Reveses da guerra comercial: EUA permitem vendas à Huawei não-relacionadas ao 5G

Com dependência na produção chinesa por parte de empresas norte-americanas, EUA abre brechas comerciais à Huawei em meio à sua guerra comercial. Por Gabriel Deslandes | Revista Opera

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(Foto: Matti Blume)

Na longa guerra comercial entre Estados Unidos e China, a Huawei parece estar vencendo uma batalha crucial para sua própria sobrevivência. Um dos pivôs da disputa política, econômica e tecnológica entre as duas potências, a gigante de telefonia chinesa tem sido beneficiada por um relaxamento das sanções aplicadas pelo governo norte-americano contra alguns de seus principais fornecedores. O Departamento de Comércio dos EUA vem autorizando um número crescente de companhias a voltarem a fazer negócios com a Huawei, desde que respeitem uma única condição: seus produtos vendidos não poderão ser usados como componentes para redes 5G.

Principal grupo de tecnologia da China e também maior fabricante de equipamentos de telecomunicações do mundo, a Huawei Technologies aparenta experimentar nos últimos meses um alívio na pressão imposta pelos EUA para prejudicar as cadeias produtivas chinesas. Essa é a constatação do jornal econômico britânico Financial Times, que publicou uma matéria especial destacando que as sanções norte-americanas podem ser para a Huawei “menos ameaçadoras aos seus negócios em geral do que se pensava antes”. Segundo a matéria, redigida pelos correspondentes internacionais Kathrin Hille (Taipé), Edward White (Wellington) e Kana Inagaki (Tóquio), a gigante chinesa tem encontrado caminhos para se recuperar das restrições desferidas pelo governo Trump.

Fontes ouvidas pelo Financial Times no meio empresarial enfatizam o quanto a utilidade de uma peça para a rede 5G tem sido o fator decisivo para que os EUA permitam ou não qualquer venda à companhia chinesa. De acordo com um alto executivo do ramo de semicondutores, o Departamento de Comércio dos EUA “tem dito às empresas em conversas recentes que, embora as licenças para fornecimento à Huawei estejam sendo negadas, isso pode ser superado se você puder demonstrar que sua tecnologia não suporta 5G”. Já executivos de duas fabricantes asiáticas de semicondutores disseram ao jornal britânico que estão otimistas com a perspectiva de retomarem o embarque de produtos para gigante chinesa: “Fomos comunicados de que chips para dispositivos móveis não são um problema”.

A escalada contra a Huawei

Considerada por Washington uma “ameaça à segurança nacional”, em maio de 2019, a Casa Branca incluiu a Huawei e 70 filiadas na chamada “lista de entidades”, impedindo a titã chinesa de comprar peças e componentes de fornecedores norte-americanos sem aval do Departamento de Comércio. À época, o secretário americano de Comércio, Wilbur Ross, afirmou que o presidente Donald Trump apoiou a medida para impedir que “tecnologia norte-americana seja usada por empresas estrangeiras de forma a prejudicar a segurança nacional dos EUA ou interesses da política externa”.

Na mesma ocasião, Trump também assinou uma ordem executiva que autoriza ao Departamento de Comércio proibir equipamentos e serviços de redes de telecomunicações provindas de países considerados “adversários estrangeiros”. Ainda que o pedido não especificasse a China, essa medida possibilitaria um banimento total de produtos fabricados pela Huawei ou por outra titã chinesa das telecomunicações, a ZTE. Ao mesmo tempo, Trump seguia pressionando agressivamente outros países para que não utilizassem dispositivos da Huawei em suas redes 5G.

Em maio de 2020, o presidente norte-americano estendeu por mais um ano essa ordem executiva, impedindo empresas de seu país de usarem equipamentos de telecomunicações de companhias consideradas como risco à segurança nacional. Foi sob essa política que as titãs chinesas de inteligência artificial Sensetime e iFlyTek, as empresas de reconhecimento facial Megvii e Yitu, as fornecedoras das câmeras de vigilância Dahua Technology e HikVision e a fabricante de supercomputadores Sugon foram colocadas na “lista de entidades”.

O Departamento de Comércio também estabeleceu normas de exportação de alcance global, proibindo fabricantes de semicondutores de qualquer país que usam tecnologias e softwares de origem norte-americana de venderem seus produtos à Huawei sem permissão prévia do governo dos EUA. O objetivo do governo Trump era “atingir estrategicamente a aquisição de semicondutores pela Huawei”, o que impactou, em particular, a taiwanesa TSMC, uma das firmas responsáveis pela fundição de chips para as principais cadeias de suprimentos globais. A partir dessa regra, o governo dos EUA poderia até aprovar licenças para peças de uso final em smartphones, mas a mesma solicitação seria recusada para chips destinados a redes 5G ou sistemas de vigilância baseados em inteligência artificial.

O cerco à Huawei e às empresas de tecnologia chinesas alcançou novos patamares em agosto de 2020 com a apresentação pelo Departamento de Estado da iniciativa Rede Limpa, programa que busca limpar a Internet da “influência nefasta” do Partido Comunista Chinês. Sob o pretexto de “proteger a privacidade dos cidadãos e as informações mais confidenciais das empresas”, o programa visa impedir a participação da China em projetos de infraestrutura da 5G. Dias após o lançamento da Rede Limpa, a Casa Branca endureceu as restrições à Huawei para privar ainda mais a companhia do acesso a softwares ou equipamentos de fabricação norte-americana. Dado o domínio tecnológico dos EUA na indústria global de semicondutores, suas sanções têm potencial para interromper a produção da Huawei.

Washington começa a ceder

Mesmo com a Huawei colocada na “lista de entidades”, a Casa Branca parece mais disposta a liberar a venda de componentes não-relacionados ao 5G para gigante chinesa. De acordo com o Financial Times, mais de 300 empresas solicitaram licenças para continuar a fazer negócios com a Huawei, das quais cerca de 1/3 tiveram sua permissão aceita.

Esse foi o caso, primeiro, da fabricante de circuitos integrados AMD, que, em setembro de 2020, anunciou ter obtido uma licença para retomar seu comércio com a Huawei. O vice-presidente sênior da empresa, Forrest Norrod, fez o anúncio da autorização concedida dias depois de 15 de setembro, data-limite estabelecida pelo Departamento de Comércio dos EUA para que fornecedores em todo o mundo interrompessem o envio à Huawei de produtos contendo tecnologia de origem norte-americana. O executivo acredita que a AMD “deve ser capaz de continuar a abastecer” todos os seus clientes, o que inclui a Huawei.

Uma das possíveis razões para essa concessão é o lobby feito por grandes empresas de microeletrônica junto ao governo dos EUA para que reconsidere algumas das restrições impostas contra Huawei, sob a alegação de que essas medidas as afetam, tanto em termos de inovação, quanto financeiros. A mesma história se repetiu com a Intel, que também conseguiu uma licença de fornecimento de chips para notebooks e servidores. Segundo o Financial Times, a Intel continua a vender à Huawei processadores para computação em nuvem, isto é, armazenamento de dados via acesso remoto.

O jornal britânico informa que a gigante chinesa tem concentrado seus negócios no ramo de computação em nuvem como forma de superar as sanções dos EUA. Esse movimento foi fundamental para a Huawei se estabilizar em seu mercado doméstico, já que Pequim tem dado cada vez mais suporte à empresa por meio de contratos públicos para serviços de computação em nuvem. Foi para atender a esses investimentos que a Huawei continuou contando com os componentes fabricados pela Intel disponíveis no mercado, como CPUs. “A Intel tem sido a fornecedora da principal CPU para os servidores Huawei, pois garantiu uma licença no ano passado, permitindo continuar a vender para a empresa”, confidenciou ao Financial Times um executivo da Intel.

Não só companhias norte-americanas estão sendo favorecidas por esse relaxamento nas sanções. A concessão de licenças do Departamento de Comércio beneficiou a sul-coreana Samsung, que, no final de outubro, comunicou ter recebido autorização especial dos EUA para fornecer diodos emissores de luz orgânicos – também conhecidos como telas OLED –, que servem de painéis para os smartphones da linha premium da Huawei. A Samsung é a primeira empresa asiática a receber luz verde de Washington para voltar a comercializar com a Huawei, embora não tenha obtido aval da Casa Branca para vender chips à companhia chinesa.

Na mesma semana de outubro, foi a vez da japonesa Sony e da chinesa OmniVision, com sede na Califórnia, receberem suas licenças do governo norte-americano. A Sony é fornecedora exclusiva dos chips sensores de imagem CMOS para a Huawei – componentes que fazem com que a gigante chinesa produza câmeras de smartphones que competem mundialmente com o iPhone. Já a OmniVision, subsidiária da Will Semiconductor de Xangai, é fornecedora da Apple, Xiaomi e Oppo e a terceira maior fabricante do sensor de imagem CMOS, atrás apenas da Sony e da Samsung.

Conforme atesta a matéria do Financial Times, a Sony chegou a cortar em 38% sua orientação de lucro para o ano inteiro para seu negócio de sensores de imagem, após suas vendas para a Huawei terem sido interrompidas em 15 de setembro. “Acreditamos que essa é uma forte indicação de que os EUA pretendem permitir que a Huawei continue no negócio de celulares, já que, como argumentamos, isso não representa uma ameaça óbvia à segurança nacional norte-americana”, acrescentou para o jornal britânico o analista Edison Lee, do banco de investimentos Jefferies Group.

Resposta chinesa

O afrouxamento das sanções pelo Departamento do Comércio dos EUA fez a matéria do Financial Times repercutir dentro da China. O Global Times, veículo oficial do Partido Comunista Chinês, lançou um artigo comentando as licenças noticiadas pelo jornal britânico.

Questionado pelo Global Times sobre o assunto, Ma Jihua, analista da segunda maior fabricante de semicondutores da Coreia do Sul, SK Hynix, acredita que esse movimento por parte dos EUA está associado a uma tentativa da campanha eleitoral de Trump de “querer agradar a todos”: “O aparente afrouxamento das restrições não é voltado para a Huawei, mas para as empresas ao longo de toda a cadeia industrial, já que, graças ao banimento imprudente praticado pelo governo dos EUA, elas podem sofrer tanto quanto a Huawei”, ponderou Ma.

O Global Times ressalta também que a guerra comercial lançada pelos EUA contra a China busca assegurar o domínio tecnológico dos norte-americanos na área da microeletrônica. “Os EUA pretendem restringir e conter o crescimento da indústria chinesa de fabricação de chips, em vez de visar qualquer empresa chinesa em particular, pois esse produto de alto valor agregado é o setor mais lucrativo para as empresas de tecnologia norte-americanas, e o setor de microchips é também a base da economia dos EUA”, disse o diretor-geral da associação da indústria de telecomunicações Information Consumption Alliance, Xiang Ligang.

Por outro lado, a recente distensão nessa disputa política e tecnológica pode ter relação com a dependência que as grandes fabricantes de chips norte-americanas têm em relação ao mercado chinês. Em 2019, a China foi o destino direto de 8,8 bilhões de dólares de um total de 46 bilhões de dólares em exportações de chips dos EUA. Ao mesmo tempo, segundo o Asia Times, as fabricantes de equipamentos de chips norte-americanas exportam cerca de 90% de sua produção, com a grande maioria indo para o Leste Asiático, incluindo 3,6 bilhões para a China. “Dada a dependência do mercado chinês pelas empresas norte-americanas, é só uma questão de tempo até que os EUA autorizem a Qualcomm e outras firmas dos EUA a continuarem vendendo para a Huawei”, salientou Xiang.

Nesse contexto, o Financial Times aponta que o governo dos EUA pode estar interessado em permitir que o negócio de smartphones da Huawei sobreviva. De acordo com o jornal britânico, é provável que ainda em 2020 a fabricante de processadores taiwanesa MediaTek receba sua licença para reiniciar suas vendas de chips para a gigante chinesa. Apesar desse quadro otimista, outros analistas alertam que a pressão à Huawei independe do que o Financial Times chama de “decisões políticas erráticas da administração Trump” e deve continuar no governo Biden. “É improvável que a Huawei seja liberada da lista de entidades dos EUA e, enquanto houver disputa econômica entre a China e os EUA, a Huawei terá que confiar em si mesma para se desenvolver”, frisou Ma Jihua.