A disputa geopolítica pela vacina e seu impacto na América Latina e no Caribe

As alianças de cooperação médica e sanitária que a América Latina e o Caribe têm estabelecido podem ajudar a obter uma vacina a custo baixo. Por Arantxa Tirado | Celag - Tradução de Gideão Gabriel para a Revista Opera, com revisão de Rebeca Ávila

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(Imagem: Estúdio Gauche)

A pandemia associada ao coronavírus SARS-CoV-2 segue fazendo estragos no mundo. No continente americano, a Covid-19 já ultrapassa os 24 milhões de casos e 690 mil de mortes. Desse total, 10,5 milhões de casos e 313,000 mortes correspondem à América do Sul; ao redor de 544,000 infecções e cerca de 13,000 mortes à América Central; 267,300 casos e 4,800 mortes ao Caribe; e, ao México, 1 milhão de infectados e quase 100,000 mortes.   

Enquanto alguns países padecem da “segunda onda’’, distintos centros de pesquisa, públicos e privados, continuam sua corrida a fim de encontrar uma vacina que “salve a humanidade’’ da Covid-19. 

A disputa geopolítica pela cura 

Conseguir a vacina, o quanto antes, tornou-se uma questão de saúde pública, mas também de prestígio para os governos.

Há uma disputa entre as potências não só para criar a vacina, mas para, primeiro, garanti-la a seus cidadãos e suas cidadãs – sem uma visão global – no que se tem denominado um  “nacionalismo de vacinas’’.

Por trás dessa corrida, há também diferentes visões sobre como deve ser a vacina e uma falta de cooperação sanitária, por exemplo entre os EUA e a China, que expressam as disputas existentes entre os dois países em outras áreas. Trump chegou a nomear publicamente o coronavírus de “írus chinês’’.

Enquanto os governos da China e da Rússia já anunciaram que a vacina será posta à serviço da humanidade, a União Europeia criou a “Equipe Europa’’ para dar uma resposta mundial à pandemia via cooperação com seus sócios. China e Rússia estão fazendo o mesmo bilateralmente e no âmbito dos BRICS

Dois dados permitem entender a multipolaridade existente, também na área farmacêutica. Entre os principais bilionários do mundo, o primeiro que aparece vinculado exclusivamente ao mundo farmacêutico, na 70ª posição, é o chinês Zhong Huijuan. Entre os dez primeiros do ’setor de saúde só há um estadunidense, Carl Cook; o restante são asiáticos ou europeus. O primeiro vinculado exclusivamente ao âmbito das  vacinas, dentro da questão sanitária, é o indiano Cyrus Poonawalla. De fato, a Índia é o principal produtor de vacinas do mundo

Nos EUA, meses antes das eleições, Donald Trump iniciou a operação Warp Speed para financiar as pesquisas da vacina, além de conseguir medicamentos e testes diagnósticos para o vírus. Um orçamento de mais de 10 bilhões de dólares para P&D beneficiou grandes conglomerados farmacêuticos: Moderna foi a melhor beneficiada, com 2,455 bilhões de dólares, seguida da GSK Sanofi com 2,1 bilhões, BioNTech Pfizer com 1,95 bilhões, Novavax com 1,6 bilhões, Johnson & Johnson com 1,45 bilhões e a AstraZeneca com 1,2 bilhões de dólares.

A União Europeia, por sua vez, criou através da colaboração da Comissão Europeia com o Banco Europeu de Investimento (BEI) e uma cúpula de doadores, um fundo de 15,9 bilhões de euros para “assegurar o acesso universal aos medicamentos contra o coronavírus’’, o que inclui a produção de 250 milhões de doses para países de baixa e média renda. O BEI tem financiado a farmacêutica BioNTech e a vacina alemã da CureVac, que está na fase 2.

A cúpula de doadores da UE também foi exemplo da entrada de capital privado para financiar políticas sociais. Entre cantores e outras celebridades, Melinda Gates teve participação destacada.

Os filantropos e o negócio da vacina

Ainda que o financiamento público seja indispensável para a corrida pelas vacinas, a participação do capital privado está cumprindo um papel importante nos projetos de pesquisa e nos organismos multilaterais.

Um dos casos mais destacados é o da Fundação Bill e Melinda Gates, que se converteu no segundo maior doador da OMS (9,7% do orçamento), atrás dos EUA. Os Gates estão por trás de sete projetos de vacina, destacando-se o da Universidade de Oxford. 

Bill Gates, o segundo homem mais rico do planeta segundo a Forbes,  vem há anos alertando sobre o risco de pandemias vinculadas a vírus e a necessidade de investir em vacinas, além de desenvolver um trabalho de erradicação de outras enfermidades na África.

Por trás há vários riscos: a privatização da agenda da saúde pública em escala mundial, um mercado muito atrativo sob o capitalismo; a patrimonialização da vacina e a especulação financeira. Só o anúncio de uma vacina pela Pfizer fez suas ações na bolsa subirem.

As vacinas

Atualmente há 49 vacinas candidatas a avaliação clínica  inscritas na Organização Mundial da Saúde (OMS) e 164 candidatas em avaliação pré-clínica.* Entre as primeiras, somente 13 encontram-se  já na fase três.

(Fonte: CELAG)
(Fonte: CELAG)

Além desse projetos, destaca-se, por seu impacto na região, o da vacina cubana conhecida como Soberana (01, 02, 01A), desenvolvida pelo Instituto Finlay em meio a um bloqueio econômico e atualmente em fase de experimentação com vários ensaios, junto a duas novas vacinas candidatas, Abdala e Mambisa, registradas no  Registro Público  de Ensaios Clínicos de Cuba. É de se notar que tanto o Instituto Finlay quanto a empresa Sinopharm são propriedades do Estado. 

Novavax anunciou testes clínicos nos EUA e no México. No México, Brasil, Chile e Rússia também  é testada a Ad5-nCoV (chinesa). Semanas atrás, a Venezuela recebeu a vacina Sputnik V para testes. A CoronaVac (chinesa) é testada no Brasil, Indonésia e Turquia, e a Barach Biotech (indiana) ofereceu um acordo de transferência tecnológica ao Brasil, um acordo prévio para testes. 

Parece que o início da vacinação é quase iminente em algumas partes do planeta. Na Europa, a Agência Europeia de Medicamentos (AEM) já anunciou  a aprovação e a comercialização de duas vacinas para meados de dezembro, Pfizer/BioNTech e Moderna; e fechou contratos com três farmacêuticas, incluída a Johnson & Johnson.

Pfizer/BioNTech solicitou à Administração Federal de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA, em inglês), ao Canadá, à Austrália e ao Reino Unido a permissão para poder usar a vacina “em situações  de emergência’’.

Esta celeridade por parte da farmacêutica levou Donald Trump a declarar que as farmacêuticas não tinham avaliado antes suas vacinas nos EUA para boicotar sua possibilidade de reeleição, um embate que também sucedera meses atrás com a OMS.

América Latina: alianças multilaterais e acesso dependente à vacina

Ao longo desses meses, viu-se a dependência da cooperação médica e sanitária estrangeira por parte da maioria dos países latino-americanos e caribenhos. Neste sentido, nota-se uma diversificação que rompeu as afinidades ideológicas. Países centro-americanos circunvizinhos aos EUA, como Honduras e El Salvador, estabeleceram cooperação com Rússia ou Cuba. Outros, como o Brasil – ou a Bolívia de Áñez – abriram a porta para a cooperação com a China. Cuba tem ajudado a Venezuela, ampliando sua cooperação sanitária. Venezuela recebeu assessoria chinesa para combater a pandemia e, também, foi o primeiro país latino-americano a participar em testes clínicos da vacina russa. O México recebeu cooperação, mas também a ofereceu a outros países, como Cuba.

Cuba, contudo, constitui uma exceção. Durante a pandemia tem enviado médicos a países da região e da Europa. Além disso, é o único país do Caribe que tem uma vacina registrada na OMS, com dois projetos de pesquisa da Soberana.  Este feito é importantíssimo, pois é a única vacina de um país socialista, com reconhecida tradição de cooperação farmacêutica e sanitária.

A distribuição, sem custos para os cidadãos, desta vacina por meio de acordos de cooperação com os governos da região, pode ser uma maneira de romper a hegemonia que agências como a europeia e a estadunidense exercerão para marcar quais vacinas serão as indicadas, bem como evitar os perigos da dependência tecnológica e financeira dos países do Norte.

Conclusões

Espera-se que a disputa por desenvolver primeiro uma vacina que salve a humanidade desta pandemia possa ajudar a assegurar as tendências globais que destacam o deslocamento da economia mundial em direção à zona Ásia-Pacífico. Daí o ímpeto dos laboratórios europeus e estadunidenses para serem os primeiros a iniciar a vacinação e estabelecer suas respectivas vacinas como referências, únicas com autorização das poderosas agências de medicamentos.

O papel dos meios de comunicação ocidentais tem sido o de reforçar esses esforços, concentrando o debate nas possibilidades de vacinação dos fármacos ocidentais, dando menor cobertura aos não-ocidentais, pondo em dúvida o caráter científico de outras vacinas, como a russa, ou ecoando as acusações de roubo de informações por parte da Rússia e outros países.

Parece evidente que se a China – país da origem do coronavírus – conseguir tornar-se, antes que qualquer outro, o país com uma vacina, exercerá um ressarcimento simbólico e ficará em uma posição de domínio mundial, também por sua capacidade de produção massiva e pela ideia de distribuição humanitária.

Os acordos de cooperação médica e sanitária que a América Latina e o Caribe estabeleceram durante a pandemia podem jogar a favor  no acesso a uma vacina sem tantos custos aos respectivos governos. Além disso, são exemplos da crescente multilateralidade das relações internacionais e de uma maior presença e influência da China no subcontinente latino-americano-caribenho. Frente a esta situação, espera-se que tanto os EUA quanto a Europa pressionem energicamente a favor de seus laboratórios. O “alívio’’ gerado entre o establishment mundial frente à eleição de Biden ilustra as expectativas de que os EUA recuperem a liderança para salvar o capitalismo em sua fase neoliberal e o “globalismo’’ associado a ele, por fim, para salvar o Ocidente.

* Última atualização dos dados na data de 26 de novembro de 2020.