Carta de despedida

por André Ortega | Revista Opera

0
7514

Tendo tomado algumas medidas, inclusive em relação à minha segurança, e após discutir com meus camaradas, decidi fazer esta carta com as explicações sobre a campanha de difamação que vem sendo feita contra minha pessoa – ou, tendo mais consideração por alguns, a onda de questionamentos. Pretendo compartilhar informações que até então eu preferia segurar para me preservar, por não considerar justo me expor em função de um ataque desse tipo, e que nunca foram mencionadas por meus detratores dedicados.

Para fazer isso, antes de tudo, declaro aqui o meu afastamento da Revista Opera e renuncio à minha posição no Comitê Editorial. Sinto que preciso de mãos livres para minha defesa. Também me afeta muito ver o sofrimento de pessoas ao meu redor, por isso acredito que no momento esta é a minha melhor opção. 

Sei que os ataques podem continuar, mas sei também que uma grande parte de meus leitores e dos apoiadores da Revista Opera querem paz, assim como eu; portanto, venho oferecer isto para eles. 

A campanha segue um modelo e um cronograma com características profissionais, mantendo um ritmo específico para buscar o máximo de engajamento. Isto é, características profissionais no que diz respeito ao modelo de divulgação difamatória, porém sem ética jornalística alguma. Seguem um padrão de “viés de confirmação”.

Na curiosa epistemologia de alguns de meus detratores, bombardear um monte de textos falando da “versatilidade do fascismo”, ou sobre “fascismo na esquerda”, de alguma forma oferece uma base lógica ou prova para as acusações que são feitas contra mim.

É irresponsável tomar a questão do entrismo no PDT, que tem fatores mais concretos e se trata de um partido político, e relacionar esta com meu caso e minha atuação na Revista Opera – algumas pessoas que se juntam ao linchamento parecem ignorar o abismo lógico aí. Nem eu nem a Revista Opera temos a capacidade de oferecer plataforma, abrigo, acordos, proteção, poder ou sinecuras como um partido político; tudo o que oferecemos é o produto de nosso trabalho que é público e verificável por qualquer um. Passamos quase uma década trabalhando sem remuneração e com pouca atenção. Não obstante, estes saltos sobre o abismo são apresentados como “Lógica básica”, somente para induzir conclusões, como se fosse “óbvio” e “evidente” aquilo que me acusam.  Existem etapas de indução como se elas fossem uma “soma lógica” na cabeça de qualquer leitor.

É como se fosse tão simples como dizer “1+1 = 2”, e a construção de um contexto completamente enviesado cria uma matemática em que a condenação é “lógica”, abrindo os portões para uma catarse inquisitorial em que todos têm a oportunidade de contribuir “combatendo o mal”, “fazer seu julgamento” e exigir dos outros que tomem parte nesse grande descarrego. Todos ali têm a emoção de presenciar e compartilhar as pseudo-provas e cria-se um clima de urgência, de que ali ocorre algo muito importante, em que é “necessário” participar. No meio da incitação e das supostas “evidências”, que já são acompanhadas por conclusões absurdas, cria-se um ambiente favorável a novas falsificações e mentiras – iniciado o linchamento, tudo é válido e, na total falta de cuidado com informações, tudo é compartilhado. No caos de informações e acusações desencontradas, a única coisa que vale é despertar a suspeita e intensificar os ataques contra mim.

Seguindo uma estratégia de comunicação de choque e saturação, várias coisas são misturadas e distorções são feitas a partir disso. Um exemplo é a tentativa de ressuscitar listas anteriores de posts denunciando as acusações que foram feitas contra mim em abril (quando usaram uma foto falsa) para misturar as coisas. Isso gera confusão de propósito e serve para reduzir os danos políticos que eles sofrem por conta da mentira de abril. Fotos são divulgadas geralmente sem datas, ampliando ao máximo a possibilidade de interpretação e invenção de contextos – mesmo pessoas confusas, em dúvida ou que vão questionar como “montagens”, são estimuladas pelos divulgadores no sentido de ampliar os engajamentos.

Os perfis obviamente fakes são os mais provocativos, compartilhando fotos com legendas absurdas. Os ataques são acompanhados por um arremedo de teoria na forma de saturação de “fontes sobre o assunto”, partindo de uma perspectiva teórica específica sobre uma “ameaça fascista dentro da esquerda”.

Parte importante dos meus detratores alega que a Revista Opera “ameaça com processos” quem falar desses assuntos, o que é mentira: nenhum membro da Revista Opera falou de processos com essas pessoas, em público ou privado. Fico exasperado com a própria afirmação de “ameaça”: ela é feita num contexto em que os envolvidos sabem que eu tenho direito a não ser difamado, que eu tenho direito a integridade moral e tenho direito a não sofrer assédio na forma de perseguição. Na insistência do uso da palavra “ameaça”, sugerem que fizemos coação violenta. Mesmo no episódio de abril, em que foi usada uma foto falsificada contra mim e algumas pessoas falaram que “merecia processo”, a minha reação se reduziu a uma nota muito indignado.

Na primeira nota, eu usei a expressão “por ora” no começo e no fim – eu ainda tinha coisas a dizer. Aqui, irei tratar sobre minha visão e relação com a Ucrânia, o caso de Rafael Lusvarghi, se tenho relações com a organização Nova Resistência, episódios que tive contato com membros da organização Nova Resistência e as fotografias que vêm sendo divulgadas como “provas” de algum tipo de “filiação” minha a esta organização; explicarei sobre o caso de as fotos serem falsificações ou não, e os contextos relevantes. 

Imagino que isto não vá deter alguns, que estão em uma campanha de perseguição e mesmo antes da publicação desta nota, faziam acusações mais abstratas e rarefeitas. 

Eles constroem uma narrativa para criar um retrato sobre mim no qual eu não tenho voz, então senti necessidade de falar com mais abertura e liberdade, no sentido de estabelecer a verdade independente dos ataques que já vinham acontecendo ou o que eles podem acarretar, não permitindo que outros imponham interpretações e narrativas à minha pessoa, sendo que o mais revoltante é o uso de factoides e fotos descontextualizadas para me atacar. Surgem teorias da conspiração e explicações que simplesmente ultrapassam a lógica. 

Eu estive no leste da Ucrânia, no Donbass, entre fevereiro e março de 2015. Os detratores que tentam construir uma história sobre a Ucrânia fazem isto de maneira escabrosa, tendo avaliação errônea sobre os acontecimentos que sucederam o Euromaidan e a natureza do fascismo ucraniano. Apesar deste ser um assunto longo, pretendo me concentrar principalmente naquilo que eu sei e no que eu vi, visto que é isto que está em pauta. 

Ignoram a unidade “Comando Internacionalista Ernesto Che Guevara”, que foi criada pelo comandante cossaco Pavel Dremov para, segundo ele, “seguir o modelo das Brigadas Internacionais da Espanha”. Rafael Lusvarghi estava nesta unidade, que durante um curto período teve uma página na internet, e a posição dela era fundamentalmente de esquerda e apoiava os esforços de reunificação da Ucrânia em torno de uma projeto antifascista. Era isto que existia enquanto eu estava lá. Como correspondente, eu acompanhei esta unidade por pelo menos um mês, em seu dia a dia, e mantendo discussões políticas e mundanas nesse meio – nunca vi ou ouvi “neonazismo”, nem nada do tipo vindo de Lusvarghi, nós chegamos, sim, a conversar sobre a barbárie nazi-fascista dos anos 40. Da mesma forma, nunca vi nada assim entre os milicianos do Donbass, a maioria com um discurso padrão de indignação com o governo de Kiev, o uso do nazismo como referência do mal, que eles estão “combatendo o nazismo como nossos pais e avós fizeram”, a defesa de um referendo, e objetivos que variam entre “libertar Kiev dos nazistas”, “tornar o Donbass independente” ou “aderir a Federação Russa”. 

Eu também aceitei cantar em um evento humanitário do dia das mulheres, mas que foi realizado no dia 7 de março na prefeitura de Pervomaisk. A secretária de cultura – que era comunista – insistiu para que eu cantasse uma música e, apesar de meus protestos de que eu não era musicista (não sabendo nem cantar, nem tocar direito), ela insistiu para que eu fizesse isso pois “seria muito significativo para a população”. Eu aceitei a proposta e fiquei ensaiando a música “Bella Ciao”. A performance foi um tanto deplorável, mas positiva: eu iniciei falando algumas palavras em português para ver se relaxava, disse “NO PASARÁN” por saber que a população conhece essa expressão histórica de resistência ao fascismo (cunhada por La Pasionaria em Madrid), o que foi respondido com aplausos, e em seguida cantei a música “Bella Ciao” em italiano, conforme é a música partisana. Este fato foi registrado em vídeo. 

Estas coisas que eu relato sobre este período que eu estava lá podem ser confirmadas pelo jornalista Alejandro Acosta que me acompanhou e que, além de jornalista, é um militante trotskista.

No meu entendimento, desde o início, Rafael Lusvarghi não era neonazista, pois eu já havia confrontado-o e discutido com ele sobre esses assuntos. Quando ele me consultou sobre o conflito ucraniano (antes dele ir para lá), falei da questão e do papel do antifascismo ali. Não sei o que o guiava ou o que ele sentia em relação a isso, mas não se manifestou de maneira contrária.

Não tinha nenhum “porém” nisso, nenhuma colocação “complexa” a respeito a disso, nenhuma “ideia torta” pelo meio do caminho.

Eu não me responsabilizo pelas posições que ele tomou antes ou depois disso, ou mesmo durante, mas reparei que durante o período em que eu o acompanhava, sob minha influência ou vigilância, ou sabe-se lá por qual motivação, seu discurso público em sua página pessoal estava à esquerda e sem grandes polêmicas. 

Até onde eu saiba, Lusvarghi não tinha mais do que um conhecimento superficial de Alexander Dugin e não tinha vínculos em sua vida pregressa com as pessoas que formariam a Nova Resistência, assim como nunca tinha participado de um grupo político.

É isto que sei sobre Rafael Lusvarghi de primeira mão. 

Até aqui, eu faço um relato pessoal, do que eu vi. Em seguida, tratarei de acontecimentos dos quais eu não tomei parte, não participei e não fui testemunha em primeira pessoa, mas sobre os quais também tenho minha própria avaliação.

O discurso de Lusvarghi mudou depois que fui embora, no final de março, e ele abandonou a região de Pervomaisk e se dirigiu a Donetsk. Lá houve um processo gradual de transformação política de seu discurso. Primeiro, houve uma adoção do discurso eurasiano e referências frequentes a Alexander Dugin, em seguida houve uma espécie de “degeneração pura” no militarismo e afirmações de caráter liberal (“anti-ideológicas”). Ele justificava a defesa do eurasianismo como projeto geopolítico de unificação da Rússia e da Ucrânia. Até onde eu saiba (e nesse caso, por ele mesmo), ele permitiu que pessoas dessem respostas por ele e viu na figura de Dugin uma espécie de “solução fácil” para questões de identidade ideológica, como uma “novidade”. Não sei mensurar a influência de duginistas brasileiros que mantinham contato com ele pela internet. 

Nesse processo de degeneração política, houve um papel de um cidadão franco-americano, de nome Guillaume Cuvelier (vulgo Lenormand), que fez parte da tal “Brigada Continentale”, e segundo o que me relatou Rafael, estava em Donetsk sem armas e sem unidade, e buscou convencer Rafael para  que o aceitasse junto dele e ele poderia assumir funções de “identidade e propaganda” (segundo me relatou Rafael). Depois apareceria a página “Team Vikernes”, com discurso provocativo, sem clareza, militarista e de natureza condenável. Rafael também me relatou que Guillaume pretendia criar um grupo mercenário, de contratos privados em outras partes do mundo, a partir disso.

Sobre esta figura de Guillaume (que nunca conheci), um comunista que estava lá me relatou que a figura tinha jeito de ser um provocador. Posteriormente, Guillaume reapareceu liderando uma unidade de norte-americanos ao lado de milícias curdas no Iraque e depois foi encontrado lotado em uma base militar do Exército dos Estados Unidos no Havaí. Acredito que estes fatos contribuem para a ideia de que Guillaume era, de fato, um provocador. 

Neste período, me afastei de Lusvarghi e condenei essas movimentações, sendo um desserviço ao povo do Donbass na forma de provocação militarista que, sim, implicava em um flerte com o nazismo por se referir à figura de Vikernes, mesmo que usassem outras referências sobre essa figura como “black metal e igrejas queimando”, como se ele fosse uma espécie de “meme” – eu considerava uma questão muito séria para ser tratada como piada.

Com o tempo, Rafael se afastou da imagem desta “unidade” também e permaneceu um tempo como combatente sem nenhum tipo de identidade (que eu me lembre). Ao conversar comigo, relatou um sentimento de niilismo sobre guerra e conflito, já inclinado a abandonar a Ucrânia. Lusvarghi também ficou descontente com antissemitas que se dirigiram a seu perfil nesse período (provavelmente entusiasmados com a “Team Vikernes”) e passou a fazer uma pregação multiculturalista e falar “das virtudes do povo judeu”, e por esta época ele me mandou mensagens novamente me questionando sobre minha posição a respeito da Palestina, perguntando a razão de eu “ser contra Israel (sic)” e que uma pessoa estaria dando muitos “esclarecimentos” para ele – naturalmente, achei um comportamento inconstante. 

Depois que ele veio para o Brasil, não o encontrei e não tive muitas notícias, até ele ser preso na Ucrânia, no que viríamos a revelar em primeira mão na Revista Opera como uma operação do SBU (serviço de repressão ucraniano). Isto se refletiu em convites para fazer aparições na TV, o que declinei. Recebi informações sobre o caso e mantive contato com a família de Rafael. Eventualmente, depois de preso, Lusvarghi dirigiu uma carta para sua família e também incluiu o meu nome, falando sobre o caso e pedindo ajuda – eu não podia deixar de publicar sua declaração pública naquele momento, que se encontra na Revista Opera. Sua captura foi, sim, um ato de sequestro que viola os Acordos de Minsk e sua prisão foi um descalabro dos direitos humanos. 

É isto que tenho para dizer sobre Rafael Lusvarghi.

Minha cobertura da Ucrânia me rendeu ameaças, intimidações e a presença na lista do site de uma organização ucraniana ligada ao Ministério do Interior, com milícia própria e dirigida por um dos ex-titulares da pasta do dito ministério (jornalistas foram assassinados após exposição nesse site), além de provocações de pessoas ligadas ao corpo diplomático.

Com minha volta, fizemos palestras e publicamos livretos sobre a guerra e o golpe de 2014, em que colocávamos o problema do fascismo ucraniano em perspectiva histórica, como um movimento geral de fascistização. Fenômenos como o neonazismo do Batalhão Azov não são a “causa” nesse processo, mas a consequência. Um determinado processo político colocou o Azov na sua posição de vanguarda neonazista europeia, assim como o Maidan havia colocado o Pravy Sektor em uma posição de vanguarda do fascismo ucraniano no momento anterior.

Em um momento em que diversos atores tentavam pintar o golpe de 2014 como um processo democrático e popular, denunciamos o fascismo. 

Tive sim uma posição política em relação à Ucrânia, e minha posição era de ver ali um momento fundamental de luta contra o nazismo renovado e de oposição ao fascismo, que teve uma de suas maiores expressões na guerra contra o Donbass. Eu diferenciava linhas políticas na oposição ao governo em Kiev e dava meu apoio à posição mais consequente como antifascista, como oposição aos nazistas, aos perseguidores, aos que condenaram regiões inteiras a orgias de bandos ultra-nacionalistas e hitleristas, aos que espancavam e humilhavam veteranos da Resistência, aos criminosos que comemoram o Massacre de Odessa, aos que celebram a memória de assassinos e colaboradores como Stepan Bandera e Roman Shukeyvich. Uma das faces do fascismo é o racismo e o supremacismo étnico, que usa recursos ideológicos extremos para atacar e tirar direitos de populações inteiras.  Entregaram Mariupol para ser “policiada” pelo Azov, enquanto outras cidades sofreram – e sofrem – com bandos de justiceiros do Pravy Sektor e seus sucessores (como o C14). O problema não é uma questão de “presença” de fascistas nas fileiras ucranianas, mas o fenômeno em torno dessa presença e o processo que os fortaleceu politicamente – processo que inclui a criação de tropas punitivas como o Batalhão Azov.

Todas as minhas posições naquele período foram pensadas em função de derrotar os nazistas ucranianos, em função da resistência do leste ucraniano, contra os massacres, contra os perseguidores, contra a limpeza étnica e a política supremacista que tinha forma e prática. A análise que se baseia na ideia “fascistas dos dois lados” é irresponsável, ignora que o antifascismo é o discurso principal do movimento no Donbass, aliado à mitologia de celebração das vitórias contra o nazismo no passado. Ignora também que não foi o Donbass que impôs uma política exclusivista ou estigmatizante contra a Ucrânia, mas sim o governo ucraniano, que alçou neofascistas em posição de poder, bancou uma política de revisão histórica e, depois de desrespeitar a escolha política de metade do país, decidiu atacar os direitos linguísticos dos russófonos; e quando veio resistência, apelou para os bombardeios e os batalhões punitivos. Isto para não falar, claro, do fator geopolítico e o significado disso num contexto geral de ofensiva norte-americana.

É ultrajante ser chamado de nazista. Foram precisamente estas posições que viraram nossa atenção para um grupo chamado “Misantropic Division Brasil” e nos colocaram como alvo dele, que reivindicava abertamente o “terrorismo branco”, a “defesa da raça branca”, fazia vídeos na internet mostrando treinamento com armas e bombas, e reividincando o ataque a bomba contra a sede do PCdoB em São Paulo. Grupo que contava com criminosos implicados no caso da bomba da Parada Gay em São Paulo e nas agressões do grupo skinhead “Impacto Hooligan”. Grupo que recebeu um oficial do Azov no Brasil para assim receber suas “credenciais”. É completamente ultrajante ter sofrido o assédio psicológico da ameaça sub-reptícia de criminosos nazistas, para agora sofrer o assédio por parte do ataque aberto de desorientados que, por causa de uma campanha no Twitter, me chamam de nazista sem saber absolutamente de nada.

Não sou nazista e, para não deixar dúvidas sobre um suposto “pedantismo”, não defendo supremacia ou separatismo racial, nem política de orgulho, nem regime semelhante, nem “alt-right” americana. Todos os difamadores que afirmam isso quando confrontados onde está o nazismo na minha produção, propaganda e falas públicas, não sabem o que dizer – não conseguem justificar essa acusação com política.

Isto me remete a primeira fotografia que quero tratar aqui e que já abordei pelo menos outras quatro vezes, que foi feita em outro acontecimento em 2014. Trabalhando com as informações de Ucrânia (antes de ir para lá), tive uma relação de contato específico pela internet com Raphael Machado, que viria a ser o líder da tal organização Nova Resistência, que não existia naquele momento. No mesmo período, ocorreu o famigerado “Encontro Evoliano” em São Paulo, ao qual precisei comparecer para realizar um trabalho de fontes. No que diz respeito ao evento, assisti a algumas das palestras, mas não participei ativamente. Neste contexto, me encontrei com Raphael Machado e Lusvarghi, que não se conheciam; Machado me saudou por nossas posições em comum a respeito da Ucrânia e pediu para tirarmos fotos. Tirei sem problemas e num determinado momento disseram para fazer uma quenelle contra o Estado ucraniano, o que para mim naquele momento não passava de um gesto vulgar e, então, fiz. Lusvarghi não sabia o significado. O gesto foi objeto de uma grande polêmica por ter sido usado em diversos contextos na França, desde por imigrantes até pela extrema direita – eventualmente, se tornou um gesto querido da extrema direita e identificado com o antissemitismo. Não fiz por associação a extrema direita ou coisa assim, nem como provocação antissemita: naquele momento, eu já atuava como um jovem de esquerda, porém condeno meu ato como inconsequente e não quero me associar a antissemitismo e nem muito menos a provocações contra vítimas do Holocausto.

Para mim, a barbárie nazista e neocolonial sempre foi fundamental para compreender o século XX. Sempre deixei isso claro.

Depois disso, continuei trabalhando pela esquerda e me articulando com grupos comunistas, como eu fazia usualmente já anos antes (e, no plano editorial, passando de tradução e pesquisa sobre países socialistas para questões mais atuais e uma produção original). Após minha volta da Ucrânia, realizei palestras, e nós, da Opera, divulgamos um livro de comunistas ucranianos sobre a guerra que assolava o país – quando cooperamos com grupos políticos para realizar eventos, era com organizações comunistas.

Agora vamos fazer uma revisão sobre as fotografias. A fotografia que utilizaram em abril, feita no lançamento do livro Carta no Coturno no Rio de Janeiro, na qual se pode ver “pessoas na plateia com camisas da Nova Resistência”, é falsa e assim ficou comprovado. 

Há algo que não foi exposto, nem acusado: no primeiro semestre de 2019 ocorreu o “Primeiro Congresso Nacional da Nova Resistência” – eu precisava me comunicar com uma fonte sobre assuntos estranhos à organização, e fui informado que o congresso era aberto e eu poderia encontrá-la lá. Informei Pedro, que objetou. Neste momento, eu já havia sofrido ataques falando de eu ser “Nova Resistência”, mesmo assim fui usando uma identificação própria, no sentido de me diferenciar.  Nesta ocasião, além de tratar com fontes assuntos do meu interesse, fui abordado por duas pessoas que diziam conhecer meu trabalho e me pediram uma fotografia.

Um me abordou, se apresentou, e explicou que foi um apoiador de campanhas passadas de levantamento de fundos da Revista Opera. Ele falou sobre meu trabalho no decorrer de anos, sua formação política e seus interesses acadêmicos, pediu para tirar foto comigo e eu aceitei. A foto vem sendo divulgada com muita confusão. Nesta mesma ocasião, outra pessoa me abordou, falou de outros escritos meus que seriam de seu interesse e também tirou uma foto. Não vi esta outra foto ser divulgada ou exposta em lugar algum. 

No que diz respeito a contato com a liderança, as únicas ocasiões que me dirigi a Raphael Machado pessoalmente foram na ocasião de 2014 e nesta ocasião de 2019. No espaço dentro desse período entre 2014 e 2019, não marquei nenhum tipo de encontro, pessoal ou profissional com Raphael Machado, ou qualquer outra fonte ligada a sua organização. 

Estão divulgando fotos que  teriam sido tiradas também em 2019, em que estou em um espaço aberto e apontam membros da Nova Resistência. Alegaram se tratar de uma “reunião política”. Isto não é verdade. Naquela ocasião – sim, em 2019 -, uma outra pessoa que já acompanhava meu trabalho há muitos anos, desde antes de concluir sua formação acadêmica, havia me convidado para sua festa de aniversário, em São Paulo – ele já havia feito isso em outros anos, me convidando e eu não havia comparecido, mas dessa vez, logo após escrever Carta no Coturno e meses sem quase sair de casa, eu decidi que talvez fosse bom eu ir, e disse que “não faria a desfeita”. Eu não mantinha uma relação próxima ou de intimidade com ela, e, que eu saiba, ela não era filiada à Nova Resistência. Cheguei, a festa era no quintal, um churrasco com bebidas alcóolicas: eu procurei me encostar em algum lugar e, em um determinado momento após isso, chegaram pessoas que são filiadas à Nova Resistência, e uma delas tirou de sua mochila uma bandeira da organização. Eu informei Pedro Marin da situação, e ele me recomendou que saísse de lá – eu julguei melhor seguir com meus planos e permanecer por lá, respondi que eu tomaria cuidado. Também manifestei preocupação para Mariana, minha amiga, em relação à bandeira. 

Me recordo de ter tirado fotografia com duas pessoas, que não reconheço como sendo membros da Nova Resistência, pelo menos pelas interações ali no contexto. Pelo anfitrião, eu havia sido apresentado de maneira geral como um jornalista que esteve na Ucrânia. Em uma das fotos expostas, eu apareço no fundo de uma selfie de duas pessoas. Outra foto foi exposta, na qual estou ao lado de três outras pessoas e, ao fundo, num canto, aparentemente abriram uma bandeira da Nova Resistência atrás de nós (ao que parece, estava sendo segurada sobre a cabeça de alguém). Eu não reconheço essa foto, nunca vi essa foto antes, mas suponho que seja legítima – não sei o que motivou, visto que nessa ocasião eu manifestei minha discordância, mas me parece um caso de “photobombing”, não sei se foi algum tipo de “troféu” ao colocar o jornalista embaixo da bandeira, eu sinceramente não sei. O que eu posso afirmar com certeza é que eu não tirei nenhuma foto “celebrando” a bandeira da Nova Resistência ou coisa assim. Não tirei fotos desse tipo em nenhum contexto. 

Pessoas diversas que participaram desta festa poderiam testemunhar que não se tratava de uma reunião política (e nem de um evento de confraternização da organização), porém eu não mantenho contato e isso provavelmente constrangeria as pessoas. No entanto, tenho Pedro e Mariana como testemunhas tanto de que comentei que iria a um evento social tanto do momento que me manifestei sobre presença de Nova Resistência. Não mantenho contato com as pessoas que estão na foto comigo e efetivamente não sei de filiação delas à organização Nova Resistência (apesar de aparentemente ser o caso de uma das pessoas citadas, que não nomearei aqui, como já mencionei). Também não mantinha comunicação anterior com os ditos “militantes”. 

Posteriormente, não participei de nenhum evento social desse tipo, não mantenho contato com as pessoas que estavam na festa. A propósito, nunca tomei parte de nenhum evento social que passasse por esse tipo de situação antes desse fato.

Noutra foto, estou ao lado de um homem segurando o livro Carta no Coturno, e isto foi por ocasião do lançamento do livro em São Paulo, que contou com várias pessoas, em uma livraria pública e aberta. Foi realizada uma fila para sessão de autógrafos e fotos para quem quisesse, e tirei foto com pessoas diversas, inclusive ele.

Me recordo que fiz falas em manifestações de solidariedade anti-imperialista com a Síria.  Participei de vários atos desse tipo, nunca chamados pela Nova Resistência. Essas manifestações eu frequentava com comunistas e em geral elas eram organizadas por membros da comunidade síria, sindicalistas, CEBRAPAZ, elementos do PPL e do PCdoB. Acredito que na maior parte das manifestações em São Paulo, membros da Nova Resistência podem ter participado. Não me recordo de “militantes”. Em uma ocasião, confrontei pessoas que ali estavam e queriam abrir uma bandeira de São Paulo, o que eu não aceitei – não tenho certeza se essas pessoas têm relações ou pertenciam a Nova Resistência, mas julguei o comportamento direitista. Divulgaram uma foto que falo em um megafone e há entre os rapazes assistindo minha fala um elemento que acusam de ser um fascista. Não me recordo desta pessoa e não estava “junto comigo”, apesar de estar tomando parte na manifestação; o ato era público e eu não era responsável por quem estivesse lá. Essa associação é das mais absurdas e estapafúrdias, das mais ofensivas, como se não bastasse a exposição de fotos.

Voltando aos métodos dos meus detratores, este caso é típico das táticas que eles usam: saturam. Da mesma forma, imagens de outras pessoas tomando parte em atividades da organização Nova Resistência ou que estão vinculadas à polêmica sobre entrismo desta organização no Partido Democrático Trabalhista são bombardeadas, para em seguida serem “coroadas” com alguma foto minha. 

Apesar de todos estarem sujeitos a erros de avaliação e poderem ter as suspeitas que preferirem, a acusação que é feita contra mim às vezes se soma a ilações de que “estou sempre com essas pessoas”, “estou cheio de rolês” e outras afirmações do gênero. Falam de “fotos entre 2014 e 2019”, o que entra em um terreno mentiroso – estes encontros pontuais ocorreram em 2014 e 2019, e não mantive relações pessoais com gente da Nova Resistência. Casos pontuais que usam para saltar para a conclusão, como se eu me encontrasse com essas pessoas de forma recorrente, ignorando todo o resto da minha vida e atividade política, fazendo uma seleção ultra-enviesada – como se não fosse possível fazer o mesmo com temas diversos para estabelecer “associações”, ou com outras pessoas. Fotos de duas ocasiões, com esse tipo de exposição, fazem parecer que vivo disso. Usam diversos elementos para construir conclusões arbitrárias que instigam as acusações, o tribunal de internet e a perseguição. 

Como já disse nas notas anteriores, tive sim contato com pessoas que formariam, formam ou foram desta organização no caráter de fontes em função de trabalhos jornalísticos. Pessoas que formariam, formam ou foram desta organização também interagiram comigo em contextos limitados ou tiveram interações em perfis meus em redes sociais. Fora isso, compartilhei o espaço social na ocasião relatada aqui, onde posso ter sido negligente.

São estes os fatos que tenho para relatar. 


Não sou da Nova Resistência. Não compartilho da sua base teórica, não parto das mesmas premissas e repudio várias de suas conclusões. 

Para não restarem dúvidas sobre “amiguismo” ou de que estou simplesmente partindo da “separação entre político e privado”, então rechaço aqui qualquer associação privada ou de amizade com estas pessoas.

Repudio qualquer declaração de negacionismo do Holocausto.

Também enfatizo um elemento da minha atividade política contrária a posições dessa organização: tive uma posição aberta, dura e militante contra o golpe de 2016 no Brasil. Inclusive receando uma situação que bebesse da experiência ucraniana e fosse necessário para nós lidar com elementos de grupos fascistas nas ruas.

A propósito, rejeito o retrato que tal organização faz dos acontecimentos ucranianos, o que supostamente para alguns seria “ponto comum”.

Também rejeito as chamadas pautas morais da organização e sua abordagem destes temas. 

Repudio os ataques promovidos contra mim no Twitter, injustos e irresponsáveis na comunicação.  Infiltração é uma acusação concreta, mas recorrem a abstrações – isso demanda provas e não algo do tipo “o André é meio estranho”. Por isso, ao serem confrontados, começam mudar a terminologia para termos diversos como o genérico “associação”, “amizade” ou “aliança”. Da acusação concreta de infiltração, passam para um julgamento sobre minha “pureza” e minha pessoa. Quando confrontados sobre a natureza dessa infiltração e o questionador não se contenta com links genéricos, não conseguem dizer como meu trabalho na Revista Opera é uma propaganda para estas teorias.

Observo ainda que alguns, que pegam o bonde do linchamento, falam da Revista Opera como se ela fosse uma empresa, fosse “apenas um trabalho” que eu fazia, quando ela constituía o lugar essencial do meu cotidiano político e veículo para as minhas opiniões. Isto é muito conveniente para continuar me atacando enquanto prejudicam a Opera. É absurda a acusação de infiltração quando os detratores não apontam para meu trabalho na revista.

Este ataque sai de uma plataforma política específica, atendendo interesses políticos específicos e com uma determinada visão do mundo em específico, o que é mascarado no momento em que criam uma inquisição contra minha figura.

Tenho direito de desconfiar de todos esses ataques, pela forma suja e sistemática que eles são feitos, porque já usaram falsificações, já usaram mentiras, e pelo meu trabalho nos últimos anos, incluindo a questão ucraniana e o livro Carta no Coturno, que já motivaram provocações. A lógica inquisitorial é tão doentia que parece que eu posso sofrer uma exposição mas os inquisidores são inquestionáveis.

Por fim, reafirmo que rechaço as posições políticas da Nova Resistência.

Se há alguma dúvida, afirmo então que este é um divisor de águas. Por isso sinto que é necessário me desligar da revista, pelo mesmo motivo que permaneci: para dar peso às minhas palavras. 

Isto é o que tenho para dizer. Se alguns dos que tomam parte nos ataques são bem intencionados, que levem isso em consideração como preferirem. Quem quiser lavar as mãos, que lave. Quem quiser me apoiar e divulgar, agradeço. 

Espero que este caso sirva de lição não somente para mim, mas a todos, sobre como é possível ser explorado e achincalhado por calúnias na internet.

Me desligo da Opera. Descansarei um pouco, mas vou continuar trabalhando, especialmente nas teses do Carta no Coturno, denunciando o partido fardado no Brasil.