Novos dados chocantes mostram como os EUA estão abastecendo a violência no Iêmen

Apesar de se apresentar como uma força do bem e da paz no Oriente Médio, os EUA seguem abastecendo o desvario da guerra no Iêmen. Por Alan Macleod | Mintpress News - Tradução de Caio Sousa para a Revista Opera, com revisão de Rebeca Ávila

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Apesar de se apresentar como uma força do bem e da paz no Oriente Médio, os Estados Unidos da América vendem ao menos cinco vezes  mais armamento para a Arábia Saudita do que doam em auxílio humanitário para o Iêmen. O Departamento de Estado constantemente se retrata como uma superpotência humanitária que tem como objetivo principal o bem-estar da nação iemenita, no entanto, dados divulgados pelas Nações Unidas e pelo Instituto Internacional para a Paz de Estocolmo (SIPRI) mostram que, desde o início da guerra no Iêmen, o governo dos EUA deu 2,56 bilhões de dólares em ajuda ao país, mas vendeu mais de 13 bilhões em armas de alta tecnologia para a Arábia Saudita, líder da coalizão que promove um ataque implacável contra o país.

Números como esses são sempre discutíveis. O que constitui “ajuda” legítima é uma pergunta que cada um responderia de forma diferente. Além disso, o valor de 13 bilhões de dólares não inclui o enorme acordo de armas que a Arábia Saudita assinou com Donald Trump em 2017, que supostamente verá o Reino comprar 350 bilhões de dólares em armas em dez anos.

O SIPRI é cético quanto a estes números, mas se eles se provarem corretos, assim que os pedidos começarem a chegar, eles farão com que as insignificantes doações para ajuda humanitária pareçam uma pequena mudança, comparativamente. As vendas incluem todo tipo de equipamento militar, de sistemas de radar e transporte a jatos de combate F-15, mísseis TOW, tanques Abrams e obuses modelo Paladin.

Enquanto os sauditas pagam em petrodólares, os iemenitas pagam com sangue. Há quatro anos, a Força Aérea Saudita bombardeou um grande funeral público em Sanaa, capital do Iêmen. Era um dia claro e radiante. Os sauditas usaram um ataque aéreo de “tiro duplo” para garantir carnificina máxima. 240 pessoas foram mortas e, como no ataque saudita de 2018 a um ônibus escolar que matou 40 crianças, as bombas MK 82 que causaram os danos pesavam 227 quilos, e foram construídas e fornecidas pela Lockheed Martin, a maior empreiteira de armas da América.

“Ganhar bilhões com as exportações de armas que alimentam o conflito e, ao mesmo tempo, fornecer uma pequena fração disso em ajuda ao Iêmen é imoral e incoerente. As nações mais ricas do mundo não podem colocar seus lucros acima do povo iemenita”, disse Muhsin Siddiquey, diretor da Oxfam para o Iêmen.

Sendo a nação mais pobre da região, o Iêmen foi totalmente devastado pelo conflito de seis anos. As Nações Unidas estimam que 14 milhões de pessoas – mais da metade da população do país – correm o risco de passar fome e que  20,5 milhões precisam de ajuda para ter acesso a água potável. Calcula-se que 80% da população precisa de alguma forma de assistência humanitária. A coalizão liderada pelos sauditas, que inclui Emirados Árabes Unidos, Catar e Bahrein, atacou deliberadamente alvos fáceis, como hospitais e instalações de água, realizando o equivalente a um ataque a tais edifícios a cada dez dias desde o início dos combates.

“O fato de que as Nações Unidas – diante de uma enorme devastação humana, ambiental e migratória ao redor do mundo –  declararam há vários anos que o Iêmen é a pior crise humanitária do mundo diz tudo. Essa guerra devastou aquele que já era o país mais pobre do mundo árabe. Não só o bombardeio direto – de funerais, de casamentos -, mas o bloqueio e bombardeio dos portos. O Iêmen é um país muito dependente de alimentos importados, remédios básicos, tudo. Assim, quando os portos são fechados, as pessoas chegam à inanição muito rapidamente”, disse Phyllis Bennis, diretora do Projeto Novo Internacionalismo no Instituto de Estudos de Política e especialista em Oriente Médio, ao MintPress.

Além de fornecer as armas, os EUA (e muitos de seus aliados europeus) treinam as forças sauditas, forneceram infraestrutura militar crítica e apoio logístico e até reabasteceram bombardeiros sauditas no ar, fornecendo orientação em apoio às forças sauditas, para encontrarem seus alvos mais eficientemente. Além disso, os EUA protegeram Riad da censura internacional, defendendo-a em órgãos como as Nações Unidas. Em essência, os EUA estão envolvidos em todas as áreas do conflito no Iêmen, fazendo de tudo para puxar o gatilho.

“Os EUA devem encerrar seu apoio à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos e, em vez disso, priorizar as pessoas em todo o Iêmen que lutam para sobreviver”, disse Scott Paul, líder de política humanitária da Oxfam América, em um comunicado ao MintPress. “Os EUA interromperam grande parte de sua ajuda aos iemenitas mais vulneráveis, enquanto continuam a fornecer armas que alimentam o conflito mortal. O Congresso e o povo norte-americano deixaram claro que não querem participar nisso. Continuamos a pedir aos EUA, à comunidade internacional e a todas as partes no conflito que pressionem pela paz, e faremos com que o próximo governo Biden cumpra o compromisso de fazer a sua parte”.

Os Estados Unidos têm uma longa história de maltratos ao Iêmen. Em 1990, a administração de George H.W. Bush queria um acordo unânime das Nações Unidas para validar seu ataque ao Iraque. O Iêmen, recém-nomeado para o Conselho de Segurança, recusou-se a aceitar a resolução (assim como Cuba). “Poucos minutos após o voto contra o plano dos EUA, ouviu-se um diplomata americano sênior dizer ao representante do Iêmen, em uma falha técnica que deixou o seu microfone aberto: “Esse foi o voto ‘não’ mais caro que você já deu”. Em poucas horas, toda a ajuda dos EUA ao país (um programa de 70 milhões de dólares) foi interrompida. 800.000 trabalhadores iemenitas foram expulsos da Arábia Saudita, e o país teve dificuldade em obter empréstimos com instituições financeiras internacionais. Assim, como disse Bennis, “a recusa dos EUA em levar o Iêmen e os iemenitas a sério é muito antiga”.

A Arábia Saudita provou ser um dos aliados mais leais dos Estados Unidos na região nos últimos 50 anos – e seu executor. Em troca de manter o dinheiro do petróleo fluindo para os Estados Unidos, Washington está disposta a defender o péssimo histórico de direitos humanos do país e até mesmo a ignorar o assassinato de jornalistas como Jamal Khashoggi, do Washington Post. Andrew Feinstein, um especialista da indústria de armas e autor de “The Shadow World: Inside the Global Arms Trade“, explicou ao MintPress que “os EUA se aliaram à Arábia Saudita, apesar de ser um dos países mais corruptos do mundo e piores violadores dos direitos humanos, no âmbito nacional e no exterior, por duas razões principais: petróleo e o desejo da direita norte-americana de mudança de regime no Irã. Isso ocorre apesar do fato de que o país saudita é o principal defensor ideológico, financiador e armador dos grupos islâmicos mais radicais”.

Sob Trump, os Estados Unidos aumentaram drasticamente seu apoio militar à Arábia Saudita, assinando uma série de acordos de armas que desmentem qualquer ideia de que ele foi um presidente anti-guerra. No geral, o SIPRI calcula que os EUA foram responsáveis ​​por 36% das vendas globais de armas entre 2015 e 2019, um grande aumento em relação aos cinco anos anteriores. A Arábia Saudita é de longe o melhor cliente do país, e os EUA são o fornecedor mais importante do Reino, respondendo por três quartos de todas as compras. Em 2019, isso incluiu 59.000 bombas guiadas, a maioria destinadas a serem lançadas em alvos civis no Iêmen. Como Bennis observou, “Os sauditas compram mais armas dos EUA do que qualquer outro país do mundo, por isso está embutido na própria estrutura do complexo industrial militar aqui.” Além disso, muitos dos outros melhores clientes de Washington também são ditaduras do Oriente Médio que também bombardeiam o Iêmen.

A Arábia Saudita sediou recentemente a cúpula do G20, uma reunião das 20 nações mais poderosas do mundo. Notavelmente, para um país onde as mulheres não podem viajar ou se casar sem a permissão de um homem, o governo saudita escolheu o “empoderamento feminino” como tema da reunião deste ano. E enquanto o G20 está sendo instado a responsabilizar a Arábia Saudita por seu papel no Iêmen, essa possibilidade parece duvidosa, visto que as exportações de armas do G20 para Riad são três vezes o que eles dão ao Iêmen em ajuda.

Com uma mudança iminente de administração na Casa Branca, há rumores de que um governo Biden inverterá a direção no Iêmen. Bennis, no entanto, é cético sobre a profundidade da mudança que Biden implementará:

“Pode haver uma mudança bastante abrupta. A questão, para mim, é quão profunda ela será. Biden comprometeu-se, em sua declaração de intenção sobre as relações exteriores, a encerrar o envolvimento dos EUA na Guerra Saudita no Iêmen. A questão é como isso será definido. Haverá alguns movimentos simbólicos muito rapidamente após sua posse, esperançosamente nos primeiros dias ou semanas da nova administração. A grande questão é se ele realmente interromperá a venda massiva de armas básicas – os F-15s e F-16s, os bombardeiros e bombas, os drones, a munição e todo o equipamento que é responsável por tantas mortes e destruições no Iêmen. Ele está preparado para fazer isso? Estou esperançoso, mas não muito otimista”.

Esta opinião é compartilhada pelos iemenitas que estão no país e falaram ao MintPress. Ibrahim Abdulkareem, que perdeu sua filha bebê quando um avião de guerra saudita lançou uma bomba feita nos EUA na sua casa em Sanaa, em 2015, disse que a declaração de intenção de Biden sobre os assuntos externos não era boa o suficiente: “Não estou otimista de que Biden pare de fornecer [o líder saudita Mohammed] Bin Salman com bombas como as que mataram minha filha”, afirmou. Em assuntos internacionais, o dinheiro fala. E os EUA estão lucrando muito com esta guerra.