Shenzhen e Xangai, as cidades vitais para o futuro econômico da China

O vasto potencial das duas cidades, reconhecido diretamente por Pequim, deve continuar sendo um fator fundamental para o benefício da China. Por Gabriel Deslandes | Revista Opera

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(Imagem: Estúdio Gauche)

Se milhares de quilômetros separam territorialmente Xangai, no centro-leste da China, e Shenzhen, na província de Guangdong (sudeste), as duas cidades se unem no mesmo projeto que alçou o país asiático ao posto de segunda potência global. Duas das maiores áreas metropolitanas do continente, Xangai e Shenzhen não só têm em comum o pioneirismo no modelo de desenvolvimento instituído nas últimas quatro décadas de Reforma e Abertura. Elas também seguem sendo locais-chaves para a ascensão comercial, produtiva, científica e tecnológica chinesa.

Embora as duas metrópoles compartilhem uma importância vital para a China, cada uma delas tem um papel único e particular a desempenhar. Essa é a observação feita pelo reitor da Escola de Economia da Universidade Fudan e diretor do think tank Centro de Estudos Econômicos da China, Zhang Jun. Em sua coluna no South China Morning Post, Zhang Jun afirma que o governo chinês tem construído um mecanismo poderoso de transformação econômica baseado em investimentos em cidades fortes e regiões estratégicas. Nesse projeto nacional, Shenzhen e Xangai são pontos privilegiados no mapa do gigante asiático.

Zhang Jun lembra que não por acaso o presidente Xi Jinping fez visitas recentes às duas metrópoles com propósitos parecidos. Em outubro de 2020, Xi foi a Shenzhen durante o 40º aniversário da transformação da cidade na primeira Zona Econômica Especial (ZEE) da China, o que fez dela ponto de partida para a política de Reforma e Abertura nos anos 1970. Xi discursou por 50 minutos exaltando Shenzhen como centro de inovação de alta tecnologia mundialmente reconhecido. O presidente destacou que, de uma pequena vila de pescadores em 1980, a cidade virou uma metrópole com o PIB de 2,7 trilhões de iuanes e uma taxa média de crescimento anual de 20,7%. “Esse é um milagre do desenvolvimento global que o povo chinês ajudou a criar”, disse o presidente.

Um mês depois, foi a vez de Xi visitar Xangai para as comemorações dos 30 anos da criação da Nova Área de Pudong, também uma zona de experimentação das reformas de mercado. No encontro em Xangai, o presidente cobrou que a região fortaleça seu papel como motor de inovação e descobertas tecnológicas. O pedido está de acordo com as metas do 14º Plano Quinquenal (2021-2025), lançado semanas antes pelo Partido Comunista Chinês e que preconiza para o distrito a missão de criar clusters industriais nas áreas de biomedicina, circuitos integrados e inteligência artificial. “A área deve se esforçar para se tornar uma pioneira na Reforma e Abertura em um nível mais elevado e uma vanguarda na construção completa de um país socialista moderno”, comentou o presidente na ocasião.

Para Zhang Jun, as duas visitas de Xi deixam clara a centralidade de Shenzhen e Xangai para toda a China. Enquanto Xangai é referência em termos de capacidade tecnológica geral e serve de ambiente previsível para o comércio e as finanças globais, Shenzhen vem se tornando um laboratório para experimentação e apoio à inovação.

Área da Grande Baía: Shenzhen vs. Hong Kong

Quando a ZEE de Shenzhen foi implantada, sua região era habitada por pouco mais de 20 mil moradores com uma economia basicamente agrícola e pouco industrializada. O crescimento meteórico do PIB da cidade desde o final da década de 1970 fez da institucionalização da ZEE uma história reconhecida de sucesso.

À época, entretanto, não foram poucos os que se perguntaram quanto à escolha justamente de Shenzhen para servir de incubadora para a política da Porta Aberta de Deng Xiaoping. Segundo Zhang Jun, entre os questionadores da instalação dessa ZEE, estava o então estudante de pós-graduação em Cambridge e hoje professor adjunto da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade de Hong Kong, James Kai-sing Kung, que não entendeu por que o governo chinês optou por investir em Shenzhen em detrimento de centros econômicos consolidados, como Xangai ou Tianjin.

A resposta, conclui Kung, tinha uma explicação política, e ela estava dentro da própria Área da Grande Baía. O governo se preparava para a devolução da vizinha Hong Kong do mandato colonial britânico para a soberania chinesa. Naquele contexto, Hong Kong já era uma das praças financeiras mais importantes da Ásia e, ainda que sua transferência só tenha se consumado em 1997, a cidade exercia um impacto no desenvolvimento de toda a região do Delta do Rio das Pérolas.

Passados mais de 40 anos, Shenzhen prospera com seus portos sempre movimentados e contará com um recente pacote de reformas para estimular seu papel como polo financeiro e de alta tecnologia. A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma planeja que Shenzhen vire um centro de arbitragem internacional, expanda seus serviços de aviação, estabeleça um novo sistema de proteção de direitos de propriedade intelectual e simplifique regras de visto para atrair talentos estrangeiros. Em contraste, como afirma Zhang Jun, os Novos Territórios de Hong Kong parecem áreas desoladas.

A comparação entre as duas regiões pode levar à interpretação de que o governo prestigia Shenzhen em detrimento de Hong Kong. Contudo, um conselheiro-sênior de Pequim disse ao South China Morning Post que o objetivo do governo central é que Hong Kong se adeque às estratégias política e econômica de sua vizinha. “Eu não diria que Pequim quer que Shenzhen engula Hong Kong, mas esta última deve estar ciente de que o desenvolvimento da cidade não diz respeito somente a si mesma. Também precisamos olhar para as necessidades de desenvolvimento do país e nos ajustar a ele”, frisou o vice-presidente da Associação Chinesa de Estudos de Hong Kong e Macau, Lau Siu-kai.

De acordo com o próprio South China Morning Post, a economia de Shenzhen – com um PIB de 403 bilhões dólares em 2019 – já superou a de Hong Kong, que alcançou PIB de 348 bilhões de dólares no mesmo ano. Os protestos antigovernamentais de 2019 geraram mais incerteza sobre o futuro de Hong Kong. “Aos olhos de Pequim, Hong Kong talvez se torne uma cidade instável, em decorrência da agitação social do ano passado. É compreensível que queira impulsionar Shenzhen para tomar o lugar de Hong Kong como líder da Área da Grande Baía”, analisou o cientista político da Universidade Politécnica, Chan Wai-keung.

Nesse sentido, o rápido crescimento de Shenzhen fomentará a prosperidade socioeconômica de Hong Kong, dada a estreita proximidade geográfica entre ambas as cidades. Esse fenômeno de desenvolvimento por transbordamento transfronteiriço é visto, por exemplo, na fronteira entre o México e o Texas, onde o fluxo migratório de trabalhadores em busca de empregos e oportunidades propicia a ascensão de cidades dinâmicas e populosas, sobretudo, no lado mexicano.

Graças à influência mútua da produção econômica de ambas as cidades – em breve, Shenzhen corresponderá a 1/3 da economia da província de Guangdong –, Shenzhen se converteu no motor principal da Área da Grande Baía, que envolve nove cidades, além de Macau e da própria Hong Kong. O próprio Xi Jinping ressaltou que Shenzhen tem a missão de promover a integração com Hong Kong e Macau e unificar as regras e mecanismos econômicos das três localidades.

Desse modo, o governo central concede a Shenzhen um poder de tomada de decisão sobre uma vasta gama de políticas, o que inclui até mesmo mais voz na determinação do uso da terra. Nesse ponto, dar maior autonomia a uma administração regional para a alocação eficiente da terra é uma novidade incomum, já que a propriedade estatal de todas as terras tem sido um princípio básico na China desde 1949. Medidas como essa, somadas a novas legislações sobre regulação financeira e propriedade intelectual, podem servir de modelo para outras reformas a serem replicadas em outras áreas do país.

Xangai no cinturão econômico do Rio Yangtzé

Se Shenzhen é hoje o “Vale do Silício da China”, sediando algumas das maiores empresas exportadoras de tecnologia do mundo, Xangai também permanece como ponto nevrálgico para o desenvolvimento do país. Por essa razão, o governo central lançou um plano ambicioso de integração econômica do Delta do Rio Yangtzé, que envolve Xangai e as três províncias vizinhas de Jiangsu, Zhejiang e Anhui. Mesmo representando só 4% do território do país, essa região abarca 1/4 de toda a economia nacional, conta com mais de 220 milhões de habitantes e é uma zona de referência em capacidade de inovação.

Assim, o próprio Xi Jinping, que é ex-chefe do Partido Comunista em Xangai e Zhejiang, tem se engajado também nessa política de integração, divulgada oficialmente pelo Conselho de Estado em dezembro de 2019. Com mais de 30 mil palavras, o plano persegue dois objetivos principais: alcançar a integração socioeconômica regional até 2025, impulsionando o fomento de uma série de clusters industriais, e transformar a região em um polo de crescimento mais dinâmico até 2035.

O plano estipula que todo o Delta do Rio Yangtzé será piloto para a implantação de políticas experimentais voltadas à reestruturação econômica e industrial. Além do estímulo à inovação de alta tecnologia, está a previsão de uma atualização da zona de livre comércio de Xangai com a ampliação de serviços públicos de saúde e combate a problemas ambientais. “Esse é essencialmente um chamado para a prosperidade comum, mais relacionado com o fortalecimento da coordenação, reduzindo as lacunas entre as áreas desenvolvidas e menos desenvolvidas e evitando a competição excessiva”, afirmou ao South China Morning Post o professor do Instituto de Governança Urbana da Universidade Jiao Tong de Xangai, Chen Jie.

Essa série integrada de investimentos evidencia a manutenção de Xangai como grande centro manufatureiro chinês. A fabricação de produtos de alto valor agregado é hoje o setor econômico crucial para que a metrópole mantenha sua posição de supremacia comercial dentro da China e no mundo. Dessa forma, por exemplo, a queda na produção industrial em 7% no primeiro semestre de 2016 serviu de alerta às autoridades chinesas de que a cidade jamais poderia ficar dependente do setor de serviços, obrigando-as a tomar medidas drásticas para reestimular a indústria. “Temos uma resposta hoje: com coordenação eficiente, a indústria manufatureira de Xangai ainda tem grande potencial de crescimento”, ponderou um ano depois o chefe da Comissão de Economia e Tecnologia da Informação de Xangai, Chen Mingbo.

Para reverter esse quadro, o governo chinês planejou atrair mais de 60 projetos industriais com produção anual prevista de mais de 1 bilhão de iuanes cada (na época, 147 milhões de dólares) entre 2016 e 2020. O foco desses investimentos envolveria áreas como biotecnologia, Internet industrial, produção de novos materiais, semicondutores, carros inteligentes e aviação. Com essa política, as autoridades chinesas ofereceram incentivos como aluguéis mais baratos e impostos mais baixos para pequenas empresas de tecnologia, além de uma taxa fixa sobre o uso da terra pelos próximos 20 anos.

Como ator econômico de longa data, Xangai contribuiu para fazer do cinturão econômico do Rio Yangtzé um polo regional responsável por mais de 40% de toda a produção chinesa. Segundo Zhang Jun, o Delta do Rio Yangtzé e a Área da Grande Baía somados constituem 60% da produção total do país. Juntas, Xangai e Shenzhen consistem em pontos indispensáveis para a transformação da economia da China. O vasto potencial das duas cidades, reconhecido diretamente por Pequim desde o início da política de Reforma e Abertura, deve continuar sendo um fator fundamental para o benefício da sociedade chinesa como um todo.