Argentina: a direita na ofensiva

Depois de meses em quarentena, direita argentina se põe na ofensiva e tensão política chega a seu pico com motins policiais. Por Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: Casa Rosada)

No final do mês de agosto, o ex-presidente argentino Eduardo Duhalde declarou publicamente no programa de TV Animales Sueltos: “É ridículo pensar que [no ano que vem] vamos ter eleições. Temos um histórico, que o povo não sabe, não lê, não ouve; entre 1930 e 1983, tivemos 14 ditaduras militares, 14 presidentes militares. Que se ignore hoje que o militarismo novamente está se pondo de pé na América…”

Foi interrompido pelo apresentador: “Está usando uma metáfora… Que não vamos ter eleições”. “Não, uma convicção”, respondeu. “Não há classe militar para dar um golpe”, disse o apresentador. “Ah, não há? Não há?” foi a resposta, em tom irônico, do ex-presidente.

As declarações de Duhalde, tomadas com surpresa e incredulidade na bancada do programa televisivo, foram consideradas uma loucura também nos meios kirchneristas. Mas nas últimas semanas a tensão política na Argentina tem se agudizado e ontem (9), em seu pico, uma greve de policiais da província de Buenos Aires fez com que muitos se voltassem às palavras de Duhalde com uma postura mais aberta. “Parece que Duhalde não estava tão louco”, é a manchete assinada por Silvio Santamarina na revista Noticias. Não é para menos: na Argentina, a polícia é mais importante do que o Exército, humilhado depois do passo em falso dado na Guerra das Malvinas. Em efetivo, a Polícia da Província de Buenos Aires sozinha tem quase o dobro do Exército: 90 mil homens da primeira, contra 48 mil do último. É a tão procurada classe militar.

Em greve e reivindicando aumentos salariais, os policiais bonaerenses chegaram a cercar a Quinta de Olivos, residência oficial do presidente. “É a polícia da província de Buenos Aires… A Quinta de Olivos é a casa do presidente. Ou seja, se quisessem pedir aumentos, teriam que ir à casa do governo da província, não à casa presidencial. Não tem sentido; se vê claramente a intenção política”, disse à Revista Opera, no calor do momento, a estudante de Ciências Sociais Malena U. “Estão desafiando o consenso social que temos na Argentina desde o final da última ditadura, de que as forças armadas e de segurança não podem tentar desequilibrar as instituições democráticas. Mas nas últimas semanas a direita está muito violenta”, completou.

Muitos setores kirchneristas tomavam a mobilização policial com menor agravo, dizendo que se tratava de uma reivindicação normal e justa. Mas com o aumento da tensão, o começo de mobilizações de policiais em outras províncias e os rumores de que o presidente Alberto Fernández estava acuado, a situação mudou. À noite, sindicatos começaram a se mobilizar para ir até a Quinta e defender o presidente, que, talvez prevendo uma situação caótica, pediu que não o fizessem.

Mais do que o tom ameaçante, o que preocupa na greve policial é seu contexto. No começo deste mês, o presidente argentino anunciou a reestruturação de 99% de sua dívida em dólar com credores privados, uma vitória considerável do governo Fernández em um país crescentemente pressionado pela inflação e, desde o governo Macri, de volta nos braços do Fundo Monetário Internacional (FMI). Além disso, tem aumentado consideravelmente o comércio e a cooperação com a China, e pode haver interesse de ambas as partes para uma integração maior por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota – elementos que colocam a Argentina em uma posição um tanto desalinhada dos interesses norte-americanos no continente.

No dia 18 de agosto, marchas de opositores tomaram as principais cidades do país, contra a reforma judicial proposta por Fernández, “contra a corrupção” e, até certo ponto, pela retomada da atividade normal em meio à pandemia. O ex-presidente Mauricio Macri, à época em uma viagem pela Europa, se disse “orgulhoso dos milhares de argentinos que saíram para dizer basta ao medo e ao atropelo, e sim ao trabalho, ao respeito e a liberdade”. 

Além disso, a oposição tem tentado travar o governo, negando-se a votar na Câmara de Deputados sem que haja sessões presenciais. O jornalista Horacio Verbitsky traduz com precisão a posição da oposição: “Numa reunião de oito horas da comissão parlamentar de trabalho, chegou-se a um acordo sobre a possibilidade de se reunir com uma fórmula mista, presencial/remota. Mario Negri (União Cívica Radical – UCR) e Cristian Ritondo (Proposta Republicana – PRO) pediram um intervalo para consultar o bloco e, quando voltaram, disseram que o acordo não era aceitável. Do partido no poder, argumentou-se que essa decisão foi adotada no descanso europeu [em referência a Macri]. Muito engraçado, mas a realidade é pior: houve deputados que disseram não ter percorrido milhares de quilômetros para depois aceitarem suas propostas e a sessão ser realizada. O plano era frustrá-la.” O presidente da Câmara de Deputados, Sergio Massa, propôs levar adiante a sessão com o sistema que até então vinha sendo utilizado: tanto os deputados presentes quanto os que cumprem a quarentena poderiam votar, contanto que ambos estivessem logados no sistema da Câmara. Mais de 90 dos representantes da oposição sentaram nas cadeiras da Câmara, mas não aceitaram logar no sistema. De fato, queriam frustrar a sessão. Enquanto a oposição se retirava da Câmara, o celular do presidente Sergio Massa passou a receber mensagens de ameaça contra ele e seus filhos. Sobre a adolescente Milagros, uma mensagem dizia que a estuprariam antes que a matassem, de acordo com Verbitsky. As comparações entre a Argentina e Venezuela, Fernández e Maduro, têm alguma recorrência na boca de alguns setores da oposição argentina, ainda que absurdas e desproporcionais. Com a decisão de travar o governo por via parlamentar, tática que tem a sordidez agravada pela pandemia, a comparação entre a oposição argentina e a venezuelana, que também tentou travar a Assembleia Nacional, levando à criação da Assembleia Nacional Constituinte, se torna bastante transparente.

“Com o início da quarentena e pela forma como a encarou o presidente, se gerou um consenso em torno do tema da saúde e das medidas de caráter sanitário. Isso permitiu um acordo entre Alberto e os setores moderados do Proposta Republicana (PRO), um momento de muito consenso político. Depois de dois, três meses de quarentena, esse consenso começou a se desgastar, e os setores mais conflitivos do PRO e da UCR começaram a jogar mais peso, a ter mais força. E começaram um plano não mais de diálogo, de discussão política, mas de tentar desgastar continuamente o governo de Alberto Fernández”, explica o politólogo e consultor político Vicente Fernández Mouján. “Na Câmara de Deputados se chegou a um acordo, as sessões vão voltar a acontecer. Mas há quase dois meses o tom das discussões políticas está dominado, na oposição, pelos setores mais radicalizados. Um tom de discussão, uma efervescência quase insustentável.”

Ontem, com sua residência cercada de policiais armados, Fernández abriu as portas e convocou oito dos representantes dos grevistas para conversar. Não aceitaram. “Nos disseram que o presidente vai nos atender, mas não queremos. Que saia aqui fora”, disse o capitão Sandro Amaya. “Se não for entrar com as câmeras [televisivas], não vou entrar.”

“Há duas consequências da greve, uma a curto prazo e uma a longo. A curto prazo, com o início da quarentena, todos estão de acordo, todos estão contidos. Mas se outros setores tomam o exemplo da polícia, como médicos, sindicatos, etc., com o desgaste que há hoje no governo, com a ação de vários meses da oposição, e o pouco espaço de manejo econômico que Fernández tem, a situação ficaria difícil para o governo”, diz Mouján. “A longo prazo, novamente vemos uma tendência a maior polarização das forças de segurança. Muito incipiente, nada comparável com o caso brasileiro ou boliviano. Mas essa excepcionalidade que a Argentina tem em relação às forças de segurança começa a se enfraquecer.” 

Hoje (10), depois do governador kirchnerista Axel Kicillof anunciar aumentos salariais mais amplos que os anunciados ontem e o Ministro de Segurança da Província de Buenos Aires, Sergio Berni, garantir que nenhum policial será punido ou sofrerá sanções pelos atos de ontem, a greve foi encerrada. O que faz ressoar talvez o que seja a parte mais importante do “aviso” de Duhalde: “Não é uma coisa que acontece de um dia para outro, é um processo.”