Se os brasileiros morressem de Covid-19 proporcionalmente tanto quanto morrem os venezuelanos, teríamos hoje no país 1.357 mortos. Se o encontro de nosso povo com a morte pela doença fosse o mesmo que tiveram os chineses, seriam 694 mortes. Se gozássemos do mesmo azar dos cubanos, seriam 1.650 mortos. Se fôssemos vietnamitas, teríamos 22 compatriotas em caixões hoje. Se o destino de nossos vizinhos argentinos fosse o nosso, seriam 20.627 mortos. Se morrêssemos como eles todos, este texto, preparado especialmente para esta festança fúnebre de 100 mil cadáveres enterrados estupidamente, não seria publicado hoje.*

Em que pese as diferenças de cada país, fatores como a idade média de cada população e o tempo de preparo para a pandemia, o coronavírus já se tornou uma boa medida do quanto cada sociedade despreza a vida de seu povo. Não é um fato desdenhável que o líder em número de mortos por Covid-19 a nível global, os Estados Unidos, seja também a sociedade mais rica e mais preparada tecnológica e militarmente do planeta. No mesmo país em que se permite que bilionários sonhem com audaciosos projetos de exploração espacial, que lidera o mundo em gastos militares (tendo orçamentos superiores aos orçamentos somados dos dez próximos países da lista), e que controla, afinal, a moeda de reserva mundial, dezenas de milhares morrem como moscas circundando uma armadilha de luz. Do outro lado, em países descritos nas páginas de jornais como ilhotas autocráticas, impérios da vigilância e ditaduras vulgares, os esforços para evitar a morte são muito mais contundentes. Se fossem honestos, os grandes meios assinariam editoriais intitulados “Pela liberdade de morrer!”. Em seu lugar, usam da curiosa argumentação de que é a falta de democracia que permite o sucesso desses países no combate à pandemia. Mas no democrático Brasil, na rabeta dos Estados Unidos, não vamos nada bem. Em número de mortos per capita, na América Latina só ficamos atrás do Peru, que ostenta 20.649 mortos em uma população de 31 milhões. 

Em meio à febre da antipolítica, as partículas invisíveis radiografam os líderes e os mostram quebrados, muitos, saudáveis, alguns; e sem corações ou cérebros, outros. Sob a morte e a doença, a política transparece pelo o que é: uma arena de conflito; pelo futuro, pela vida, pela capacidade de decidir. Há quem decida produzir cloroquina, há quem nacionalize hospitais. Há quem seja por auxílios de R$ 200,00, há quem seja por R$ 600,00 – e há ainda aqueles que reivindicam auxílios e medidas ainda mais ousadas. Há quem maquie indígenas em aldeias, e há quem distribua cestas básicas em favelas. São coisas diferentes, com efeitos diferentes, concordará mesmo aquele que repete, não sem razões para tanto, que “todos são iguais”.

Mas, em meio à infâmia do coronavírus no Brasil, uma outra palavra se tornou popular nas discussões acerca da doença nos últimos meses: economia. “Também não […]” – morre José – “pode parar […]” – lá se vai Isabel – “a economia […]” – e morre Jacira. Todos param, morrem, não ligam de volta, são comidos pela terra, pelo céu ou pelo inferno, depois de alguns dias na fila do abate para serem oferecidos ao deus economia, sem que os expliquem se esse deus de números, de moedas e cédulas, alimentado por humanos, afinal é criação nossa ou se nós é que somos sua criação, se serve a nós ou nós é que servimos a ele, se as coisas que colhemos, em que trabalhamos e melhoramos, afinal, matam a nossa fome ou a dele. Alguns espertos falavam em “saúde à frente da economia” enquanto consideravam o telemarketing como uma atividade essencial. Outros, como o presidente, insistiram na tese de que um isolamento social efetivo significaria a morte, por vias econômicas, do povo brasileiro. Tiravam da cartola um “isolamento vertical”. O incrível é que depois de meses de pandemia, a desfaçatez tenha vencido. Não escondem: é guerra.

Em certos países, muitos dos quais pobres, as “economias” pararam momentaneamente, para que os homens pudessem seguir. Foram colocadas a serviço de sua vida, e não o contrário. Em outros, os homens são continuamente jogados ao fogo, como carvão, para que as máquinas sigam operando. Gastam-se pás, terra e corpos, para que não se gaste dinheiro. E ainda assim, é inútil.

8,8 trilhões de dólares seria, segundo a projeção mais grave do Banco Asiático de Desenvolvimento, o custo da pandemia do coronavírus a nível global. Isso significa 10% do PIB de todo o mundo. Vivemos em tempos em que tudo se faz para salvar a décima parte da riqueza de um ano, às custas das vidas que a produz. Ironicamente, a CEPAL calcula que na América Latina o PIB per capita terá um retrocesso de dez anos. “Contanto que não sejamos nós os perdedores”, é o que dirão aqueles que sobre centenas de milhares de cadáveres ficaram um pouco mais ricos. “Os países devem evitar pensar que devem escolher entre reabrir as economias e proteger a saúde e o bem-estar de seus povos. Esta, de fato, é uma escolha falsa. Vimos várias vezes que a atividade econômica completa não pode ser retomada, a menos que tenhamos o vírus sob controle. E tentar fazê-lo de outro modo coloca vidas em risco e amplia a incerteza causada pela pandemia”, é o que diz a diretora da Organização Pan-Americana da Saúde, Carissa Etienne.

O filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, disse em março deste ano que “mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”. Escrevi que “se ‘liberdade é a solução’, tomaremos ela como régua para medir a fila de cadáveres brasileiros ao final dessa dura jornada. Se nos faltar alguns metros, sabemos onde cobrá-los. E não será na China”. Não chegamos ainda ao fim, mas já é possível traçar a linha e contar os metros: a China teve, até hoje, 4.634 mortes por coronavírus. 96 mil menos mortos do que nós, num país de população seis vezes maior. São 100 mil mortos; quantos evitáveis, não fosse a defesa da “economia” dos que enriquecem com a morte? Decretaram guerra, em defesa da riqueza, e esperam pelo revide em defesa da vida. Talvez por isso os generais cada vez mais ocupem tudo, da Amazônia à Saúde. Talvez por isso os relatórios, as mudanças na inteligência, a criação de um Centro de Inteligência Nacional para o “enfrentamento de ameaças à segurança e à estabilidade do Estado e da sociedade”. Talvez por isso a insistência em usar a guerra como metáfora para a pandemia: entenderam o que ela significava antes de nós. A depender da característica inação da oposição, nem como metáfora a guerra servirá; tendo-a decretada, já a venceram.

* Cálculos feitos tomando em conta o número de mortos per capita de cada país. Depois, esse fator foi projetado para a população brasileira.