Indícios apontam que governo apoiado pelos EUA é responsável pelo nonagésimo massacre do ano na Colômbia

Massacres de líderes sociais e ex-combatentes das FARC continuam a marcar a Colômbia anos depois do acordo de paz. Por Alan Macleod | MintPress News - Tradução de Fabyola Alves para a Revista Opera, com revisão de Rebeca Ávila

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(Foto: Departamento Nacional de Planeación)

Na época de festas na Colômbia, nem todo mundo estava comemorando. O domingo do último dia 26 trouxe a notícia do nonagésimo massacre do ano. Cinco pessoas foram encontradas mortas no departamento de Bolívar, no norte do país, entre elas a ex-guerrilheira de esquerda Rosa Amalia Mendoza e seu filho pequeno. Enquanto isso, poucas horas antes, no departamento de Cauca, no sudoeste do país, o corpo brutalmente torturado de Manuel Alonso Villegas, de 55 anos, foi encontrado em uma estrada perto de sua cidade natal, Miranda.

Tanto Mendoza quanto Villegas eram membros do grupo guerrilheiro de esquerda FARC até 2016, quando eles e muitos outros concordaram em entregar  permanentemente suas armas em um acordo de paz histórico que prometia encerrar a guerra civil de décadas no país. Mendoza, 25, teria se envolvido com o ativismo local, fundando a Associação de Habitação Agrícola e Ambiental do Sul de Bolívar. Enquanto isso, Villegas se dedicou ao artesanato, fazendo camisas personalizadas e outros itens. Ele também participou de vários projetos de desenvolvimento agrícola da comunidade local.

Seu corpo foi encontrado a apenas 200 metros do portão da fazenda coletiva de sua comunidade, algo que os moradores percebem como um “recado” premeditado. “A comunidade está muito assustada”, disse um local, em uma gravação compartilhada com o MintPress. Esta não foi a primeira vez que a cidade experimentou tamanho terror. No ano passado, dois irmãos também foram assassinados. A mãe deles morreu de ataque cardíaco no funeral.

James Jordan, coordenador nacional da Alliance for Global Justice e amigo de Villegas, conversou com a MintPress sobre o incidente. “Manuel era um mestre marceneiro que tinha uma sala cheia de itens à venda, desde pequenos suportes para telefone celular até belas camas, cadeiras de balanço e armários”, disse ele.

“Encontram-se notícias sobre todos esses assassinatos, atrocidades e massacres praticados pelas forças armadas, paramilitares e outros grupos armados. Mas quando você conhece uma comunidade e vê como eles trabalharam avidamente pela paz, como trocaram com entusiasmo suas armas por arados, máquinas de costura e ferramentas de marcenaria, quando você visita a moradia dessas pessoas, compartilha refeições, dança, joga futebol juntos, a depravação e crueldade dos inimigos da paz torna-se visceral. Ainda posso ver o rosto de Manuel e pensar em como sua vida e seus sonhos foram extintos de forma tão brutal é inaceitável. Não devemos apenas exigir que seus assassinos sejam presos e punidos, mas, se quisermos ver justiça, temos que fazer nossos os sonhos, esperanças e espírito de paz de Manuel.”

Uma campanha secreta de assassinatos planejados

O acordo de paz de 2016 dissolveu as FARC, que encerrou a luta armada e assumiu a política eleitoral sob o nome de Força Alternativa Revolucionária do Comum. O então presidente Juan Manuel Santos recebeu o Prêmio Nobel da Paz por intermediar o acordo.

No entanto, a violência só parou de um lado, já que poucos paramilitares de extrema-direita alinhados ao governo se desmobilizaram. Villegas e Mendoza são os 248º e 249º signatários do acordo de 2016 a serem assassinados até o momento, o que sugere uma campanha secreta de assassinatos planejados. A Força Alternativa Revolucionária do Comum condenou a violência, afirmando que na Colômbia “não há garantias para aqueles que apostam na paz.”

O governo sugeriu, sem muita convicção, o tráfico de drogas como explicação para muitos dos massacres, mas poucos parecem convencidos. “Se o tráfico de drogas fosse um fator determinante nos homicídios, era de se esperar que esse fenômeno ocorresse principalmente nos municípios cocaleiros. No entanto, as evidências indicam o contrário”, afirmou Giovanni Álvarez, Diretor da Unidade de Investigação e Acusação da Colômbia.

Embora a taxa de homicídios na Colômbia tenha caído no ano passado, os massacres, por outro lado, aumentaram muito em 2020, assim como sua crueldade. Ao todo, 375 pessoas foram assassinadas em massacres em 2020, de acordo com o Indepaz, grupo local de direitos humanos. “Cada massacre é um recado”, Manuel Rozental, médico e ativista de longa data que mora em Cauca, não muito longe da casa de Villegas, disse ao MintPress no início do ano. “Os massacres são metódicos, sistemáticos. É um trabalho realizado conforme o planejado.”

No início deste mês, a Alta Comissária das Nações Unidas pelos Direitos Humanos, Michelle Bachelet, pediu ao governo que tome “medidas mais fortes e mais eficazes para proteger a população” da “violência terrível e generalizada”. “É dever do Estado estar presente em todo o país, implementando todo um leque de políticas públicas abrangentes, não só para coibir os responsáveis ​​pela violência, mas também para prestar serviços básicos e salvaguardar os direitos fundamentais da população”, afirmou.

No entanto, poucos parecem esperar por um 2021 radicalmente diferente. Há muito tempo a Colômbia tem sido o lugar mais perigoso do mundo para ser um ativista. Desde 1989, de acordo com o grupo de direitos humanos Justice For Colombia, mais de 3.000 sindicalistas foram assassinados, mais do que o total no resto do mundo. “Em quase 100% dessas mortes, os perpetradores agem com impunidade”, disse Jordan. No dia 30 de dezembro, Norbey Antonio Rivera, de Cauca, tornou-se o último líder social a ser assassinado.

“Violência alimentada pelas políticas dos EUA”

O atual presidente Ivan Duque é um forte conservador, protegido do ex-líder do país Álvaro Uribe, uma figura que dominou a política colombiana durante a maior parte do século XXI. Tanto Duque quanto Uribe se opuseram veementemente ao acordo de paz de 2016, implorando ao público que não o apoiasse. Desde que assumiu o cargo em 2018, Duque tentou reverter partes do acordo.

Uribe tem um relacionamento extremamente próximo com grupos paramilitares de extrema-direita e os cartéis de drogas organizados. Enquanto presidente de 2002 até 2010, ele supervisionou uma onda de assassinatos de camponeses, líderes sindicais e líderes indígenas que resultou em mais de 10.000 mortes. No chamado “Escândalo dos Falsos Positivos”, forças controladas pelo governo matariam qualquer um que quisessem, posteriormente enquadrando suas vítimas como membros das FARC, ao mesmo tempo limpando seus próprios nomes e justificando ainda mais gastos com segurança. Isso permitiu que Uribe impusesse seu governo ao país, intimidando os oponentes ao silêncio. Suas próprias campanhas políticas foram diretamente financiadas com dinheiro do famoso cartel de drogas de Medellín.

Grupos paramilitares continuam a ter uma influência considerável dentro do país até hoje. O lockdown induzido pelo COVID-19 facilitou ainda mais a livre atuação dos esquadrões da morte que ainda aterrorizam o país, já que eles sabem exatamente onde estarão seus alvos, encontrando pouca resistência organizada. Mais de 1,6 milhão de colombianos testaram positivo para o coronavírus, com 42.620 mortes relatadas até o último dia 30 – uma taxa per capita semelhante à dos Estados Unidos.

Quem é o culpado por essa violência? Ela pode acabar um dia? Jordan deixou claro que, embora os colombianos possam estar pagando com sangue, este não era um assunto puramente interno, e a fonte da violência estava perto de casa.

“Amargamente, tenho que repetir o que muitos já disseram antes, que a violência política na Colômbia é alimentada por políticas do governo dos EUA. Os Estados Unidos continuam a fornecer armas e instruções para as forças armadas, polícia e prisões colombianas e, com muita frequência, incentivam diretamente e até mesmo financiam os líderes de esquadrões da morte privados. O governo Trump também promoveu uma campanha em grande escala para minar os acordos de paz da Colômbia. Não devemos perder nosso tempo esperando que o governo Biden reverta a situação, devemos exigi-lo ”, disse ele ao MintPress.