John Pilger, testemunha da agonia de Julian Assange

Em entrevista, jornalista relata irregularidades no julgamento de extradição do fundador do WikiLeaks em Londres. Por Timothy Erik Ström | Arena Online - Tradução de Júlia Menezes com revisão de Rebeca Ávila

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Manifestação em Old Bailey, Londres. (Foto: Henry Nicholls)

O jornalista John Pilger passou as últimas três semanas assistindo ao julgamento de extradição de Julian Assange no Old Bailey (Tribunal Central Criminal) em Londres. Ele falou com o editor da Arena Online, Timothy Erik Ström:

Tendo assistido ao julgamento de Julian Assange em primeira mão, você consegue descrever a atmosfera que prevalecia no tribunal?

A atmosfera era chocante. Digo sem hesitar; eu já estive em muitos tribunais e raramente vi tamanha corrupção do devido processo; isso é vingança propriamente dita. Deixando de lado o ritual associado à “Justiça britânica”, em alguns momentos o julgamento tem lembrado um julgamento espetacular stalinista. A diferença é que em um julgamento de fachada, o réu é situado de modo adequado na sessão. No julgamento de Assange, o réu estava enjaulado em um vidro grosso, tendo que engatinhar de joelhos para uma abertura no vidro, supervisionado por um guarda para fazer contato com seus advogados. A mensagem dele, sussurrada de forma quase inaudível em virtude das máscaras no rosto, era então passada por um post-it (papel para anotação) para a extensão do tribunal onde seus advogados estavam argumentando no caso contra sua extradição para um inferno americano.  

Considere a rotina diária de Julian Assange, um australiano em julgamento por um jornalismo comprometido com a verdade. Ele foi acordado às cinco da manhã em sua cela na prisão de Belmarsh, na região sombria do sul de Londres. A primeira vez que vi Julian em Belmarsh, após ter passado mais ou menos meia hora pelas checagens de “segurança”, o que incluiu um cachorro cheirando meu traseiro, eu encontrei uma figura terrivelmente magra sentada sozinha em uma braçadeira amarela. Ele havia perdido mais de 10 quilos em poucos meses; seus braços não tinham músculo nenhum. Suas primeiras palavras foram: “acho que estou enlouquecendo”.

Eu tentei garantir que ele não estava. A sua resiliência e coragem são formidáveis, mas há um limite. Isso foi há mais de um ano. Nas últimas três semanas, antes do amanhecer, ele estava sendo revistado, acorrentado e preparado para ser transportado ao Tribunal Central Criminal, o Old Bailey, em um caminhão que sua companheira, Stella Moris, descreveu como um caixão invertido. O caminhão tinha uma janela pequena, Assange tinha que se manter em pé com cuidado para olhar para fora. O caminhão e os guardas eram operados pela Serco, uma das muitas empresas ligadas politicamente e que comandam boa parte da Grã-Bretanha de Boris Johnson. 

O caminho até Old Bailey durou mais ou menos uma hora e meia. Isso dá um mínimo de três horas sendo sacudido em um trânsito lento todos os dias. Ele foi levado de sua pequena cela até os fundos do tribunal, depois olhou, piscando, tentando reconhecer os rostos presentes na galeria reservada ao público através do reflexo no espelho. Ele viu a figura cordial de seu pai, John Shipton, e eu, e nossos punhos se estenderam. Através do espelho, ele tentou alcançar os dedos de Stella, que é advogada e estava sentada no corpo do tribunal. 

Nós estávamos presenciando o extremo do que o filósofo Guy Debord chama de Sociedade do Espetáculo: um homem lutando pela sua vida. No entanto, seu crime é ter realizado um serviço público épico: revelar o que temos direito de saber, as mentiras dos nossos governos e os crimes que eles cometem em nosso nome. A criação do WikiLeaks e a proteção à prova de falhas de fontes revolucionou o jornalismo, restaurando a visão de seus idealistas. A noção de Edmund Burke de jornalismo livre enquanto um quarto Estado é agora como um quinto Estado que explicita aqueles que desvalorizam o significado real de democracia com seu sigilo criminal. É por isso que a punição a Assange é tão extrema. 

A total parcialidade dos tribunais em que compareci este ano e no ano passado, com Julian no banco dos réus, arruina qualquer noção de justiça britânica. Quando a polícia criminosa arrastou Assange de seu exílio na embaixada do Equador em Londres – ao analisar a foto de perto é possível ver que ele está agarrado a um livro de Gore Vidal; Assange tem uma disposição política parecida com a de Vidal – um juiz deu a ele uma sentença de 50 semanas em uma prisão de segurança máxima por mera violação de fiança. 

Por meses, ele teve o exercício negado e foi mantido em um confinamento solitário disfarçado de “cuidados de saúde”. Uma vez ele me contou que caminhou pela extensão de sua cela indo e voltando, indo e voltando, como sua própria meia maratona. O ocupante da cela ao lado gritava a noite toda. No começo, ele não tinha acesso aos óculos de leitura, deixados para trás pela brutalidade da embaixada. Ele não tinha acesso aos documentos legais para preparar seu caso, nem acesso à biblioteca da prisão ou ao uso de um notebook básico. Livros enviados a ele por um amigo, o jornalista Charles Glass, sobrevivente de uma tomada de reféns em Beirut, foram devolvidos. Ele não podia ligar para seus advogados americanos. Ele era constantemente medicado pelas autoridades da prisão. Quando eu perguntei o que estavam lhe dando, ele não sabia responder. O governador de Belmarsh foi premiado com a Ordem do Império Britânico. 

Em Old Bailey, uma das testemunhas médicas especializadas, Dra. Kate Humphrey, uma neuropsicóloga clínica no Imperial College, em Londres, descreveu o dano: o intelecto de Julian foi da “faixa superior, ou provavelmente muito superior” para “significantemente abaixo” do nível ideal, até o ponto em que ele estava lutando para absorver informação e “funcionar com a faixa média reduzida”.  

Isso é o que o Relator Especial das Nações Unidas sobre Tortura, Professor Nils Melzer, chama ‘tortura psicológica’, o resultado de um ‘assédio moral’, como o de gangues, por governos e mídias cúmplices. Algumas das evidências dos médicos especialistas são tão chocantes que não pretendo repeti-las aqui. Basta dizer que Assange é diagnosticado com autismo e síndrome de Asperger e, de acordo com o professor Michael Kopelman, um dos líderes mundiais da neuropsiquiatria, ele sofre de “tendências suicidas” e é capaz de procurar uma forma de acabar com sua vida se for extraditado para a América. 

James Lewis, o promotor britânico que representa os EUA, passa a maior parte do seu contra-interrogatório ao Professor Kopelman rejeitando a doença mental e seus danos como “fingimento”. Eu nunca ouvi uma visão tão primitiva sobre uma fragilidade e vulnerabilidade humana hoje em dia. 

Minha visão é que se Assange for liberado, é provável que ele recupere uma parte substancial de sua vida. Ele tem uma companheira afetuosa, amigos devotos e aliados, e a força inata de um prisioneiro político com príncipios. Ele também tem um senso de humor acurado.  

Mas isso está muito longe. Os momentos de cooperação entre a juíza – ou magistrada -, uma mulher de visual gótico, Vanessa Baraitser, de quem pouco se sabe sobre, e a ação da acusação agindo em favor do regime de Trump foram descarados. Até os últimos dias, os argumentos de defesa têm sido sistematicamente descartados. O promotor, James Lewis, antes do Serviço Aéreo Especial e atualmente Chefe de Justiça das Ilhas Malvinas, em geral consegue o que quer, notavelmente em até quatro horas difama qualquer testemunha especialista, enquanto o exame da defesa é guilhotinado em meia hora. Eu não tenho dúvidas, se houvesse um júri, sua liberdade estaria assegurada. 

O artista dissidente Ai Weiwei se juntou a nós em uma manhã na galeria reservada ao público. Ele observou que na China o juiz já teria tomado uma decisão. Isso causou um entretenimento irônico. Minha companhia na galeria, o astuto jornalista e ex-embaixador britânico Craig Murray escreveu: 

“Eu temo que agora esteja chegando uma tempestade em toda Londres, para aqueles que trabalharam por um tempo com as instituições da democracia liberal que costumavam ao menos geralmente ser administradas seguindo seus próprios princípios declarados. Desde o primeiro dia ficou claro que eu estava assistindo a uma farsa. Não é nem um pouco chocante que Baraitser pense que nada além dos argumentos iniciais tenha algum efeito. Eu relatei várias vezes que, em um lugar onde as decisões devem ser tomadas, ela as trouxe ao tribunal pré-escritas, antes mesmo de ouvir os argumentos.

Eu suponho fortemente que a decisão final nesse caso foi feita mesmo antes dos argumentos iniciais terem sido recebidos. 

Desde o início, o plano do governo dos EUA tem sido limitar a informação disponível ao público e limitar o acesso efetivo de um público maior sobre qual informação está disponível. Portanto, nós temos visto restrições extremas tanto no acesso presencial quanto por vídeo. A cumplicidade da mídia mainstream tem garantido que sejam muito poucos aqueles que sabem o que está acontecendo, no meio da população geral.”

Há poucos registros sobre os procedimentos. São eles: o blog pessoal de Craig Murray, as reportagens de Joe Lauria no Consortium News e no World Socialist Website. O blog do jornalista americano Kevin Gosztola, Shadowproof, financiado sobretudo por ele mesmo, tem relatado mais sobre o julgamento do que boa parte da imprensa estadunidense e a TV juntas, incluindo a CNN. 

Na Austrália, terra natal de Assange, a ‘cobertura’ segue uma fórmula familiar à definida internacionalmente. A correspondente de Londres do Sydney Morning Herald, Latika Bourke, escreveu recentemente: 

“O tribunal ouviu que Assange se tornou depressivo durante os sete anos que passou na embaixada do Equador, onde buscou exílio político para escapar da extradição para a Suécia para responder às acusações de estupro e assédio moral.” 

Não houve ‘acusações de estupro e assédio sexual’ na Suécia. A mentira preguiçosa de Bourke não é incomum. Se o julgamento de Assange é o julgamento político do século, como eu acredito que seja, seu resultado não só vai definir o destino de um jornalista por fazer seu trabalho como também intimidará os princípios de jornalismo livre e liberdade de expressão. A ausência de uma reportagem mainstream séria sobre os procedimentos é, no mínimo, autodestrutiva. Os jornalistas deviam se perguntar: quem é o próximo?

Isso tudo é vergonhoso. Uma década atrás, o Guardian utilizou o trabalho de Assange, conseguiu lucros e prêmios, assim como um negócio lucrativo de Hollywood, e então se virou contra ele de uma maneira venenosa. Durante todo o julgamento de Old Bailey, dois nomes foram citados pela acusação: David Leigh do Guardian,  agora aposentado como “editor de investigações”, e Luke Harding, o russófobo e autor do ‘furo jornalístico’ ficcional do Guardian que declarou que o assessor de Trump, Paul Manafort, e um grupo de russos visitou Assange na embaixada do Equador. Isso nunca aconteceu, e o Guardian ainda precisa se desculpar. O livro de Harding e Leigh sobre Assange – escrito sem o seu consentimento – divulgou uma senha secreta a um arquivo do WikiLeaks que Assange havia confiado a Leigh durante a ‘parceria’ com o Guardian. Por que razão a defesa não chamou ambos é algo difícil de entender. 

Assange é citado no livro deles, declarando durante um jantar em um restaurante em Londres que ele não se importava se os informantes mencionados nos vazamentos fossem prejudicados. Nem Harding nem Leigh estavam nesse jantar. John Goetz, um repórter de investigações do Der Spiegel, estava no jantar e testemunhou que Assange não disse nada do tipo. O impressionante é que a juíza Baraitser impediu que Goetz dissesse isso no tribunal. 

No entanto, a defesa tem sido bem sucedida em demonstrar a dimensão com que Assange buscou proteger e eliminar os nomes das pastas divulgadas pelo WikiLeaks e que não há evidência crível de indivíduos prejudicados pelos vazamentos. O notável denunciante (whistle-blower) Daniel Ellsberg disse que Assange eliminou 15.000 pastas. Nicky Hager, renomado jornalista investigativo da Nova Zelândia que trabalhou com Assange nos vazamentos sobre a guerra do Afeganistão e Iraque, descreveu como Assange tomou ‘precauções extraordinárias ao eliminar os nomes dos informantes’. 

Quais são as implicações do veredito desse julgamento para o jornalismo de modo geral – é um presságio do que está por vir? 

O ‘efeito Assange’ já é sentido ao redor do mundo. Se descontentarem o regime em Washington, os jornalistas investigativos estão suscetíveis à acusação sob a Lei de Espionagem de 1917 dos EUA; o precedente é absoluto. Não importa onde você esteja. Para Washington, a nacionalidade de outras pessoas e a soberania de outros Estados pouco importa; agora mesmo nem existe. A Grã-Bretanha tem efetivamente rendido sua jurisdição ao Departamento de Justiça corrupto de Trump. Na Austrália, a Lei de Informação da Segurança Nacional promete julgamentos kafkanianos para transgressores. A rede pública de televisão Australiana (Australian Broadcasting Corporation) foi invadida pela polícia e os computadores dos jornalistas foram levados. O governo tem dado poderes aos oficiais de inteligência sem precedentes no país, tornando o jornalismo de denúncia quase impossível. O primeiro-ministro Scott Morrison diz que Assange ‘deve dançar conforme a música’. A crueldade pérfida dessa declaração é reforçada pela sua banalidade. 

“O mal”, escreveu Hannah Arendt, “vem de uma falha em pensar. Ele desafia o pensamento assim que o pensamento tenta engajar-se com o mal e examinar as premissas e princípios que o origina, e é frustrante porque não encontra nada lá. Essa é a banalidade do mal”. 

Tendo acompanhado a história do WikiLeaks de perto por uma década, o quanto essa experiência como testemunha mudou seu entendimento sobre o que está em jogo no julgamento de Assange? 

Há tempos tenho sido um crítico do jornalismo como um eco do poder e defensor daqueles que são ídolos. Então, para mim, a chegada do WikiLeaks foi excitante; eu admirei a forma como Assange considerou o público respeitosamente, que ele estava preparado para compartilhar seu trabalho com o ‘mainstream‘ mas sem se associar ao clube conivente. Isso, e a inveja despida, fez dele inimigo dos bem pagos, não talentosos e inseguros nas suas pretensões de independência e imparcialidade. 

Eu admiro a dimensão moral do WikiLeaks. Raramente perguntavam sobre isso a Assange, mas muito da sua energia notável vem de um poderoso senso moral de que governos e outros interesses investidos não deveriam operar atrás de muros de confidencialidade. Ele é um democrata. Ele explicou isso em uma das suas primeiras entrevistas na minha casa em 2010. 

O que está em jogo para o resto de nós tem estado em jogo há tempos: a liberdade de chamar uma autoridade para prestar contas, de denunciar a hipocrisia, de divergir. A diferença hoje é que o poder imperial do mundo, os Estados Unidos, nunca esteve tão incerto de sua autoridade metastática como hoje. Como um trapaceiro agitado, está nos levando para uma guerra mundial se permitirmos. Um pouco dessa ameaça é refletida na mídia. 

Em contramão, o WikiLeaks tem nos permitido enxergar um império desvairado marchar por sociedades inteiras – pense na carnificina no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Iêmen, para nomear algumas, a desapropriação de 37 milhões de pessoas e a morte de 12 milhões de homens, mulheres e crianças em uma ‘guerra ao terror’ – a maior parte por trás de uma fachada de enganação. 

Julian Assange é uma ameaça a esses horrores recorrentes – é por isso que ele está sendo acusado, por isso que uma corte de justiça tem se tornado instrumento de opressão, por isso ele deve ser nossa consciência coletiva: por isso todos nós devíamos ser a ameaça. 

A decisão do juiz será divulgada no dia 4 de janeiro.