O histórico latino-americano de policiais, ministros e generais envolvidos com tráfico

Na América Latina, a ideia convencional do tráfico de drogas como uma batalha entre oficiais de um lado e criminosos do outro está longe de ser verdade. Por Parker Asmann | InSight Crime - Tradução de Nara Castro para a Revista Opera, com revisão de Rebeca Ávila

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Existe um elemento que se provou vital para o sucesso operacional das organizações internacionais de tráfico de drogas em todo o mundo, incluindo a América Latina: a conivência de oficiais corruptos dos governos para proteger as remessas e evitar interdições.

Ao longo dos anos, vários casos de grande visibilidade demonstraram até que ponto oficiais de segurança passaram para o lado errado da lei e se envolveram com grupos do crime organizado.

A ideia de uma batalha convencional travada entre dois atores autônomos – o governo de um lado e grupos criminosos do outro – está longe de ser verdade. É muito mais frequente que oficiais e criminosos interajam, contando uns com os outros para negociar as condições que regulam a ordem e a violência para seu benefício mútuo.

O InSight Crime examina cinco casos – de forma alguma uma lista exaustiva – de supostos conluios entre grupos narcotraficantes e oficiais de governos na América Latina.

Genaro García Luna

Quando o então presidente mexicano Felipe Calderón decidiu que o governo lançaria medidas oficiais de repressão ao crime organizado em 2006, Genaro García Luna ocupou a linha de frente como seu secretário de segurança pública desde aquele momento até 2012.

No entanto, promotores dos EUA alegam que o ex-secretário ‘jogava para o outro lado”, aceitando milhões de dólares em subornos do Cartel de Sinaloa para, em troca, proteger carregamentos de drogas e afastar a polícia das atividades criminosas do cartel, de acordo com acusação de dezembro de 2019 .

García Luna negou as acusações. No entanto,  em carta do dia 2 de outubro, promotores afirmaram possuir “189.000 páginas de documentos, bem como volumosas comunicações interceptadas”, que sustentam as alegações de que ele “traiu aqueles que jurou proteger” ao trabalhar ao lado de membros do Cartel de Sinaloa para facilitar seu empreendimento criminoso ao longo de quase duas décadas, antes e durante o período em que era o principal chefe de segurança do país.

Após sua prisão, dois oficiais de alta patente que trabalharam sob suas ordens – Luis Cárdenas Palomino e Ramón Pequeño García – também foram indiciados por tráfico de drogas. Promotores afirmam que os três ajudaram o Cartel de Sinaloa a traficar mais de 50 mil quilos de cocaína para os Estados Unidos desde 2001, de acordo com acusação substitutiva de julho de 2020.

García Luna se declarou inocente das acusações criminais, mas pode enfrentar pena máxima de prisão perpétua.

Salvador Cienfuegos Zepeda

Com a militarização da chamada guerra às drogas levada a novos patamares por Calderón, o ex-general Salvador Cienfuegos Zepeda assumiu a luta do governo como secretário de Defesa do México sob a presidência de Enrique Peña Nieto (2012-2018).

Porém, autoridades estadunidenses afirmam que, em vez de trabalhar para derrubar as operações de grupos do crime organizado, Cienfuegos, na verdade, ajudava o chamado “Cartel H-2” – como a polícia nomeou a rede que surgiu da Organização Beltrán Leyva, outrora aliada do Cartel de Sinaloa, que era liderado por Juan Francisco Patrón Sánchez. De acordo com uma acusação de agosto de 2019, o ex-oficial teria inclusive assumido o pseudônimo de “El Padrino” ou “The Godfather” (em referência ao filme O Poderoso Chefão).

Em carta do dia 16 de outubro, promotores alegam que enquanto Cienfuegos atacava organizações rivais, assegurava transporte marítimo para carregamentos de drogas e conectava líderes criminosos a outras autoridades mexicanas corruptas, o grupo dissidente da [Organização] Beltrán Leyva “conduzia sua atividade criminosa no México sem interferência significativa dos militares mexicanos e exportava milhares de quilos de cocaína, heroína, metanfetamina e maconha para os Estados Unidos.”

Interceptações de “milhares” de mensagens enviadas por celulares Blackberry estão entre as evidências que os promotores alegam possuir para sustentar as acusações de que Cienfuegos dava liberdade de ação ao grupo criminoso para operar sem obstruções no México, em troca de dezenas de milhões de dólares em subornos.

Resta ver como procederá seu julgamento, mas Cienfuegos enfrenta pena mínima de 10 anos, com máxima podendo chegar à prisão perpétua.

Jesús Gutiérrez Rebollo

Embora militares raramente, ou nunca, sejam presos e devidamente processados por trabalharem lado a lado com traficantes de drogas, o caso do ex-chefe do combate ao narcotráfico no México, Jesús Gutiérrez Rebollo, foi uma exceção incomum.

Rebollo foi preso em 1997 sob acusações de ter negociado um acordo com o traficante de cocaína mais prolífico do país na época, Amado Carrillo Fuentes, mais conhecido como o “Senhor dos Céus”, para que este pudesse operar livremente, em troca de robustos subornos. 

O ex-chefe da agência federal antidrogas do país – e uma das primeiras autoridades mexicanas de alto escalão a ser presa por associação com traficantes de drogas – acabou sendo condenado e sentenciado a 40 anos de prisão por tráfico de drogas, corrupção e outras acusações. Rebollo morreu em 2013, em um hospital militar na Cidade do México.

Juan Carlos Bonilla Valladares

Nem mesmo as acusações de que fazia parte de um esquadrão da morte responsável pelo desaparecimento e execução de membros das infames gangues de rua de Honduras puderam impedir Juan Carlos Bonilla Valladares, também conhecido como “El Tigre”, de se tornar chefe da polícia do país em 2012.

Ele foi rapidamente afastado do cargo em 2013 e, em abril de 2020, promotores dos EUA acusaram Bonilla de abusar dos cargos de alto escalão que ocupou na polícia hondurenha entre 2003 e 2018 para “desrespeitar a lei e desempenhar um papel fundamental em uma violenta conspiração internacional de tráfico de drogas”, segundo denúncia criminal.

Bonilla teria protegido cargas de cocaína em nome do presidente Juan Orlando Hernández e seu irmão, Tony, um ex-congressista que foi condenado por tráfico de drogas em outubro de 2019. Em essência, Tony usou a ascensão política de seu irmão, enquanto contava com oficiais de segurança supostamente corruptos, como Bonilla, para dirigir uma quadrilha internacional de tráfico de cocaína por mais de uma década.

Promotores alegam que, por meio da garantia de que a Polícia Nacional não interceptaria veículos cheios de cocaína e do fornecimento de informações confidenciais sobre as operações aéreas e marítimas da polícia, Bonilla se tornou tão “altamente confiável” que o presidente Hernández e seu irmão Tony também lhe deram “atribuições especiais,incluindo assassinatos. ”

Bonilla ainda não foi preso e negou categoricamente as acusações.

Mauricio López Bonilla

Durante a gestão do ex-presidente da Guatemala, Otto Pérez Molina (2012-2015), Mauricio López Bonilla acumulou poder considerável como ministro do Interior. Ele se tornou uma grande figura com a qual o governo dos Estados Unidos freqüentemente contava para liderar a sua “guerra às drogas” na região.

No entanto, em fevereiro de 2017 – quando López Bonilla já estava sob investigação por corrupção e lavagem de dinheiro na Guatemala – autoridades dos EUA acabaram por indiciar o veterano de guerra e ex-chefe da força policial do país, por tráfico de cocaína para os Estados Unidos entre 2010 e 2015, de acordo com a acusação.  

A mídia local El Periódico informou que, de acordo com documentos enviados como parte do pedido de extradição feito pelas autoridades estadunidenses às suas contrapartes na Guatemala, López Bonilla teria “ordenado que oficiais da Polícia Nacional escoltassem carregamentos de cocaína e realocado funcionários da instituição, a pedido de organizações do narcotráfico, em troca de subornos. ”

Um ano antes, em 2016, o InSight Crime publicou uma investigação que revelou possíveis ligações entre López Bonilla e a notória traficante de drogas Marllory Chacón Rossell, também conhecida como “Rainha do Sul”. Em 2012, o Departamento do Tesouro dos EUA havia também identificado Chacón entre os “mais ativos” lavadores de dinheiro da Guatemala. Posteriormente, ela passou a cooperar com as autoridades em troca de um acordo que lhe conferiu liberdade antecipada da prisão.

Na Guatemala, Chacón teria investido em uma empresa de segurança privada ligada ao ex-ministro em troca de proteção oficial. López Bonilla vem negando acusações de ligação com o tráfico de drogas e ainda não foi extraditado para os Estados Unidos para enfrentar tais acusações.