Che Guevara: um legado ainda vivo

Che foi fuzilado há 53 anos, mas tornou-se um mito cujo legado ainda continua vivo para os povos de todo o mundo. Por Pedro Marin | Revista Opera

0
598
(Foto: RED ROMERO RAMOS)

Uma rajada curta de oito tiros varou o corpo e se alojou na parede de barro batido. Era uma sórdida repetição do que ocorrera há poucos minutos no cômodo ao lado. As balas, o fuzil M-2, as mãos do sargento que o segurava, marcariam e estariam marcadas para sempre na história da América Latina e do mundo. Há 53 anos aquele corpo caído, com os pulmões cheios de sangue, era o signo final da vida de Ernesto Che Guevara.

Pouco antes do assassinato, Félix Rodríguez, agente cubano da CIA e veterano da Invasão da Baía dos Porcos, olhou nos olhos do homem estropeado no chão com aparência de mendigo e declarou: “Quero falar com você”. Che respondeu prontamente: “Ninguém me interroga.” Foi Félix quem deu a ordem para que o sargento Mario Terán acabasse com Che, disparando abaixo da cabeça, para que parecesse que tivesse morrido em combate. Brandindo seu fuzil, o sargento reticente ouviu do homem que fuzilaria: “Aponte bem. Vai matar um homem.”

A tese da “morte em combate” fora a versão oficial, mas camponeses da região de La Higuera testemunharam ter visto Che caminhando por quilômetros até a escola onde seria morto. Só semanas depois o general e presidente René Barrientos confessaria: tinha ordenado a morte do guerrilheiro heróico.

A caça ao homem, que havia chegado à Bolívia onze meses antes sob o disfarce de um uruguaio de meia-idade chamado Adolfo Mena González, foi realizada por Rangers bolivianos, especialmente treinados por boinas verdes das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos para a guerra irregular, que fizeram questão de exibir seu cadáver como um troféu para que servisse como lição. “Toda nossa ação é um grito de guerra contra o imperialismo”, escreveu Che. “Em qualquer lugar em que nos surpreenda a morte, que seja bem-vinda, contanto que ele, nosso grito de guerra, tenha chegado a um ouvido receptivo e outra mão se disponha a empunhar nossas armas”. O efeito do espetáculo fora o contrário do previsto: a morte do guerrilheiro chegara a ouvidos, olhos, mãos, e Che tornou-se um mito global.

Che como Adolfo Mena González. Nem seus filhos o reconheciam.

Ao fim de sua vida, encerrada a 2 mil quilômetros de onde nasceu e a quase 5 mil de onde triunfou, Che já havia passado por dezenas de países. Como viajante, passou por Chile, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Panamá e Miami. Viajaria depois também pela Bolívia, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador e Guatemala, onde testemunharia o golpe contra o presidente Jacobo Árbenz. As viagens, nas palavras de Che em carta para uma tia, possibilitaram-no “passar pelos domínios da United Fruit Company” e constatar o infortúnio compartilhado de tantos países latino-americanos. De lá partiu para o México, onde conheceria Fidel e se jogaria à tarefa de libertar Cuba.

Como funcionário do governo revolucionário de Cuba, depois da vitória, o agora cubano-argentino passou por dezenas de nações da África, Ásia e Europa. Como combatente, além de Cuba e Bolívia, esteve também no Congo, convencido de que naquele continente estava o elo fraco do imperialismo. Ficou sete meses, e mesmo frente aos problemas apontados – falta de unidade dos combatentes congoleses, indisciplina das lideranças e falta de apoio internacional – Che considerou enviar para casa os combatentes cubanos e seguir no Congo. Foi convencido a retornar, e anotou a “a história de um fracasso”, em Passagens da Guerra Revolucionária.

Do “elo fraco do imperialismo”, Che se lançaria ao ponto estratégico latino-americano. Registrara dez anos antes, enquanto ainda lutava na Sierra Maestra: “Eu tenho um plano. Se um dia eu for levar adiante a revolução no continente, me instalarei na selva na fronteira entre a Bolívia e o Brasil. Conheço a localidade muito bem porque estive lá como médico. De lá é possível botar pressão em três ou quatro países e, se beneficiando das fronteiras e das florestas é possível trabalhar as coisas para nunca ser pego.”

A teoria do foco de Che predicava envolver os Estados Unidos em uma luta de frentes diversas. Criar “um, dois, mil Vietnãs” significaria dividir a atenção do império; na Bolívia, o estabelecimento do foco guerrilheiro levaria, mais cedo ou mais tarde, a uma intervenção norte-americana. O foco boliviano treinaria e apoiaria a criação de outros focos no Peru, Argentina, Brasil e Paraguai, criando um cenário de “efeito dominó” no continente.

O foco se iniciou em uma fazenda de Ñancahuazú, mas com várias debilidades. A  luta que deveria durar entre sete e dez anos durou somente alguns meses. A base do foco, na fazenda, não estava tão isolada quanto se previa; a chegada dos guerrilheiros atraía muita atenção.

No dia 31 de dezembro de 1966, Mario Monje visitou o acampamento e estabeleceu novas condições. “A conversa com Monje começou com generalidades, mas logo chegou às suas premissas fundamentais, estabelecidas em três condições básicas: 1) Ele renunciaria à liderança do partido, mas obteria do partido ao menos sua neutralidade [sobre a guerrilha] e conseguiria quadros para a luta. 2) A direção político-militar corresponderia a ele enquanto a revolução estivesse no âmbito boliviano. 3) Ele seria responsável pelas relações com outros partidos sul-americanos, conseguindo deles uma posição de apoio aos movimentos de libertação“, anotou Che em seu diário. O cubano-argentino respondeu que o primeiro ponto ficava a critério de Monje, como secretário do partido, mas que “considerava um tremendo erro sua posição. Era vacilante, buscava acomodar e preservava o nome histórico daqueles que deviam ser condenados por sua posição manca”. Também não se opôs ao terceiro ponto, ainda que considerasse condenado ao fracasso, naquela altura, convencer outros partidos comunistas da região da viabilidade da guerrilha. Mas negou o segundo ponto, que “não podia aceitar de nenhuma maneira. O chefe militar seria eu e não aceitaria ambiguidades sobre isso. Aqui a discussão estancou e girou em um círculo vicioso.” O Partido Comunista Boliviano se recusaria a apoiar a guerrilha, e a falta de recrutas se arrastaria durante toda a experiência. 

Além disso, os mapas e as observações sobre o terreno que o intelectual francês Régis Debray havia fornecido estavam errados. O foco teve de explorar por si só o terreno, em uma marcha iniciada no começo de 1967, que deveria endurecer as tropas, obter conhecimento do terreno e fazer os primeiros contatos com os escassos camponeses da região.

Mas a marcha foi frustrante. Cada vez mais, ficava evidente que o preparo físico das tropas – incluindo Che – não era suficiente. Os mapas de Debray eram quase inúteis, e a falta de comida os obrigou até a matar alguns de seus próprios cavalos. A dissensão e as discussões eram crescentes entre a tropa, e os encontros com os camponeses não tinham o efeito planejado; o contato era difícil, porque falavam Guaraní na região, e a maioria deles tinha há pouco conquistado suas terras por meio de uma reforma agrária limitada do governo.

As primeiras deserções, que levariam às autoridades descobrir o que se passava naquela estranha fazenda, viriam logo. A rede logística e de inteligência também seria comprometida com a apreensão de informações no carro da mítica guerrilheira Haydée Tamara Bunke (Tania). Na volatilidade daquela conjuntura, era combater ou desistir, e a guerra foi lançada antes do previsto. As primeiras ofensivas conseguiram vitórias, mas em março o presidente René Barrientos já havia feito seus primeiros contatos solicitando a ajuda que Che previra para anos mais tarde, e que levaria a seu fim. O foco não teve tempo.

Che se foi, mas seu legado, ao contrário do que diz o presidente brasileiro, segue bem vivo. Até o ex-sargento Mario Terán, responsável por seu fuzilamento, foi alcançado por ele: décadas depois do episódio que marcaria sua vida para sempre, suas vistas começaram a se apagar sob a branca catarata, um reflexo metafórico do que o sargento tentou fazer ao longo de toda sua vida após seu encontro final com Che: esquecer, desaparecer. A operação que recuperou a difusa visão do ex-sargento foi realizada por médicos cubanos em missão na Bolívia. Talvez isso explique a insistência com a qual seus companheiros foram expulsos daqui.

“Nasci na Argentina; não é segredo para ninguém. Sou cubano e também sou argentino, se não se ofenderem os ilustríssimos latino-americanos, me sinto tão patriota da América Latina, de qualquer país da América Latina, como qualquer outro e, no momento em que fosse necessário, estaria disposto a entregar minha vida pela libertação de qualquer um dos países da América Latina, sem pedir nada a ninguém, sem exigir nada, sem explorar ninguém”, disse em 1964, na ONU, depois de ser provocado por um representante nicaraguense por seu sotaque. “Espero de qualquer maneira que o representante da Nicarágua não tenha encontrado o sotaque norte-americano em minha fala, porque isso sim seria perigoso”.