Como velamos o Deus plebeu? 

Maradona nasceu na pobreza, que marcou a sua infância em Villa Fiorito, e chegou ao lugar mais alto que poderia chegar. Por Jesús Antuña | Revista Opera

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(Foto: indigoMood)

Tenho a hipótese de que tudo começou com o Diego, de que não há nada antes dele, de que o mundo foi criado por Maradona. Como se de um anacronismo se tratasse, posso imaginar Maradona na Revolução de Maio, durante as invasões inglesas, nas batalhas dos federais contra os unitários. Onde se reivindica uma causa justa está Maradona, não importará nunca o ano e a época que seja. Maradona é o sonho eterno, aquilo que não chegamos nem sequer a imaginar. 

Sua figura reatualiza um problema epistemológico que filósofos e teólogos medievais tentaram desvendar durante séculos: como pensar racionalmente um objeto inabarcável? Todo pensamento racional implica um limite, um cerceamento das potências criativas, mas é impossível pôr um limite a Maradona. Por sorte, talvez, os teólogos medievais não tiveram que enfrentar a morte do seu Deus; não me refiro à morte teórica, filosófica, mas à morte real, física. E não o fizeram porque talvez esta tenha sido a segunda vez que um deus desce à terra.

Que algo fique claro desde o princípio: nós não pedimos Maradona. Não o fizemos porque não tivemos nem teremos nunca a capacidade para imaginá-lo. Um dia ele veio a nós como presente e nós o coroamos como um deus imperfeito, e nem Diego nem nós soubemos como processar isto. Não há corpo que resista por tanto tempo à atribuição de ser Deus. Maradona carregou esse fardo à sua maneira durante muito tempo, mais do que qualquer outro teria suportado. Tudo nele era transbordamento, excesso, proliferação de sentido e contradição. Criação do barroco rioplatense, seu corpo, moldado em barro, foi um fluxo que deu trânsito ao povo. 

Nasceu na pobreza, que marcou a sua infância em Villa Fiorito, um dos tantos lugares esquecidos de Buenos Aires, e chegou ao lugar mais alto que poderia chegar. Foi o melhor de todos. Os milhares de pobres que se despedem do seu ídolo entre lágrimas têm a mesma cara do seu Deus. Diego não os traiu nem nisso. O Deus do povo argentino tem cara de pobre, e talvez seja por isso que tantos o odeiam. Morreu aquele que nos fez sonhar, que nos fez querer ser como ele, aquele que nos ensinou que tudo era possível. Crescemos levando a bola para as nossas camas ao dormir porque sabíamos que Maradona fazia isso, tratou com doçura e delicadeza o seu objeto de desejo, nada mais que uma bola, e nos ensinou que essa era a forma de trabalhar com os nossos sonhos. E foi assim que todos nós fizemos, ou quase todos, em cada canto do país. Nas cidades, no campo, nos pequenos povoados. No mar, na planície ou na montanha, onde houvesse uma bola, alguém sonhava em ser Maradona. E Diego, então, permitia que todos fossem, ou pelo menos tentassem, porque nenhum de nós conseguia ser como ele. Talvez essa tenha sido uma forma de diminuir o peso do fardo, o fardo de ser Deus, pelo que o distribuiu entre todos. Foi solidário com qualquer um que quisesse ser Maradona por um instante, das crianças aos idosos. Emprestou o seu sonho até àqueles que não têm pernas. 

Se Maradona já era grande, torna-se mito no mundial do México ‘86. Esse mundial que pode explicar boa parte da história recente da Argentina. Conduz ao campeonato um time sem muitas pretensões e realiza o seu sonho de ser campeão do mundo. Mas ainda que tivesse perdido a final contra a Alemanha, o passo à imortalidade já tinha sido dado antes, nas quartas de final, quando ele teve que enfrentar a Inglaterra. Naquele dia Maradona escreve um segundo capítulo da Guerra das Malvinas. Haviam passado apenas quatro anos desde a guerra, mas Maradona joga sua partida como se ela não tivesse terminado. Primeiro faz um gol com a mão, nossa trapaça mais amada, que enfurecerá durante décadas – e talvez séculos – o moralismo inglês. Os ingleses exigiram um pedido de desculpas até o fim, que Diego nunca concedeu porque não há nenhuma falta no gol e, de qualquer forma, se há algo naquele salto é rebeldia, igualdade na hora de disputar uma bola contra um goleiro gigante que tem todas as probabilidades de ganhar.

Talvez aquele gol fosse suficiente, mas, como disse, Maradona é barroco. E então decide que falta algo mais naquela obra de arte que está realizando, que, embora para a grande maioria já estivesse finalizada, concluída, ainda faltava mais para que fosse perfeita. E então, uns poucos minutos depois de fazer o gol com a mão, Maradona arranca do meio do campo para ultrapassar todos os rivais, os ingleses que o perseguiam estupidamente porque ele estava em outro plano; porque, mais do que correr, o que ele fazia era voar, e então fez o gol das nossas vidas, o melhor de todos, o mais lindo e lembrado, esse gol que nunca nos cansaremos de ver.    

Sua transcendência vai além do mundo do futebol. Era capaz de ganhar uma guerra, de enfrentar os poderosos, de denunciar a fome do país, do continente, apenas jogando bola. Diego colocava a camisa dez, que ficava tão bem nele, e era como se o continente inteiro pegasse em armas. Uma vez disse que tudo nele era de esquerda. Amigo de Fidel Castro, tratou Vladímir Putin como se fosse um cara qualquer do bairro, e parece impossível separar sua história de ascensão social do peronismo. Daí também a sua proximidade com Néstor Kirchner e Cristina Fernández de Kirchner. Entre as milhares de anedotas que se contam sobre ele, existe uma que diz que em Nápoles, onde Diego é tão grande como na Argentina, dois garotos jogam futebol numa prisão abandonada onde há um mural com imagens de Maradona e de Che Guevara. Então, um dos garotos pergunta quem era essa pessoa que se encontrava pintada nas paredes. “É o Diego”, disseram, “e o outro é a tatuagem do Diego”. 

Maradona foi tudo isso. E agora somos milhões que acordamos órfãos. Não o conhecemos pessoalmente, mas sentimos como se houvesse morrido um familiar próximo, talvez nosso pai ou nossa mãe. Entramos em luto e continuaremos a chorar por ele durante dias inteiros, talvez durante meses, cada vez que vejamos um vídeo ou uma imagem. Em um nível coletivo, estamos começando a experimentar o maior luto dos últimos cinquenta anos, e como em todo luto, nos recusamos a nos separar do objeto amado. Aqui, a morte de Maradona é a mais significativa, até agora, no século XXI. Sua partida física só é comparável ao que o país viveu nos falecimentos de Perón e Evita. Está, por isso mesmo, entre as três mais importantes da história do país. E o povo saiu para despedir-se, como ele provavelmente gostaria. As ruas foram tomadas poucas horas depois do anúncio da triste notícia, e o povo se reuniu no Obelisco, no centro de Buenos Aires, para lhe oferecer uma despedida popular, futeboleira, com tambores e trompetes. Jogando bola.

E como todo Diego é político, a resposta por parte do Governo Nacional e da Cidade de Buenos Aires foi a repressão policial. A milhares de pessoas foi negada a possibilidade de se despedir do nosso ídolo, reprimiram um velório e isso é imperdoável. Em meio ao choro, tivemos que correr de balas de borracha que não distinguiam homens, mulheres, crianças ou idosos. Não quero me prender muito a esse momento que entristece ainda mais a jornada, apenas mencioná-lo rapidamente, porque aqueles que ordenaram a repressão não merecem ter lugar neste espaço. 

A despedida deveria ter durado dias, mas por pedido expresso da família durou apenas dez horas. O povo reunido nos arredores da Praça de Maio reclamou o direito de se despedir do seu ídolo, mas o Governo Nacional de Alberto Fernández e o Chefe de Governo da Cidade de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, concordaram em reprimir o que até então era uma festa popular. Assim terminou a festa popular, fúnebre, que deveria ser a maior do século XXI na Argentina. Isso também ficará guardado na nossa memória. 

O povo não esquece quem não o trai. Diego se foi, seu corpo disse basta, e agora temos um vazio imenso impossível de preencher. Tudo começou com ele: nos ensinou a sonhar, a lutar e a jogar. Viveu à sua maneira e como pôde. É por isso que nunca iremos esquecê-lo.