Nota sobre acusações

por André Ortega | Revista Opera

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Uso da minha coluna de maneira excepcional: se aproveitando de certas polêmicas que estão em voga, pessoas ligadas ao site “El Coyote” voltam a me atacar, agora usando expressões como neonazismo. Como a questão é recorrente e já respondi isso pelo menos três vezes, não quero me estender muito dessa vez, apesar do ataque ter outro caráter: como sempre, eles retornam em outra forma, construindo toda uma narrativa ardilosa sobre uma conspiração dentro da esquerda brasileira.

Quero começar relembrando que da última vez que sofri um ataque, o pivô do ataque não foi a página El Coyote, mas sim uma página chamada “Ala Esquerda”, que se dedicava a ataques sucessivos e um dia apareceram com uma “bomba” que mostrava um suposto grupo de pessoas uniformizadas da organização duginista Nova Resistência assistindo a um evento em que eu palestrava. A foto era uma edição, uma falsificação, e vinha com algumas acusações no pacote – depois que expus a falsificação, a tal página sumiu.

Agora estão fazendo uma “exposição” no Twitter. Por ora quero rever algumas coisas:

– Membros do Coyote e alguns perfis que tomam parte da campanha no Twitter afirmaram que a Revista Opera os ameaçou com processo. Nunca ameaçamos de processar ninguém, nem em privado nem em público. Isso é só por esclarecimento factual, não estou “me defendendo”, é evidente que frente aos ataques existem opções jurídicas, mas não ameaçamos com processo. Estão mentindo para agitar e provavelmente porque decidiram entrar em um terreno que sabem que estão lidando com difamação, então estão se prevenindo e se martirizando falando de “ameaças”.

– Quando teve o último ataque, muitos comentadores na internet e algumas pessoas afetadas que não são da Revista Opera de fato falaram de processo, “tem que processar”, “absurdo, mete um processo”, etc. Foi nesse caso também que muito se falou de envolvimento militar direto na provocação, até porque outra pessoa afetada denunciou uma figura específica, citando nome e arma (que eu não vou citar aqui). Chegou a meu conhecimento que a informação antes de ser jogada a público inclusive foi repassada para pessoas do Coyote. Não achei que fosse do interesse deles se associar a esse fiasco, naquela ocasião que falei de provocadores, de GSI.

– Conforme alertei antes, se utilizaram de uma foto em que apareço fazendo um gesto (quenelle) em 2014 (quando a polêmica da quenelle ainda estava se desenvolvendo, e quando não existia Nova Resistência). Eu já me critiquei por esse gesto, falei dele em minhas notas anteriores, explicando o contexto de que o fiz como um gesto vulgar contra os fascistas ucranianos, de bobeira social (“vamos tirar uma foto”), não como uma “saudação política” (não tinha em mente sequer a conotação “black power” que Diudonnné tentou pregar, nem muito menos de adesão neofascista). Também não pretendo me associar com a plataforma política mutante de Dieudonné. Lusvarghi inclusive não sabia do que se tratava e eu tratei como algo de menor importância dando essa explicação depois da foto. Eu não quero me associar a tal gesto, apesar de ter dado o contexto ali que o fiz como um gesto vulgar relativo a Ucrânia, não gosto da foto.

– Muita gente acha que as mentiras mais óbvias apenas desmoralizam o ataque, mas isto é parcialmente verdade. Essas mentiras também me causam problemas, porque geralmente são elas que “agitam”, postulam o assunto, criam a suspeita e todos o factoides do pacote ficam com ar de “grandes verdades” ao lado das mentiras absurdas. Eles vão me “cutucando” com isso, vendo até onde vou – uma vez, na primeira matéria do Coyote, tinha uma imagem de uma discussão pública em que disseram que eu apoiava a deportação de Olga Benário, quando na discussão eu estava dando uma posição contrária.

– Não sou da Nova Resistência, não sou duginista, não sou da “quarta teoria política” e não uso meu trabalho para divulgar essas coisas. Não estou relacionado a nenhum tipo de “infiltração”.

– Sim, já tive diversos contatos com pessoas da Nova Resistência, em contextos diversos. Aquela primeira foto, por exemplo, tinha a ver com um trabalho de fonte em relação à questão ucraniana. Existiram outras ocasiões. O meu problema aqui é que estou sofrendo ataques de doxxing (que é um tipo de exposição para prejudicar a pessoa), e estão adotando uma estratégia de fragilidade. Já era assim desde o início e eu não posso comprometer a minha segurança e a segurança do meu trabalho (que inclui o trabalho de pesquisa) – eu não posso fazer um relatório policial sobre as minhas atividades, ainda mais relativas à Ucrânia, porque isso pode trazer problemas para mim ou para fontes; eu sinto muito, mas não posso, por causa de uma onda de ataques, chegar aqui dizendo que “encontrei membro da nova resistência para discutir x assunto dia tal local tal”, “pessoa que entrou na NR trombou comigo em ocasião x”, “fulano pediu informações sobre livro” – e isso se aplica a outros campos sem relação com esse assunto, mas como coube a mim estar em determinada posição, é a mim que eles atacam. O irônico é que apesar do fato de eu ter tido certos contatos pessoais sem ter feito disso algo exatamente “secreto”, ao ponto de ter tido alguma confiança em relação a aceitar fotografias, eles fazem uma exposição como uma revelação de uma conspiração, uma adesão minha. Em alguns casos, isso assume uma dimensão menos formal: do tipo fulano já é leitor da Opera há muitos anos, já contribuiu em campanha e pediu para tirar foto comigo; quer discutir sobre algum assunto internacional, me consultar, coisas desse tipo; uma das pessoas que colocam uma foto junto comigo me abordou falando de comunismo, não vi problema nenhum e nem imaginei que uma foto pudesse ser usada contra mim assim – não posso me responsabilizar pelos outros e sempre agi de boa fé, e ainda assim essas coisas são muito pontuais, que usam como evidência anedótica de uma conspiração. Por isso, eu insisto que eu não sou da Quarta Teoria e nem adepto da Nova Resistência.

Da mesma forma, eu estaria a disposição de gente do El Coyote, principalmente quando decidiram fazer “matéria” sobre mim, que era apócrifa e não pediu nenhuma declaração minha (ou se quisessem saber alguma coisa sobre Ucrânia. Na nota que saiu na Revista Opera eu já tinha falado da dificuldade que é lidar com provocações desse tipo e que portanto eu precisava ter certos cuidados – e responder já é problemático).

– Notem que o que chamam de infiltração dessa organização é algo que eles fazem abertamente, reivindicam suas posições e pelo jeito adotam a cada vez uma comunicação mais agressiva. Minha vida seria muito mais fácil nesse caso se eu fosse um adepto da quarta teoria política, porque não me preocuparia com esses ataques, não me constrangeria e teria outro tipo de comunicação. Pessoalmente, eu não passaria por essa humilhação.

– Como das outras vezes, eles fazem várias acusações e oferecem várias interpretações distorcidas sobre assuntos diversos. Isso cria um espetáculo e serve como tática de choque para quem está lendo, pela saturação de informações, e o “conhecimento” que eles exibem; cria também um problema se eu tento responder expondo diferenças ideológicas, enquanto o propósito disso é me atacar. Questões relativas à situação política da Ucrânia – para a qual eles fornecem um retrato errôneo – eu voltarei a tratar no futuro, mas já havia dado posições no passado, críticas ao nacionalismo russo e nós da Opera divulgávamos um livreto de comunistas ucranianos, era a nossa linha no momento. No entanto, cabe dizer que eles estão fazendo isso amparados por uma teoria que corre no exterior (popular entre certos inimigos do anti-imperialismo) em que a conspiração “nacional bolchevique duginista” contempla até mesmo o Syriza e o KKE da Grécia, trotskistas canadenses e lideranças religiosas – eles operam fazendo uma espécie de inversão do duginismo, como se todas as pretensões do duginismo fossem verdadeiras mas tivessem que ser viradas de cabeça para baixo.

– E a propósito, dada a dimensão do absurdo em que alguns estão chegando, eu não compactuo com negação do holocausto e no próprio caso ucraniano eu tive um discurso consistente de denúncia do nazi-fascismo.

Enfim, por ora é isto que tenho para dizer, eu não escondo conspiração, me atacam com factoides e estão seguindo uma estratégia para me constranger, me isolar e comprometer minha segurança.

Anexo:

Trecho da nota de 30 de abril: “nós já havíamos até falado oficialmente sobre eu ter ido ao evoliano em 2014 por questões relativas a Ucrânia e, pasmém, que eu soubesse a organização NR nem existia naquela época e, se existisse, o ataque de vocês não seria menos leviano. Não sou obrigado a prestar contas de meu trabalho para provocadores. Nem de evento público, nem de autoridade pública, nem nada, aliás, inclusive eu pensei que o “grande golpe” de vocês seria repetir o roteiro dos ucranianos, apesar de estar parecido.

Trecho nota na Opera 8 de setembro de 2019:  “É verdade, também, que já sofri ataques semelhantes, até me chamou atenção que o Coyote não usou uma imagem ridícula em que eu faço uma “quenelle”, o que eu já havia respondido a quem interessasse. Na ocasião eu já era algo como uma “pequena figura” na internet, e tinha uma relação com a questão da guerra civil na Síria. Posei para uma foto com Rafael Lusvarghi em 2014 e pediram uma “quenelle pelo Donbass”, “uma quenelle na junta ucraniana”, o que me fez dar risada e fazer o tal gesto como um gesto obsceno de provocação (e assim o expliquei para Lusvarghi), representando um braço enfiado no lugar onde ninguém quer um braço, daí posei segurando o riso. O gesto é criação do comediante negro francês Dieudonné, marcado por polêmicas envolvendo anti-sionismo e antissemitismo (a lei francesa é rigorosa), chegou a viralizar por um período. Foi objeto de controvérsia por conta dos enfrentamentos de Dieudonné com organizações judaicos, o que levou o ministro do interior francês Manuel Valls a tomar medidas administrativas contra Dieudonné em um espetáculo público para beneficiar um governo em crise e que naquele momento conduzia a guerra contra a Síria. Naquele ano ele também havia encontrado o ex presidente do Irã, Mahmmoud Ahmadinejad. Não fiz por associação a extrema direita ou coisa assim, nem como provocação antissemita. Qualquer argumento de que isso se trata de um “passado sujo” não faz sentido, porque já naquela época eu já estava produzindo conteúdo, realizando eventos e estudos à esquerda – não estava fazendo algo “escondido”.

Dia 22 de junho: “Diziam que era um “juramento de lealdade”, nem falavam do gesto, mas eu achava a foto inadequada por ser ridícula, por eu não achar ela representativa de nada.
Olhando, considero que foi um ato inconsequente, sem consideração política adequada e que eu não faria hoje, o que já se traduzia em minha hesitação.
No entanto, as condições são basicamente essas que descrevi de memória e minha compreensão estava por aí, fora a análise de prioridades em relação a ameaça do neonazismo ucraniano.”