Décadas depois, a influência dos EUA na Colômbia ainda custa vidas

Na Colômbia, massacres contra jovens negros, camponeses e lutadores sociais avança na esteira de prisão do ex-presidente Álvaro Uribe. Por Alan MacLeod | Mintpress - Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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Mulher confere produção de mandioca no departamento de Cauca, na Colômbia. (Foto: Neil Parlmer / CIAT)

Na manhã de uma terça-feira quente do último mês, no subúrbio de Llano Verde, na cidade de Cali, cinco jovens negros colombianos decidiram sair de suas casas e aproveitar o clima agradável para passar algum tempo fora de casa. Eles nunca voltariam. Algumas horas depois, foram encontrados mortos; seus corpos foram queimados, cortados em pedaços com facões e crivado de balas, jogados em público para que todos vissem.

Os habitantes de Llano Verde não são desacostumados à violência; a maioria deles são refugiados, deslocados pela guerra civil da Colômbia. A imprensa local reportou que os meninos, Luis Fernando Montaño, Josmar Jean Paul Cruz Perlaza, Álvaro Jose Caicedo Silva, Jair Andrés Cortes Castros e Leider Cárdenas Hurtado, eram membros de uma vibrante cena artística local e tinham saído de casa para empinar pipas – uma atividade tão inocente na terra da culpa.

Uma história violenta

O incidente chocou a população de Cali, mas não a surpreendeu. Somente na última semana ocorreram cinco massacres pelo país. O de Cali sequer é o mais recente; no dia 27, os corpos de três jovens foram encontrados na beira de uma estrada de Ocaña, uma cidade próxima da fronteira com a Venezuela. Tratou-se do 46º massacre no país em 2020 (até 28h de agosto), de acordo com o grupo local de direitos humanos Indepez, que listou 185 pessoas mortas no ano – mais que uma por dia.

“Cada massacre é uma mensagem”, disse Manuel Rozental, um médico e ativista de longa data que vive em Cauca, no sudoeste do país. “Jovens, indígenas, afro-colombianos são mortos em massa em diferentes regiões do país… Os massacres são metódicos, sistemáticos. É um trabalho feito de acordo com o planejamento”, disse à MintPress.

James Jordan, o co-coordenador nacional do Alliance for Global Justice, aparenta concordar, dizendo: “Nos temos assistido alarmados enquanto os inimigos da paz na Colômbia continuam a escalar as ameaças e os ataques contra defensores dos direitos humanos, líderes de movimentos sociais e ex-insurgentes que participam do processo de paz. Familiares, incluindo, em alguns casos, crianças e até bebês, também foram feitos alvo. Como sempre, as comunidades mais afetadas pela violência política são as comunidades indígenas, afro-colombianas e de agricultura familiar”.

O governo, liderado pelo presidente Ivan Duque, culpou grupos rebeldes de esquerda pelos assasinados, particularmente as FARC. A maior parte dos últimos massacres de fato ocorreram nas áreas rurais controladas por rebeldes até o histórico acordo de paz de 2016, nos quais as FARC concordaram com a desmobilização com fins a entrar na arena política. Ainda assim, especialistas com quem a MintPress conversou foram céticos quanto às palavras de Duque. “Quem na Colômbia, depois do desmantelamento das FARC, tem a capacidade de encontrar, ameaças e matar líderes sociais e agora segue com massacres com tanta precisão? A resposta é óbvia, há de haver envolvimento da inteligência militar”, disse Rozental. Certamente, na história recente da Colômbia, a maioria das atrocidades foram cometidas por paramilitares ligados ao governo, que gozaram de rédeas praticamente livres para impor sua vontade ao país.

Duque visitou Cali, e ordenou que o chefe nacional da polícia, general Oscar Atehortua, ficasse à frente das investigações, instruindo suas forças a serem “implacáveis” na busca por justiça, um tipo de linguagem agressiva que preocupou muitos dos quais ele estava tentando acalmar. Ao mesmo tempo, ele tentou minimizar o recente surto de violência, descrevendo os massacres meramente como “homicídios coletivos”. No dia 28, o governo anunciou a prisão de dois suspeitos, apesar de suas afiliações, sem falar de sua culpabilidade, ainda serem incertas.

O professor Mario A. Murillo, da Universidade de Hofstra, autor de “Colômbia e Estados Unidos: Guerra, Terrorismo e Desestabilização” (em tradução livre), é profundamente agnóstico sobre os responsáveis pela violência, mas acredita que a situação geral advém de falhas do governo. “A recente onda de massacres que atinge predominantemente as comunidades rurais da Colômbia, a primeira vista, parecem ser parte de uma ilegalidade aleatória frente a qual as autoridades estão tendo dificuldades em atribuir responsabilidades, mas na verdade trata-se do resultado direto das falhas do atual governo em implementar plenamente o acordo de paz de 2016 assinado com os rebeldes das FARC pelo governo anterior”, disse ele.

“O ponto de partida é que se o presidente Duque não tivesse assumido a liderança da base de direita de seu Partido do Centro Democrático ao desmantelar todas as disposições importantes do acordo de paz – da reforma agrária à justiça para as vítimas da guerra de décadas, de sustentável desenvolvimento rural, a garantias para movimentos sociais e guerrilheiros desmobilizados em uma Colômbia pós-conflito – o país não estaria revivendo esse tipo de terror, reminiscente dos horrores do final dos anos 1990 e início dos 2000.”

Não vote em Petro

Ivan Duque chegou ao poder em 2018, em uma arduamente contestada e altamente questionável eleição na qual enfrentou o ex-guerrilheiro Gustavo Petro. Tratou-se da primeira vez em que a esquerda pareceu ter uma chance no poder desde o assassinato do candidato presidencial Jorge Eliécer Gaitán em 1948, um evento que resultou em décadas de guerra civil. Esquadrões da morte e paramilitares de direita começaram a agir, fazendo ameaças de morte generalizadas contra aqueles que tentassem votar em Petro. O próprio Petro sobreviveu por pouco a uma tentativa de assassinato durante as eleições. Alguns de seus apoiadores tiveram menos sorte. O advogado americano de direitos humanos Daniel Kovalik, observador eleitoral, disse que foi confundido com um eleitor e recebeu ofertas de dinheiro para votar em Duque. Houve mais de 1.000 reclamações oficiais de fraude eleitoral. Jordan explicou ao MintPress suas experiências com a eleição questionável: “Durante o verão de 2018, nós trouxemos um time de observadores eleitorais para a Colômbia. Aquela eleição foi, historicamente, a primeira na qual ex-insurgentes das FARC participaram como um partido legal, depois de entregar as armas. Ela também foi marcada por ameaças organizadas e ataques de atores paramilitares contra as campanhas de esquerda e centro-esquerda, bem como contra diversos movimentos populares. E ela foi marcada por fraudes eleitorais e irregularidades massivas, algumas das quais nosso time presenciou diretamente.”

Plano Colômbia

Duque é o protegido do presidente conservador Alvaro Uribe, que governou o país entre 2002 e 2010. Uribe trabalhou em estreita colaboração com o governo dos Estados Unidos para implementar o “Plano Colômbia” do governo Bush, um esforço massivo para militarizar a guerra às drogas, levando a enormes quantidades de mortes e destruição no campo do país, resultando em um amplo processo de deslocamento e revolta social. No entanto, muitos observadores viram a ação de Washington como uma tentativa velada de armar um governo favorecido para que eles pudessem derrotar os rebeldes esquerdistas da Colômbia de uma vez por todas. É digno de nota que o próprio Uribe foi apontado como um importante ator no tráfico de drogas em um documento do governo dos Estados Unidos de 1991.

Em grande parte desconhecida fora do país, a guerra civil da Colômbia, que começou em 1964 e nunca parou totalmente, causou uma grande agitação social, incluindo cerca de 7,4 milhões de pessoas atualmente deslocadas, de acordo com as Nações Unidas. Em comparação, o conflito na Síria gerou 6,2 milhões de deslocados. Os afro-colombianos foram particularmente atingidos.

Uribe também supervisionou uma série de assassinatos e massacres extrajudiciais durante vários anos, processo que resultou em mais de 10.000 mortes. O chamado “Escândalo de Falsos Positivos”, consistia nas forças do governo assassinando quem quisessem, alegando mais tarde que suas vítimas eram membros das FARC. Isso permitiu que Uribe impusesse seu governo ao país, intimidando os oponentes ao silêncio. A Colômbia se tornou, de acordo com a Anistia Internacional, o “lugar mais perigoso do mundo para ser um sindicalista”, com mais assassinatos de sindicalistas ocorrendo dentro do país do que em todos os outros juntos.

Ainda hoje, paramilitares de direita ligados ao governo têm usado a quarentena da COVID-19 para perseguir ativistas, com mais de 100 assassinados apenas no primeiro semestre de 2020. “Nossos inimigos ainda estão nos matando e não é difícil para eles durante a pandemia porque estamos todos em casa, cumprindo a quarentena obrigatória, o que significa que ninguém pode se mover”, escreveu um ativista afro-colombiano à Anistia. “Estar em casa 24 horas por dia é uma sentença de morte porque os pistoleiros sabem onde nos encontrar.”

Rozental era da opinião de que as drogas, a violência e o Estado estavam fundamentalmente interligados na Colômbia, dizendo ao MintPress que “A relação com o narcotráfico e os cartéis… Ninguém pode ignorar ou negar as evidências e o conhecimento de que o Estado colombiano, ao mais alto nível, as Forças Armadas, o sistema judicial e o Congresso estão todos envolvidos nas máfias do narcotráfico e o negócio do tráfico de drogas. A personificação disso é Alvaro Uribe.”

No entanto, isso é amplamente ignorado no Ocidente, com a mídia corporativa frequentemente apresentando o país como uma democracia emergente, e Uribe como um amado estadista, com alguns até mesmo descrevendo-o como o “salvador” de uma nação e um “farol de esperança” para o mundo.

O passado de Uribe pode finalmente tê-lo afetado, já que o ex-presidente foi acusado e colocado em prisão domiciliar no início do mês passado por supostamente tentar subornar uma testemunha em um caso envolvendo membros de um grupo paramilitar. Ele também é acusado de ser membro fundador de um esquadrão da morte de direita. Ele pode pegar até oito anos de prisão se for condenado. Será que o homem que já foi considerado intocável está prestes a sentir a ira do estado que ajudou a construir?

Murillo acredita que pode haver uma conexão entre sua prisão e a explosão de violência nas últimas semanas, dizendo: “Provavelmente não é coincidência que esta atual onda de massacres, que fazia parte da vida cotidiana na Colômbia quando o benfeitor de Duque, o ex-presidente Álvaro Uribe, assumiu o poder em 2002, esteja ocorrendo no momento em que Uribe está em prisão domiciliar, enfrentando justiça por seu envolvimento em adulteração de testemunhas e atividade paramilitar. Eles são concebidos como uma distração? Ou pior ainda, retribuição pela detenção de Uribe? Infelizmente, na Colômbia, provavelmente nunca chegaremos ao fundo disso.”

Quem se beneficia?

Então, quem é o responsável pelo aumento dos massacres? São as FARC, como alega o governo? Ou os paramilitares de direita sejam os culpados? Ou talvez uma das miríades de grupos de narcotraficantes que operam na região? Ou uma combinação de muitos fatores? Se a história serve de juiz, provavelmente nunca obteremos uma resposta definitiva. A Colômbia é um país de tanta beleza, mas de pouca justiça.

Para Rozental, mesmo fazer essa pergunta pode ser inútil. Em vez disso, diz ele, devemos simplesmente “reconhecer quem são os beneficiários”. Então se torna mais fácil de entender. “A intenção é consolidar uma articulação entre interesses extrativistas e financeiros corporativos transnacionais com as máfias do narcotráfico”, disse ele, observando que a maconha cultivada em seu departamento de Cauca e comprada por 3 a 5 dólares é vendida nos EUA por 5.000 dólares. Com a produção de cocaína a história é semelhante, com a área de cultivo de coca mais do que triplicando entre 2013 e 2018, de acordo com a ONU.

“Há uma transferência massiva de riqueza que flui para o norte com o tráfico de drogas, e todas as organizações mafiosas violentas que produzem e transformam abrem espaços para interesses extrativistas transnacionais, para iniciativas geopolíticas e para o deslocamento e destruição de movimentos e organizações sociais que geram alternativas a partir de baixo. É preciso uma mentalidade diferente para ver o que está acontecendo aqui. Os massacres são meios para os fins. As vítimas pedem ajuda ao governo, que fornece o pretexto para a militarização, que em todos os casos levou a mais tráfico de drogas e violência”, disse Rozental ao MintPress.

A conexão americana

Para Jordan, as ações do governo dos Estados Unidos também contribuíram para o aumento da violência, nos demonstrando que o governo Trump inclinou-se para que Duque abandonasse o compromisso de seu governo com as comunidades rurais e sua política de substituição de safras, que dava aos agricultores pobres a oportunidade de ganhar com uma vida honesta, em vez de cultivar safras ilícitas. Em vez disso, como fez durante o Plano Colômbia, o governo dos EUA favoreceu a capacitação dos militares para intervir e erradicar as plantações em todo o país, esforços que fortaleceram sua mão e encorajaram os paramilitares a agirem como se todos os fazendeiros rurais fossem inimigos mortais envolvidos em atividades criminosas. Jordan também alega que Trump “pressionou ansiosamente” a Colômbia a abandonar seu programa de verdade e reconciliação e a reabilitação de ex-guerrilheiros de volta à sociedade. Para compreender a situação plenamente, disse ele, “temos que olhar além da Colômbia, em direção aos EUA e ao Império da OTAN”.

A Colômbia, é claro, por quase 200 anos foi considerada por aqueles em Washington como o “quintal” da América, com a nação provando estar entre os aliados mais leais dos EUA no hemisfério. Mesmo durante a onda de governos de esquerda que chegaram ao poder na América Latina durante as décadas de 2000 e 2010, a Colômbia se manteve firme, sendo um ponto de apoio norte-americano vital no continente, a partir do qual os EUA continuou a desestabilizar estados vizinhos como a Venezuela.

Os EUA sempre esteve profundamente envolvido no comércio de drogas. O jornalista investigativo Gary Webb detalhou como, durante os anos 1980, a CIA ajudou a inundar as comunidades negras da América com crack, permitindo que os esquadrões da morte “Contras”, da extrema- direita nicaraguense, lucrassem com a prática, ajudando-os em sua luta para derrubar os sandinistas. Webb foi encontrado com duas balas na cabeça em 2004. As autoridades consideraram suicídio, embora alguns continuem céticos. Até hoje, Webb é desprezado nos círculos de jornalistas de elite; os meios de comunicação corporativos trabalharam horas extras para conter a história e impedir que suas reportagens se tornassem reconhecidas. Hoje, parte do esquadrão dos Irã-Contra está de volta à Casa Branca, com Elliott Abrams nomeado conselheiro especial de Trump na Venezuela e no Irã. Em 1991, Abrams se declarou culpado por mentir ao Congresso sobre como, nos bastidores, seus associados estavam vendendo armas ao Irã para financiar seu projeto de mudança de regime na Nicarágua.

No final das contas, enquanto os norte-americanos continuarem pagando caro pelas drogas ilícitas, os colombianos continuarão pagando com sangue. As identidades da maioria dos assassinos do país permanecem um mistério, mas o contexto violento em que os massacres estão acontecendo não.