A paz na Colômbia, entre áudios, esfacelamentos e fragmentos

Com sabotagens ao acordo assinado entre o governo e as FARC em 2012, a consolidação da paz continuará a ser um desafio para a Colômbia em 2021. Por Consuelo Ahumada | CLAE - Tradução de Rebeca Ávila para a Revista Opera

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Manuel Santos, Raúl Castro e Timoleón Jiménez em Havana, na assinatura do Acordo de Paz entre o Estado colombiano e as Farc, 2012. (Foto: Luis Ruiz Tito/Presidencia República Dominicana)

Há quatro anos, no dia 24 de novembro, a firma definitiva do Acordo de Paz provocou alívio e entusiasmo na Colômbia e no mundo inteiro. Parecia ser o começo do fim da guerra. Nos meses seguintes houve avanços importantes no Congresso e na Corte Constitucional para conseguir a desejada implementação. Porém, sem dúvidas, o mais importante foi a desmobilização dos ex-combatentes e a deposição das suas armas, sob monitoramento e com certificação da ONU.

No entanto, os inimigos do acordo nunca pararam os esforços para sabotá-lo. “Esfacelar a paz” foi o slogan lançado pelo seu principal ideólogo, filho do Leopardo [grupo conservador dos anos 20], defensor de militares corruptos e advogado de múltiplas causas contra o Estado colombiano.

A estratégia adquiriu grande impulso em 2018, com o regresso do uribismo ao poder, e tem se expressado de várias formas: sabotagem no Congresso aos projetos para cumprir os compromissos, “joguinhos” contra a oposição, controle institucional completo; manipulação da mídia, estigmatização, enganos e mentiras repetidas; ameaças e assassinatos.

Em meio a condições tão difíceis, o debate realizado na Primeira Comissão do Senado na quinta passada foi um marco importante. Deixou claro o papel cumprido pelo procurador-geral anterior, Néstor Humberto Martínez, notório inimigo do acordo.

Dias antes do debate, uma investigação do jornalista Bolaños, no El Espectador, revelou a existência de 24.000 áudios no arquivo do guerrilheiro Jesús Santrich no Ministério Público. Desses, apenas 12 foram entregues à Jurisdição Especial para a Paz (JEP). O então procurador-geral negou a existência de provas contra ele e exigiu sua extradição imediata.

Com base na análise desses áudios e de múltiplos documentos, os senadores Petro, Cepeda, Sanguino e Barreras demonstraram como Humberto Martínez e a Administração para o Controle de Drogas (DEA) organizaram um complô criminoso de acordo com os episódios sombrios protagonizados pela agência antidrogas na história da América Latina. O objetivo? Prender o ex-guerrilheiro, comprometê-lo com o narcotráfico, extraditá-lo e destruir o Acordo de Paz.

O debate deixou evidente que tudo se tratou de uma montagem, com um vídeo editado e manipulado com imitação de vozes, sobre a suposta negociação de um carregamento de cocaína com o cartel de Sinaloa. Os 5.000 mencionados para garantir o negócio vieram do Ministério. Nessa época, Humberto Martínez divulgou o vídeo incisivamente na mídia para incriminar o ex-guerrilheiro de seguir cometendo crimes após o acordo.

Como resultado disso tudo, Santrich e outros, incluindo Iván Márquez, principal negociador do acordo, regressam às armas. Com uma decisão tão equivocada, a presidência de Duque encontrou o pretexto para seguir culpando as Farc e o acordo pelo aumento significativo dos massacres e assassinatos de lideranças sociais e ex-combatentes. Com razão, o senador Roy Barreras disse que as dissidências “são as filhas malditas desta armadilha”. 

O histórico de Humberto Martínez é bastante largo. Depois de ocupar diversos cargos públicos em distintos governos, incluindo o de superministro durante o governo Santos, chegou ao Ministério Público em setembro de 2016. Sua missão: ocultar a participação de Sarmiento Angulo, maior banqueiro do país, seu chefe e amigo, no caso Odebrecht. Cuando este escândalo veio à tona, ocorreram estranhas mortes de testemunhas-chave do processo provocadas por cianuro.

Há evidências de que o personagem também interrompeu investigações do Ministério a altos quadros militares por escândalos de corrupção, especialmente as operações Gavilán e Bastón, assim como os chamados “falsos positivos”. Ele também foi promotor das objeções à Jurisdição Especial para a Paz, com as quais o governo de Duque tentou bloquear a lei que a regulamentava, um propósito que também contou com intervenção aberta da Embaixada dos Estados Unidos. 

O cinismo e a traição de Néstor Humberto Martínez frente ao debate passado não teve limites. Menosprezou todas as acusações com ataques pessoais aos senadores. Como era de se esperar, Duque o respaldou e os acusou de defensores do narcotráfico.

O governo tinha expressado sua intenção de nomeá-lo embaixador na Espanha, onde tem propriedades adquiridas com dinheiro de procedência duvidosa, como foi demonstrado pelo jornalista Guillén. Esta tem sido a estratégia do uribismo quando os seus funcionários enfrentam escândalos. Esperemos que pelo menos a pressão nacional e internacional, em contraparte, sirvam para impedi-lo. 

No entanto, nem tudo está perdido. Longe disso. Os benefícios do acordo têm sido claros e estão transformando o país de várias maneiras. “Fragmentos”, por exemplo, é o monumento construído por Doris Salcedo a poucas quadras da Casa de Nariño com as armas fundidas dos ex-combatentes. É uma homenagem à memória coletiva dos povos afro, indígenas e camponeses, à sua resistência, aos processos de organização de mulheres e homens ao longo de todo o território nacional, assim como “Testigo”, a valiosa exposição fotográfica de Jesús Abad.

O país rural, as regiões historicamente abandonadas, resiste à ideia de voltar à guerra. Entidades como a Jurisdição Especial para a Paz e a Comissão da Verdade nos devolvem a esperança. Porém, sem dúvida, falta conseguir o poder político para consolidar a paz, e esta será a tarefa de 2022.

* Doutora em Ciência Política com ênfase em Estudos Latino-americanos pela New York University. Professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidad Externado de Colombia. Membro efetivo e da direção da Academia Colombiana de Ciências Econômicas. Membro da Associação Colombiana de Economia Crítica. Textos distribuídos pelo Centro Latinoamericano de Análisis Estratégico (CLAE)