103 anos após a Revolução Russa: uma contribuição da história

Um novo aniversário do maior feito revolucionário do século XX é a desculpa perfeita para entender a Revolução Russa em termos históricos. Por Juan Manuel Soria | Notas Periodismo Popular - Tradução de Caio Sousa para a Revista Opera com revisão de Rebeca Ávila

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(Foto: Edward Alsworth Ross)

No momento em que ocorreu a revolução, a Rússia era o maior país do mundo, governado pelo monarca Nicolau II, herdeiro de uma dinastia de “czares”, a família Romanov. Tinha uma população heterogênea de quase 180 milhões de habitantes e estava cercada pelos impérios turco, austro-húngaro e japonês. Em termos econômicos, era um país quase feudal, com altíssimos índices de pobreza, uma enorme população camponesa sem terra e altos índices de analfabetismo. No final do século XXI e no início do século XX, o império passou por uma série de transformações.  Começara ali um incipiente processo de industrialização comandada pelo Estado e capitais franceses, com o qual crescerá a estrutura produtiva e comunicacional do país. Em consequência, uma grande classe trabalhadora surgirá nas cidades (submetida a níveis de exploração infrahumanos), além de uma “classe média” liberal.

As ideologias revolucionárias haviam entrado no país em meados do século XIX e estavam organizadas em setores conhecidos como “populistas”, socialistas que pensavam o campesinato como sujeito da revolução. Integradas por jovens intelectuais, viam a necessidade de “ir para o campo”, de se enraizarem nas massas camponesas e nas suas práticas comunais. No entanto, a rejeição do campesinato e a repressão estatal, intensificada após o assassinato do czar Alexandre II por um grupo populista, reduziram suas atividades.

O marxismo começou a entrar no país no final do século XIX e, seguindo a linha articulada por Karl Marx e Friedrich Engels, veria o sujeito revolucionário por excelência no proletariado urbano que começava a emergir . Dos grupos marxistas russos, Vladimir Illich Ulyanov, mais conhecido na posterioridade como Lênin, emergirá como dirigente revolucionário. Sua militância em grupos operários, assim como seu enorme desenvolvimento intelectual, lhe renderam um exílio na Sibéria em 1900 junto com outros líderes revolucionários, com os quais fundou, em 1902, o Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Paralelamente, no mesmo ano, publicou “O que fazer?”, um panfleto fundamental para o seu pensamento, onde afirmou a necessidade de construir um partido de vanguarda revolucionário, composto de “profissionais” para a revolução, com altos níveis de centralidade, verticalismo e coesão ideológica. O POSDR passou por um processo de ruptura interna naqueles anos, em duas linhas distintas: os bolcheviques, liderados por Lênin, que propunham a necessidade de um partido disciplinado e de vanguarda, e os mencheviques, que propunham uma organização menos dura.

II

Em 1904 estourava a guerra da Rússia contra o Japão. Num contexto em que a pobreza crescia e as greves dos setores camponeses e operários aumentavam junto com os trabalhos dos grupos de esquerda, começou a insurreição. A repressão do “domingo sangrento” de 9 de janeiro de 1905, onde uma manifestação pacífica – com grande participação feminina – que fora entregar ao czar uma petição de direitos civis e representação democrática, foi respondida pelo czarismo com balas. Os mortos foram contados aos montes. Uma greve foi declarada em grande parte das cidades e terras foram confiscadas, enquanto alguns revolucionários emigrados (entre os quais estava Lênin) convocavam à revolução armada para acabar com o czarismo. Ao mesmo tempo, estavam nascendo os “sovietes”, conselhos de representantes operários, que aos poucos foram ganhando lugar como espaços de canalização das demandas populares. Ao mesmo tempo, esses conselhos foram se configurando como estruturas de poder paralelas ao Estado. O maior soviete foi o de São Petersburgo.

A insurreição foi derrotada e, para apaziguar a tensão, o czar assinaria a criação da “Duma”, um órgão parlamentar representativo. No entanto, esse órgão terá funções limitadas na prática, enquanto o regime czarista continuaria a exercer uma enorme repressão sobre os setores críticos. Os que participaram dos sovietes foram reprimidos, presos e exilados. Diante dessa concessão, os revolucionários continuaram a debater como fazer a revolução. O setor menchevique considerou que a etapa “democrático-burguesa” ainda não havia sido cumprida. Os bolcheviques, por sua vez, acreditavam que deveriam ser os camponeses e os operários a assumira tarefa de avançar sobre a burguesia e o czarismo.

Em 1914, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a social-democracia organizada na Segunda Internacional dividiu-se em duas posições: de um lado, estavam os que apoiavam a guerra e, de outro, os que a denunciavam como um conflito interimperialista que não tinha nada a ver com os interesses dos trabalhadores. A posição de Lênin e dos bolcheviques em face deste debate será a segunda, enquanto convocavam a derrubar a burguesia e acabar com a guerra.

III

Em 1917, a crise estourou novamente na Rússia. Os problemas políticos e sociais arrastados desde antes do conflito, mas também as dificuldades econômicas e o custo humano para as maiorias no quadro da nova situação internacional, tornaram a situação insustentável. Em 8 de março de 1917, as mulheres russas se reunirão na mobilização pelo Dia da Mulher junto com os trabalhadores e trabalhadoras que protestavam contra as condições de trabalho nas fábricas de Petrogrado. O Estado ordenou a repressão da enorme mobilização, mas os militares não responderam: ao contrário, confraternizaram com ela. A crise estourou e, em poucos dias, o czar Nicolau II abdicou. O Governo Provisório nasceu.

Para alguns setores, isso implicava a revolução burguesa. O Governo Provisório, chefiado por Kerensky, concedeu o direito à liberdade de expressão, participação política, liberdade de associação sindical e assim por diante.  Mas, em termos materiais, a situação dos setores populares seguia em queda livre, sobretudo no contexto de inflação e desabastecimento, somado à recusa em se retirar da Primeira Guerra Mundial. Os nacionalismos tensionavam o Império com a ameaça de desintegração. Enquanto isso, os sovietes estavam ganhando poder e popularidade como ferramenta política e representativa. Os revolucionários exilados, entre os quais se encontrava Lênin, estavam voltando do exterior. Em suas “Teses de abril”, Lênin considerou que era preciso começar a organizar a outra etapa da revolução, comandada pelos bolcheviques e em colaboração com os sovietes de operários, camponeses e soldados.

O setor comandado por Lênin, vale dizer, foi o único que interpretou – nesse contexto – os órgãos do poder popular como atores centrais do processo revolucionário: o slogan “Todo poder aos sovietes!”, empunhado pelos bolcheviques, é um exemplo claro disso. O diálogo do setor de Lênin com os sovietes, somado à proposta de armistício, ganhava apoio entre os setores populares, que eram desafiados por uma campanha constante de agitação. Em junho de 1917, será realizado o Primeiro Congresso Pan-Russo dos Sovietes, dominado por uma maioria menchevique. No entanto, a ala bolchevique afirmou a necessidade de tomar o poder.

A nova ofensiva bélica, lançada em junho pelo Governo Provisório, foi desastrosa, com um enorme número de deserções na frente de batalha. Nas cidades, a tensão social crescia cada vez mais, com a tomada de fábricas pelos setores operários e de terras no campo. Os militares da base naval de Kronstadt se revoltaram diante dos oficiais. O Governo Provisório acusou Lênin por isso, e ele teve de se exilar na Finlândia. Nesse quadro de caos, a Alemanha avançou no território e as frente de batalha se desmancharam. Os setores da direita realizaram uma tentativa de golpe em agosto, liderada pelo general Kornilov, que foi desmantelada pelo esforço conjunto dos bolcheviques e dos sovietes. O bolchevismo cresceu nas cidades e nos setores militares, ao mesmo tempo que aprofundou suas propostas de “paz, terra e pão”, como a estratégia de entrega do poder aos sovietes. Diante da indecisão e da fraqueza das demais forças de esquerda, Lênin e um setor dos bolcheviques vão levantar a necessidade urgente da tomada do poder. Foi formado um Comitê Militar Revolucionário sob a influência do Soviete de Petrogrado, liderado por Trotsky e composto de operários e soldados.

Em 24 de outubro, a ofensiva foi lançada. Os revolucionários assumiram o controle de postos estratégicos militares e de comunicação, e avançaram sobre o Palácio de Inverno, sede do Governo Provisório. Depois de uma resistência débil, Kerensky fugiu. Foi o fim do Governo Provisório. A tomada, ao invés de um ataque massivo (uma relato que se construiu a posteriori), foi um processo de entradagradual, quase sem vítimas. Enquanto isso, o II Congresso Pan-Russo dos Sovietes estava em sessão. Nele, com maioria bolchevique, foi criado um novo governo de “operários e camponeses”, sob o comando do “Conselho dos Comissários do Povo”. Lênin seria o presidente e seria acompanhado por outros revolucionários como Trotsky, Stalin e Lunacharsky. Lendo as condições objetivas, contando com o movimento popular e, também, forçando o rumo dos acontecimentos, triunfava a revolução cujo devir seria fundamental para o século XX

“Eram exatamente 8h40 do dia 26 de outubro de 1917 quando uma estrondosa onda de aplausos anunciou a entrada de Lênin […] Estava de pé, […] recorrendo com os olhos apertados a massa de delegados e esperando, sem perceber a crescente ovação que durou vários minutos. Quando acabou, ele disse de forma breve e simples: ‘Chegou o momento de empreender a construção do socialismo” (John Reed – Dez dias que abalaram o mundo).

IV

A Revolução Russa, posteriormente, teria sua própria evolução histórica até a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1991. A despeito disso – que não poderíamos chegar a relatar em uma única nota -, foi, sem dúvida, a experiência revolucionária mais importante do século XX. Foi a primeira vez na história que as classes populares chegaram ao poder e nele conseguiram permanecer, além de ter sido a primeira experiência de construção de um Estado socialista. Porém, e com base em algumas leituras, é interessante repensar alguns “mitos” construídos a posteriori pela historiografia e, nesse sentido, as contribuições do historiador argentino Ezequiel Adamovsky são fundamentais no momento de tornar mais complexas as visões sobre o processo. 

É preciso entender as revoluções como processos que transbordam e superam as diferenças dos diferentes grupos sociais, e de construção de um “terreno subjetivo compartilhado”. A construção histórica após a revolução a relata como um acontecimento fundamentalmente operário e camponês. No entanto, a pesquisa nos permite matizar essa perspectiva. A contribuição dos artistas, por exemplo, foi essencial para disputar o terreno simbólico (para além das desavenças com os líderes revolucionários, para os quais as experiências de vanguarda pareciam atitudes pequeno-burguesas). 

O papel das mulheres, além de serem as iniciadoras dos movimentos de 1905 e 1917, foi fundamental: seu nível de participação nos partidos socialistas foi de cerca de 15% nos anos anteriores à revolução. Os slogans em relação à igualdade de gênero e a abolição da ordem patriarcal estiveram no processo russo desde o primeiro momento. As ideias de amor livre, a liberdade sexual, bem como a necessidade de repensar a organização familiar, a aprovação do direito ao aborto e ao divórcio, falam de um poderoso movimento feminista, personificado na figura de Alexandra Kollontai. Além disso, foi enorme a quantidade de estudantes e intelectuais que ofereceram seu apoio, organizando seus próprios sovietes. Em síntese, a Revolução Russa foi um momento de ampla participação popular e de agendas práticas diversas.

Outro mito é o das “duas revoluções”, primeiro uma revolução “burguesa” em fevereiro e em outubro outra revolução “operária”. No entanto, uma leitura que integra o que foi afirmado acima, ao mesmo tempo que permite ler o processo de radicalização das massas desde o início do século XX, nos permite afirmar que em 1917 houve uma única revolução que começou em fevereiro e atingiu o seu ponto de máxima radicalidade em outubro. A partir deste momento, os bolcheviques iniciaram um processo de centralização política como resultado da subsequente Guerra Civil (1918-1921) contra o “Exército Branco”, que foi apoiado por potências estrangeiras e resquícios czaristas para acabar com a revolução. Para isso, garantiram o controle de diversos ministérios, ganhando greves e eliminando oponentes do Soviete de Petrogrado e dos Congressos Pan-Russos. Além disso, acabaram com exércitos populares como o de Néstor Makhnó na Ucrânia, de tendência anarquista, que foi fundamental na luta na Guerra Civil entre 1918 e 1921. Também foram reprimidos os soldados da base de Kronstadt, que em 1921 protestaram contra o “autoritarismo bolchevique”. Mais de 2.500 pessoas foram fuziladas pelas forças militares comandadas por Trotsky. A partir de 1921, consolidou-se então uma ditadura do partido, que impôs seus interesses. 

V

Com todas as complexidades que apresenta um processo humano total como uma revolução, 1917 e a Revolução Russa marcaram um antes e um depois na história da humanidade. A enorme energia e criatividade demonstradas pelas massas desde antes da revolução (mas também durante), o sucesso do modelo de organização dos bolcheviques, a capacidade de ler a situação e a aposta arriscada encabeçada por Lênin na busca da construção de um estado socialista nos falam de um processo múltiplo, popular e, fundamentalmente, revolucionário. O mundo nunca mais seria o mesmo. 

As massas oprimidas do mundo veriam na Rússia a possibilidade de um novo mundo. As classes dominantes tremeriam em face do furacão vermelho que parecia soprar com todas as forças da história. Em um novo aniversário da Revolução Russa, nós a lembramos como uma ruptura no continuum histórico, como a construção de outra realidade possível. Parafraseando Ezequiel Adamovsky, “ainda temos muito a aprender com a Revolução Russa […] O itinerário dos diferentes movimentos sociais que a protagonizaram […], suas tentativas e erros ainda têm a capacidade de iluminar caminhos para a emancipação no presente”.