Mural: “Enfrentamos dois inimigos: um patógeno invisível e a extrema-direita”

Leitor compartilha reflexões sobre a vacina e a geopolítica do coronavírus a partir da linha de frente de um hospital de São Paulo. Por Anastácio Pimpinela* - Mural do Leitor | Revista Opera

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(Foto: Alberto Giuliani)

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Certa vez li que a diferença entre um erro médico e um erro diplomático é o número de caixões. Não posso discordar. Estou desde março de 2020 trabalhando com pacientes infectados pelo novo coronavírus em emergências na cidade de São Paulo e após tantos meses de convívio diário com o vírus, fui vacinado com a primeira dose da CoronaVac, vacina desenvolvida com tecnologia da China. 

Nesse exato momento, o governo brasileiro batalha para conseguir uma vacina para chamar de sua, frente ao sucesso aparente de João Dória em São Paulo com a CoronaVac, ao mesmo tempo em que o país é rechaçado pelos EUA (detentor da vacina da Pfizer e da Moderna), seu principal parceiro estratégico nos últimos 2 anos. Ainda, após ter se recusado a apoiar a posição indiana de quebra das patentes, o Brasil é colocado para escanteio pela Índia, que deu preferência a fornecer a vacina a seus vizinhos (Nepal, Butão e Bangladesh), tamanha influência e prestígio da atual política externa brasileira. No momento em que escrevo essas linhas o povo brasileiro segue sem perspectiva de vacinação para todos.

Acuado, Bolsonaro e seus asseclas correm contra o tempo para garantir insumos da China para a vacinação no Brasil. Ironicamente, o país asiático vem tolerando nos últimos dois anos uma série de insultos e impropérios por parte de funcionários do alto escalão do governo brasileiro, sendo um de seus mais ilustres detratores o ministro de relações exteriores Ernesto Araújo, que há meses insiste na narrativa trumpista do “vírus chinês” e em uma suposta responsabilidade chinesa na disseminação do vírus. Tal argumento é rejeitado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), organização insuspeita de simpatias pelo Partido Comunista Chinês. 

Para a infelicidade de Ernesto Araújo e da extrema-direita mundial, a atuação do governo chinês, segundo a OMS, foi um feito sem precedentes na história mundial. Tamanho é o êxito da China que no país onde o vírus surgiu e atingiu primeiro, em um momento em que absolutamente nada se sabia sobre a doença, a recuperação sanitária e econômica se aproxima a passos largos, ao passo que países ricos do hemisfério norte como os EUA, Reino Unido, Holanda e Noruega ainda enfrentam o colapso de seus sistemas de saúde. No Terceiro Mundo, particularmente no Brasil, a situação segue ainda mais desoladora. Recentemente fomos surpreendidos pela morte de dezenas de pacientes no norte do país em decorrência da falta de oxigênio. Genocídio é a palavra que usarei daqui em diante. 

No Brasil, nós, profissionais da saúde, enfrentamos durante a pandemia dois inimigos principais: um patógeno invisível até então desconhecido e a extrema-direita, cuja atuação política nos últimos meses foi igualmente virulenta e muito bem visível. A propagação e estímulo ao negacionismo e ao uso de terapias sem comprovação científica, a pressão de amplos setores da burguesia contra o fechamento da circulação e o isolamento social, e o descaso por parte dos liberais à frente do governo federal em relação à saúde pública – culminando no Amazonas sem oxigênio – criaram as condições para a catástrofe humanitária ainda em curso no Brasil. 

Enquanto escrevo essas linhas passamos dos 214 mil mortos, cifra próxima a estimativas do número de mortos na guerra civil do Iêmen, país árabe onde perdura um conflito sangrento há mais de 5 anos. Como demonstrou o Boletim de Direitos na Pandemia, que analisou mais de três mil normas federais, o governo Bolsonaro executou uma estratégia institucional de propagação do vírus. Não podemos nos furtar de chamar as coisas pelo nome: genocídio é a expressão que devemos usar pelos próximos anos para contar a história. 

No plano internacional, a narrativa insuflada pela extrema-direita mundial contra a China reflete um processo que vem se desenhando no horizonte há alguns anos. O mundo todo observa com muita atenção a ascensão da China, em termos tecnológicos, econômicos e sociais. O país asiático, que é ponta de lança no desenvolvimento da tecnologia do 5G, a próxima fronteira tecnológica a ser superada pela humanidade, se prepara para tornar-se a primeira economia do mundo, ao mesmo tempo em que tira centenas de milhões de seus habitantes da linha da pobreza. De país humilhado e fatiado por potências estrangeiras, a China vem desde 1949 criando as condições necessárias para desbancar nas próximas décadas a decadente hegemonia norte-americana no planeta. Alguns estudiosos afirmam que a pandemia tende a acelerar este processo. Diante da inevitável ascensão chinesa, rufam os tambores da guerra em Washington e se acirra a retórica anti-China contra o “perigo amarelo” no mundo ocidental.

A pandemia também contribuiu de sobremaneira para expor as rachaduras na hegemonia dos países que compõem a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Causou espanto a ajuda médica russa à Itália nos primeiros meses da pandemia. Quem poderia imaginar caminhões do exército russo em Bérgamo, na Itália, território da OTAN, ajudando a combater a pandemia? O mesmo pode ser dito dos médicos cubanos em Milão. Nessa mesma época, nos idos de março e abril, o mundo se escandalizou com os EUA roubando ventiladores mecânicos (produzidos e exportados pela China, claro) de países pobres, inclusive do Brasil. Na esteira desses acontecimentos, Cuba, pequena ilha soberana do Caribe, mostrou mais uma vez ao mundo sua vocação internacionalista e solidária, enviando médicos para vários países, até para a Velha Europa em colapso. No momento em que escrevo esta carta, Cuba avança no desenvolvimento de sua própria vacina, a Soberana. O país socialista terá o que não temos aqui: vacina própria e soberania.

No meio dessa desordem mundial, surge a pandemia para aprofundar e aquecer ainda mais as disputas mundiais. Enquanto a América Latina é esmagada sob as botas de militares entreguistas e sob os sapatos caros dos liberais formados em Chicago, que insistem em um laissez-faire pandêmico, o Brasil padece sem perspectiva de vacinação de toda a população até o final de 2021. 

Algumas iniciativas tímidas dão esperança em relação ao futuro: em São Paulo, o sindicato dos médicos, alinhado aos interesses populares pela primeira vez desde a década de 80, vem fazendo um bom trabalho durante a pandemia. Nos últimos meses, o sindicato participou ativamente das lutas contra o fechamento de vários hospitais na capital do estado e se posicionou contra o obscurantismo pregado pelo bolsonarismo naquilo que a extrema-direita chamou de “tratamento precoce para a Covid-19”, um coquetel de medicamentos ineficazes no combate à infecção. Tal iniciativa, sobretudo em uma categoria tão conservadora e reacionária como a dos médicos, demonstra que o tom da luta política no país vem mudando.

Ao longo dessas linhas, não busquei contar a minha história pessoal durante todos esses meses de pandemia. Penso que já temos inúmeras histórias de heroísmo maiores e mais merecedoras que a minha. Busquei chamar atenção do leitor para as grandes questões mundiais que ajudam a explicar o drama médico-hospitalar que segue acontecendo Brasil afora e o porquê de alguns países sofrerem tanto com a pandemia, e outros tão pouco. 

Meus olhos de médico, não-estudioso da geopolítica e das relações internacionais, se voltam com admiração para países bem sucedidos no combate à pandemia, como China, Vietnã e Cuba. Tais países têm em comum o fato de conduzirem seus processos políticos em condições internacionalmente adversas, já que ainda hoje lutam contra embargos e sanções econômicas que buscam asfixiar sua economia e destruir seus serviços públicos. Em seus últimos dias de governo, Trump ampliou as sanções econômicas contra Cuba, e a retórica anti-China se expande agressivamente. Devemos tomar lado nessas disputas mundiais que tendem a se aprofundar.

Longos meses ainda nos aguardam até o fim da pandemia. Após seu término, restará um SUS fragmentado e cada vez mais sucateado. Os liberais de sempre argumentarão que é preciso cortar investimentos públicos para compensar os gastos com a pandemia e tentarão se dissociar do bolsonarismo, na tentativa de se mostrar como alternativa moderada nas próximas eleições, conforme já sinalizaram João Amoedo, o Movimento Brasil Livre e o “Vem Pra Rua”, que hoje pedem o impeachment de Bolsonaro. Não nos enganemos: nos momentos mais importantes da nossa história recente, os liberais e a extrema-direita sempre andaram de mãos dadas. Precisamos apontar isso a todo momento. 

Nos tempos que virão após a pandemia, caberá a nós contar os fatos tais como ocorreram: a extrema-direita e os liberais, conspirando em conjunto pela catástrofe. A justiça burguesa não os julgará por isso, mas a história será implacável e certamente não os absolverá. 

Hoje, eu me vacinei. Espero que você, que me leu até aqui, seja o próximo amanhã, e que no futuro estejamos juntos, aglutinados e com saúde para abrir as grandes alamedas da História.

*Anastácio Pimpinela (nome fictício) é médico e durante a pandemia atuou no Pronto Socorro e nas UTIs do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. As opiniões aqui expressas não representam o posicionamento da instituição.