Netanyahu vs Gantz: a lógica política dos bombardeios contra Gaza

As bombas sobre Gaza são uma ferramenta na batalha política entre o primeiro-ministro e o ministro da Defesa de Israel. Por Ramzy Baroud* | Morning Star - Tradução de João Melato para a Revista Opera

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Ruínas de Beit Hanout, no norte da Faixa de Gaza, em 5 de agosto de 2014. (Foto: Muhammad Sabah / B'Tselem).

Pouco tempo atrás, Israel e o grupo palestino Hamas pareciam próximos de um acordo para a troca de prisioneiros. O Hamas liberaria vários soldados israelenses presos em Gaza enquanto Israel liberaria um número não especificado de palestinos detidos em prisões israelenses.

No dia 10 de agosto, no lugar do aguardado anúncio de algum tipo de acordo, bombas israelenses começaram a cair sobre a faixa sitiada e balões incendiários, partindo de Gaza, foram enviados ao lado israelense do muro. 

Então, o que deu errado?

A explicação pode ser encontrada principalmente – embora não completamente – em Israel, especificamente no conflito político entre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seu campo político direitista, de um lado, e os parceiros de coalizão de seu governo, liderados pelo ministro da Defesa Benny Gantz, de outro. 

A discórdia entre Netanyahu e Gantz concentra-se numa disputa feroz em torno do orçamento que se desenlaça no Knesset (parlamento). A disputa em si tem pouco a ver com gasto público e responsabilidade fiscal. 

Gantz, que deve começar seu mandato como primeiro-ministro em novembro de 2021, acredita que Netanyahu planeja passar um orçamento de um ano para minar o acordo da coalizão governamental e chamar novas eleições antes que a troca da chefia do Gabinete seja realizada. Assim, Gantz insiste em votar um orçamento de dois anos, inviabilizando quaisquer trapaças de Netanyahu e de seu partido, o Likud. 

A trama de Netanyahu, revelada pelo diário Haaretz no dia 29 de julho, não diz respeito somente à afeição do líder israelense pelo poder, mas também à sua desconfiança das intenções de Gantz. Se este se tornar primeiro-ministro, é provável que nomeie novos juízes simpáticos à sua coalizão Azul e Branco e, portanto, ávidos para condenar Netanyahu no seu processo por corrupção em curso. 

Esse é, talvez, o desafio mais crucial das carreiras políticas de Netanyahu e de Gantz: aquele lutando pela sua liberdade, esse lutando para sobreviver. 

Uma questão, porém, é de entendimento tranquilo para ambos: a noção de que a demonstração de força militar é a melhor forma de angariar apoio entre o público israelense, especialmente se uma nova eleição for inevitável. E uma quarta eleição consecutiva deve acontecer se a batalha em torno do orçamento não for resolvida. 

Como a explosão massiva que atingiu Beirute em 4 de agosto tornou inviável uma demonstração no Sul do Líbano, os dois líderes israelenses voltaram suas atenções para Gaza. Movendo-se em ritmo de campanha, Gantz e Netanyahu estão ocupados tentando vender seu peixe aos israelenses que vivem nas cidades ao Sul que fazem fronteira com a Faixa de Gaza.

Gantz encontrou-se com os líderes dessas comunidades numa visita em 19 de agosto. Junto com ele, estava uma delegação cuidadosamente selecionada de funcionário de alto escalão do governo e das Forças Armadas, incluindo o ministro da Agricultura, Alon Schuster, e o comandante da Divisão Territorial de Gaza, Nimrod Aloni – que participou por videoconferência. 

Além das ameaças clichês de alvejar qualquer um em Gaza que ousar ameaçar a segurança israelense, Gantz engajou-se em uma autopromoção de estilo eleitoral: “Nós mudamos a equação em Gaza. Desde que entrei no gabinete, houve uma resposta para cada falha em nossa segurança”, ele afirmou, enfatizando seus próprios méritos, não os do governo de coalizão – negando, assim, qualquer crédito a Netanyahu. 

Netanyahu, por sua vez, ameaçou retaliação severa contra Gaza se o Hamas não impedir os manifestantes de lançar balões incendiários: “Adotamos uma política segundo a qual um incêndio é lido como um foguete”, disse aos prefeitos das cidades do Sul em 18 de agosto. 

Netanyahu mantém aberta a opção de guerrear contra a Faixa de Gaza, para o caso de esta se tornar sua única opção. Já Gantz, na condição de ministro da Defesa e rival de Netanyahu, goza de maior poder de manobra. Desde 10 de agosto, ele tem ordenado bombardeios em Gaza a cada noite. A cada bomba que atinge território palestino, cresce um pouco a sua popularidade entre o eleitorado israelense, especialmente o do Sul.

Se a tensão atual levar a uma guerra total, a responsabilidade por suas potenciais consequências desastrosas recairá sobre o governo de coalizão como um todo – incluindo Netanyahu e o Likud. Esse fato coloca Gantz em uma posição favorável. 

Mas a conflagração na Faixa de Gaza não é somente um resultado de lutas políticas no interior do Estado de Israel. A sociedade gazana se encontra, nesse momento, em ponto de ebulição. 

A trégua entre os grupos de Gaza e Israel, conseguida em novembro de 2019 através de mediação egípcia, não levou a nada. Apesar das garantias de que os cidadãos de Gaza sitiados receberiam o alívio de que tanto precisam, sua situação, na verdade, deteriorou-se a níveis sem precedentes: o único gerador de energia da Faixa de Gaza não tem mais combustível e está paralisado; seu modesto território marítimo de pouco mais de 5 quilômetros foi declarado como área militar restrita por Israel em 16 de agosto; o posto de fronteira Karem Abu Salem, através do qual escassos suprimentos chegam a Gaza de Israel, foi oficialmente fechado

O sítio militar israelense sobre Gaza, que já dura mais de treze anos, assumiu a sua pior manifestação possível – com pouco espaço para a população gazana sequer expressar indignação por sua condição de miséria e horror. 

Em dezembro, as autoridades do Hamas decidiram limitar a frequência dos protestos conhecidos como a Marcha do Retorno, que vinham acontecendo com frequência quase diária desde março de 2018.

Mais de 300 palestinos foram mortos por franco-atiradores israelenses durante os protestos. Apesar do elevado número de baixas e do relativo fracasso em suscitar alvoroço internacional contra o sítio militar, os protestos não-violentos deram aos palestinos comuns uma oportunidade para desabafar, para se organizar e tomar a iniciativa.

A frustração crescente em Gaza obrigou o Hamas a reabrir um espaço para os manifestantes retornarem ao muro na esperança de que isso empurre o assunto de volta para a agenda de notícias. 

Os balões incendiários que recentemente suscitaram a ira dos militares israelenses são uma das diversas mensagens palestinas de que os gazanos se recusam a aceitar que o sítio militar prolongado se torne sua realidade permanente. 

Ainda que a mediação egípcia possa, eventualmente, oferecer aos palestinos uma solução temporária e evitar uma guerra total, a violência israelense em Gaza não cessará sob o atual arranjo político.

Certamente, enquanto os líderes israelenses continuarem a ver a guerra em Gaza como uma oportunidade política e uma plataforma para seus próprios jogos eleitorais, o sítio continuará, implacavelmente. 

[*] Ramzy Baroud é jornalista, autor e editor da Palestine Chronicle