão em uma aliança com os Estados Unidos, que não busca nada além da defesa do seu aliado.

A narrativa é um conto de fadas. Militarmente, a Coreia do Norte não é párea para seu vizinho, muito maior e muito mais rico. Além disso, a Coreia do Sul está equipada com sistemas de armas fornecidos pelos EUA que são muito superiores a qualquer coisa do arsenal convencional da Coreia do Norte. A RPDC não representa uma ameaça significativa para a Coreia do Sul; seus mísseis balísticos e armas nucleares são puramente defensivos, e suas capacidades convencionais são escassas em comparação com as de seu vizinho peninsular.

Os Estados Unidos exploram seu estado satélite sul-coreano como um posto militar avançado e fonte de mão-de-obra para um vasto exército de reserva no Leste Asiático, totalmente interoperável com os militares dos EUA e sob o controle de facto e em tempos de guerra, de direito, dos oficiais dos EUA. Do ponto de vista dos EUA, a Coreia do Sul é geopoliticamente relevante devido à sua proximidade com os dois países que Washington designa como seus concorrentes, China e Rússia.

A presença militar dos EUA na Península Coreana e a ditadura informal dos EUA sobre Seul estão pouco relacionadas com uma tentativa dos Estados Unidos de protegerem seu estado satélite militarmente robusto de qualquer esforço de uma RPDC militarmente fraca em unificar e revolucionar a península, um projeto do qual a Coreia do Norte não conseguiu obter frutos há 70 anos atrás, quando o equilíbrio de forças era muito mais favorável à sua causa; a RPDC é completamente incapaz de levar a frente qualquer esforço do tipo hoje em dia.

A ditadura informal dos EUA sobre a Coreia do Sul serve ao mesmo objetivo que as ocupações militares dos EUA servem em outros estados aliados dos EUA, incluindo Alemanha, Itália, Japão e Grã-Bretanha (ex-rivais imperiais dos Estados Unidos). O objetivo é garantir que esses países permaneçam dentro da esfera econômica dos EUA e fora das órbitas chinesa e russa; e no caso do Japão e da Alemanha, impedi-los de nutrir esforços latentes para contestar a hegemonia dos EUA. Com relação à Alemanha, Walter Russell Mead, do The Wall Street Journal, descreveu a presença de tropas dos EUA  no país como uma forma de garantir aos  “vizinhos da Alemanha do leste e do oeste de que Berlim nunca mais irá perturbar a paz ou ameaçar a segurança da Europa”, ou seja, que a ocupação norte-americana assegura que os Estados Unidos, e não a Alemanha, dominem a Europa.

O que os mísseis balísticos da Coreia do Sul revelam é que o país é uma ferramenta da política externa dos EUA; os Estados Unidos têm uma relação ditatorial com Seul; e o Conselho de Segurança da ONU age, às vezes, da mesma forma que a Coreia do Sul; como um instrumento da política dos EUA.