A destruição de universidades nos EUA com cortes orçamentários durante a pandemia

Em universidades nos Estados Unidos, cortes em meio à pandemia causam evasão estudantil e fechamento de departamentos inteiros. Por Gabriel Deslandes | Revista Opera

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(Imagem: Estúdio Gauche)

Demissões de professores e funcionários, atrasos de bolsas estudantis, congelamento de matrículas e até a suspensão das atividades de departamentos inteiros. Esse é o retrato da crise acarretada pela pandemia da Covid-19 sobre as mais de quatro mil universidades dos Estados Unidos. A recessão da economia norte-americana e os efeitos diversos da própria pandemia fizeram com que faculdades de pequeno e grande porte nos EUA, que atendem cerca de 20 milhões de alunos, recorressem a cortes orçamentários profundos. Medidas de austeridade introduzidas pelas universidades, visando fechar um déficit orçamentário cada vez maior, têm prejudicado os corpos docentes e discentes e agravado o endividamento financeiro dessas instituições sem previsão de melhora.

Um levantamento realizado pela jornalista Shawn Hubler em reportagem do The New York Times esmiúça esse cenário de paralisia do ensino superior nos EUA. Correspondente do Times em Sacramento, na Califórnia, Hubler investigou os impactos do novo coronavírus sobre os campi universitários e a produção acadêmica e científico-técnica no país. Ela constatou que, mesmo que muitas faculdades tenham imposto medidas provisórias para economizar dinheiro no começo do ano, “a persistência da crise econômica está cobrando um preço financeiro devastador”.

De acordo com a carta do Conselho Americano de Educação enviada em outubro à Câmara de Representantes e ao Senado dos EUA pedindo ajuda financeira federal, os custos da pandemia para as universidades superaram 120 bilhões de dólares. A previsão inicial das despesas no começo da pandemia era de 46,6 bilhões de dólares e dos custos do recomeço das atividades – presenciais, onlines ou mistas – de 73,8 bilhões de dólares. Essas estimativas se provaram demasiadamente otimistas.

As receitas das universidades diminuíram, enquanto as despesas só aumentaram no decorrer de 2020. Temporadas esportivas foram canceladas, livrarias universitárias fecharam as portas, gastos com alimentação e hospedagem tiveram que ser reembolsados e estudantes passaram a exigir descontos nas mensalidades pelo primeiro semestre praticamente perdido. A carta ressalta que as instituições de ensino superior também não previram o nível dos gastos com medidas de proteção à saúde, como testes e equipamento de proteção.

Casos de coronavírus em faculdades dos EUA desde o começo da pandemia (Fonte: The New York Times)

A crise financeira crescente das universidades norte-americanas antecede a pandemia. Segundo The New York Times, as faculdades dos EUA estão há anos enfrentando o encolhimento de recursos do Estado, a queda no número de matrículas e a inadimplência causada por dívidas estudantis gigantescas em um país em que o acesso ao ensino superior costuma ser pago.

O coronavírus, porém, potencializou esse quadro de forma imprevisível. “Nós estamos administrando agressivamente uma recessão há 12 anos – provavelmente mais de 12 anos”, disse o chanceler do Sistema Estadual de Educação Superior da Pensilvânia (PASSHE), Daniel Greenstein, para seu conselho gestor no momento em que votavam para avançar com uma proposta de fusão de algumas pequenas escolas em duas entidades acadêmicas. Em um estado onde a formação acadêmica já foi considerada fator de mobilidade social nas cidades operárias que concentravam a indústria do carvão, os 14 campi universitários da Pensilvânia perderam cerca de 1/5 de suas matrículas na última década.

Sem dinheiro até para Harvard

A estagnação atingiu todas as instituições de ensino superior sem exceção, inclusive universidades consideradas de elite. Harvard, Princeton e UC Berkeley, por exemplo, pararam temporariamente de receber novos estudantes de doutorado. O pagamento emergencial de auxílio para os atuais doutorandos constrangeu recursos, obrigando à interrupção de dezenas de programas de pós-graduação e provocando o atraso das pesquisas em andamento.

Essas três universidades experimentaram meses consecutivos de cortes, incluindo o adiamento de obras de infraestrutura nos campi, a abolição de programas atléticos e demissão de funcionários administrativos e de refeitórios. O caso de Harvard é ainda mais emblemático na denúncia da gravidade dessa crise. A universidade mais prestigiada do mundo formou oito presidentes norte-americanos, reúne dezenas de laureados pelo Prêmio Nobel e, para receber doações, conta com o maior fundo de dotações entre as instituições de ensino dos EUA – 41,9 bilhões de dólares.

Mesmo assim, Harvard, que teve um superávit de mais de 300 milhões de dólares em 2019, informou um déficit de 10 milhões de dólares para o ano fiscal de 2020. Essa foi apenas a segunda vez que a universidade relatou queda de receita desde a Segunda Guerra Mundial. A situação atípica obrigou a um aperto de cintos, e quase 700 funcionários concordaram em adiantar suas aposentadorias, contratações foram congeladas, e diretores seniores tiveram seus salários cortados.

Ainda em março, a agência de classificação de crédito Moody’s Investors Service rebaixou a perspectiva das instituições de ensino superior de estável para negativa, prevendo que apenas universidades com grandes dotações e fluxos de caixa, como Harvard ou Stanford, sobreviveriam à crise, enquanto outras menores não. No mesmo mês, o Congresso norte-americano aprovou a Lei de Ajuda, Socorro e Segurança Econômica (CARES), o maior pacote econômico já aprovado na história dos EUA, de 2 trilhões de dólares, que garantia 14 bilhões de dólares do Departamento de Educação para o ensino superior. Sancionado pelo presidente Donald Trump, esse plano trilionário incluiu recursos para arcar com custos das aulas remotas e bolsas para estudantes. Dessa verba, 6 bilhões de dólares consistiram em doações emergenciais para estudantes em dificuldades financeiras. O problema é que, segundo o Times, o restante do resgate equivale a somente 1% das despesas totais das universidades.

Para os diretores das faculdades, tal valor não era suficiente para garantir a manutenção de seus programas e quadro de funcionários, provocando o corte de bolsas de estudo ou até mesmo a falência das instituições. A ajuda mínima solicitada por eles no início da pandemia era de US$ 46,6 bilhões, a serem divididos igualmente entre as faculdades e os estudantes. “Os campi estão perdendo somas assombrosas de recursos com o fechamento por motivos de segurança e o reembolso de mensalidades, hospedagem, alimentação e outras receitas auxiliares. Caso essas necessidades não sejam atendidas, os alunos sofrerão financeiramente e podem desistir”, afirmou à época o presidente do Conselho Americano de Educação, Ted Mitchell.

Evasão estudantil dos mais pobres

As preocupações das associações de educação no começo da pandemia rapidamente se confirmaram. As primeiras vítimas da crise econômica na academia foram os estudantes mais pobres. De acordo com uma pesquisa com 292 escolas privadas sem fins lucrativos divulgada pela Associação Nacional de Faculdades e Universidades Independentes, entre 2019 e 2020, houve uma redução de quase 8% nas matrículas entre os alunos que recebem o Pell Grants – subsídio do governo dos EUA para estudantes de renda familiar total inferior a 25 mil dólares por ano.

Para esses estudantes de menor renda, os prejuízos se agravaram com a imposição da austeridade também por governos estaduais, como os de Washington e Connecticut, que avisaram às suas universidades públicas para esperarem cortes acentuados em suas dotações financeiras. Assim, em meio à recessão econômica e a alta do desemprego no país, estudantes e famílias se recusam a pagar a mensalidade integral para terem aulas online. Na Universidade Estadual de Nova Jersey, por exemplo, mais de 30 mil pessoas chegaram a assinar uma petição em julho pedindo a eliminação das taxas e um desconto de 20% nas mensalidades. Quando as alternativas se esgotam, muitos desses estudantes acabam optando, segundo o Times, por passar anos sabáticos em casa ou por faculdades menos caras perto de casa.

“Alguns anos distantes do curso não são necessariamente o fim do mundo e podem até ser uma decisão sábia. Porém, se nossas universidades não permanecerem em contato com esses alunos, se não mantiverem uma conexão com eles e não os encorajarem a continuar pensando na pós-graduação, poderíamos ter nossa própria geração perdida de estudantes que se ocupam com outras coisas e não realizam seus sonhos”, frisou a presidente do Conselho de Escolas de Pós-Graduação, Suzanne T. Ortega, para o jornal nova-iorquino.

A crise vem impactando não só os atuais estudantes, mas o próprio ingresso à universidade. Dados do National Student Clearinghouse Research Center do mês de outubro mostram que as matrículas de calouros caíram mais de 13% em comparação ao mesmo período em 2019. Segundo o instituto, as faculdades comunitárias apresentam uma queda mais acentuada (-18,9%) – quase 19 vezes a taxa de perdas pré-pandemia – seguidas por faculdades públicas de cursos de quatro anos (-10,5%) e entidades privadas sem fins lucrativos (-8,5%).

Departamentos de Ciências Humanas fecham as portas

Para remediar uma falta de recursos sem precedentes, a austeridade tem levado as instituições de ensino superior a medidas drásticas, como a fusão de departamentos ou simplesmente a sua suspensão completa, sem previsão de volta. É o caso da Universidade do Sul da Flórida, em Tampa, que anunciou que transformará sua faculdade de educação – que conta com quase 2.400 alunos – em apenas uma escola de pós-graduação, visando economizar 6,8 milhões de dólares em dois anos. A universidade pretende cortar, ao todo, 36,7 milhões de dólares em nove meses.

Em Ohio, a Universidade de Wesleyan, em Delaware, anunciou que eliminará 18 cursos de graduação a partir de dezembro, incluindo Jornalismo, Literatura Comparada, Estudos Urbanos, Dança, Alemão, Geologia e Promoção da Saúde. A medida busca economizar cerca de 4 milhões de dólares no caixa da universidade, que já previa um déficit de 7,5 milhões de dólares para o ano letivo de 2020-2021. O presidente da entidade, Rock Jones, avisou a seus alunos em um e-mail recente que juntaria Religião e Filosofia em um departamento e uniria Estudos Negros e Femininos em um único programa de “Estudos Críticos de Identidade”.

Até unificações de universidades inteiras têm sido cogitadas em alguns estados. O Sistema Estadual de Educação Superior da Pensilvânia (PASSHE) propôs a integração de três universidades – Clarion, Califórnia e Edinboro – em uma única administração, operando com um orçamento anual compartilhado a partir de abril de 2021. Outra fusão sugerida no estado foi das universidades Bloomsburg, Lock Haven e Mansfield, focada em cursos para capacitação ao mercado de trabalho do norte da Pensilvânia.

De acordo com o banco de dados da The Chronicle of Higher Education, mais de 50 programas de doutorado em Ciências Humanas e Sociais foram cancelados nos EUA. O Departamento de Sociologia da Universidade de Princeton foi um dos primeiros a anunciar a decisão de paralisar novas matrículas. A Escola de Artes e Ciências da Universidade da Pensilvânia também interromperá as admissões de novos doutorandos financiados pela instituição para o ano acadêmico de 2021-2022. A Escola de Humanidades da Universidade Rice, em Houston, no Texas, suspenderá as admissões para todos os seus cinco programas de pós-graduação por um ano.

Segundo o Times, a maioria das suspensões ocorre em programas de Ciências Sociais e Humanidades, onde, em geral, são as próprias universidades que financiam pacotes plurianuais de ajuda financeira aos doutorandos, e não financiadores externos como fundações e corporações. Os gestores dessas universidades afirmam que essas interrupções são necessárias para assegurar que seus orçamentos limitados possam manter o apoio aos atuais estudantes.

Crise de costa à costa dos EUA

Se a suspensão de cursos não bastar para a redução de custos, a saída encontrada tem sido o corte pesado na folha de pagamentos e a diminuição no quadro de funcionários. A Secretaria de Estatísticas Trabalhistas dos EUA informa que, entre fevereiro e outubro de 2020, as faculdades norte-americanas eliminaram mais de 300 mil postos de trabalho, sendo a maioria de não-docentes. “Algumas dessas instituições refizeram seus orçamentos três, quatro, cinco vezes. À medida que o próximo capítulo se desenrola, o que sobra é apenas o gasto com pessoal”, disse ao Times o vice-presidente de uma consultoria de negócios para faculdades e universidades, Jim Hundrieser.

Na Ithaca College, em Nova York, foram cortados 131 empregos em tempo integral no corpo docente. A reitora da faculdade, La Jerne T. Cornish, acrescentou que ofereceu aposentadoria antecipada a 30 docentes como forma de resolver um déficit de 8 milhões de dólares. Aposentadorias adiantadas também foram a alternativa recorrida pela Universidade de Seton Hall, em Nova Jersey, para tentar equilibrar suas contas. O corpo docente fez uma revisão nos planos de gestão para encorajar profissionais da instituição a se aposentarem mais cedo, trocarem de departamentos ou assumirem funções só administrativas.

Para o professor associado Robert Kelchen, também da Universidade de Seton Hall, o coronavírus penetrou no núcleo da máquina acadêmica do país, e seus danos provavelmente serão duradouros. De fato, um dos custos das universidades dos EUA foi com a prevenção de novos surtos da Covid-19. As faculdades gastaram milhões de dólares em testes, rastreamento de casos e quarentena de alunos. O banco de dados do próprio The New York Times aponta mais de 252 mil infectados nos campi de mais de 1.700 instituições de ensino superior, resultando em 80 óbitos.

Com mais de 11 milhões de norte-americanos infectados pelo coronavírus, não há sinal de arrefecimento da pandemia nos EUA, e a gravidade da crise econômica, social e sanitária continuará a arrastar gestores, funcionários, professores e estudantes das universidades norte-americanas. A política de cortes orçamentários, portanto, não cessará tão cedo. As consequências dessa conjuntura para o ensino superior no país explicam a aflição do professor Kelchen, expressa ao ser entrevistado pela reportagem do Times, servindo de aviso para o que vem pela frente: “Faz uma geração que não vemos uma crise orçamentária como essa. Esses cortes vão continuar muito além da pandemia”.