El Salvador: Nayib Bukele contra os Acordos de Paz

Mesmo com o fim do conflito armado, a violência em El Salvador não cessou e o país centro-americano registra um dos piores índices da região. Por Nicolás Retamar | Tradução de Gideão Gabriel para a Revista Opera

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(Foto: PresidenciaSV)

No dia 16 de janeiro de 2021, chegou-se aos 29 anos dos Acordos de Paz firmados no Palácio de Chapultepec, México, depois de 12 anos de guerra civil em El Salvador. O conflito, que se deu durante toda a década de 80 e início dos anos 90, deixou aproximadamente 75 mil vítimas e 8 mil pessoas desaparecidas. Sob o apoio da Organização das Nações Unidas (ONU) e com colaboração da Colômbia, Espanha, México e Venezuela, os Acordos serviram para que o governo de El Salvador e a Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN) pusessem fim a um período de violência sistemática e terror.   

Mesmo com o fim do conflito armado, a violência em El Salvador não cessou e o país centro-americano registra um dos piores índices na América Latina, segundo a taxa de homicídios. Contudo, os Acordos de Paz são uma das conquistas mais importantes (ou a mais importante) na vida política e social salvadorenha e, como é notório, não foram um ponto final, senão um ponto de partida para um caminho extenso, sinuoso e com complexidades múltiplas.    

A transcendência e o significado dos Acordos de Paz pouco importam ao presidente Nayib Bukele, que os ataca cada vez que pode, chamando-os de “farsa’’, “pacto de corruptos’’ e “negociata’’. Bukele, que fora eleito prefeito de Nuevo Cuscatlán em 2012 e de San Salvador em 2015 – ambos  pela FMLN, de onde foi expulso em 2017 –, alterou por decreto a comemoração dos Acordos ao trocar o nome por “ Dia das Vítimas do Conflito Armado’’.

Com a gestão das redes sociais à la Donald Trump (ou Trump ao estilo Bukele), uma narrativa acerca dos Acordos de Paz análoga à do presidente colombiano Iván Duque – quem renega o acordo com as FARC e um setor do ELN, e tem como lema “Paz com legalidade’’ –, e uma abordagem religiosa parecida à de Jair Bolsonaro, o presidente salvadorenho afirmou que o acordo firmado no México foi uma negociação entre duas cúpulas que não trouxe benefício algum ao país.

“Nosso país deve deixar de celebrar a assinatura de um pacto de corruptos e começar a celebrar as vítimas do conflito armado. De agora em diante, 16 de janeiro será o Dia das Vítimas do Conflito Armado. Seus assassinos devem deixar de ser glorificados’’,  escreveu Bukele em sua conta no Twitter, no dia 16 de janeiro.    

No dia seguinte, novamente em suas redes sociais, o presidente reforçou: “devemos ter verdadeira memória histórica, para poder começar, pouco a pouco, a construir a verdadeira paz’’. Com um vídeo governamental que ataca a Alianza Republicana Nacionalista (ARENA) e a FMLN, afirma que quatro dos cinco pontos acordados nos Acordos de Paz não se cumpriram e insiste que “as vítimas do conflito seguem esperando reparação’’; além disso, menciona o período pós-guerra no qual cresceu a pobreza, a corrupção, as privatizações e a dolarização.

Fora alguns debates teóricos e conjunto de questões que o vídeo tem, ninguém poderia opor-se muito ao que é argumentado. O governo de Nayib Bukele, porém, não se caracteriza pelo respeito e pela defesa dos direitos humanos, pela democracia, a soberania, a justiça social e busca pela memória, verdade e justiça.

Em conflito permanente com o Poder Judiciário e o Poder Legislativo, Bukele flertou com um autogolpe de Estado em fevereiro de 2020, quando invadiu o Congresso com seu Ministro de Defesa e as Forças Armadas para amedrontar legisladores e legisladoras e impor sua política a todo custo. Governando muitas vezes por decreto e com algumas decisões freadas pelo Congresso, é o Poder Judiciário quem deve resolver as disputas entre o governo e a Assembleia.   

Estas não são as únicas atitudes “pouco democráticas’’ de Bukele e companhia. Durante 2020, as Forças Armadas, mais de uma vez, negaram ao Poder Judiciário o acesso aos arquivos militares sobre o massacre de El Mozote, operação realizada pelo exército salvadorenho que, entre os dias 10 e 12 de dezembro de 1981, assassinou quase mil pessoas, entre as quais havia mulheres e crianças, tornando-se uma das maiores matanças das últimas décadas na região. 

O presidente de El Salvador não está sozinho nesta empreitada. Conta com o apoio dos militares, da Igreja salvadorenha e dos Estados Unidos, ator chave durante os anos de guerra civil que contribuiu, também, destinando milhões de dólares, logística e treinamento militar aos que combatiam os movimentos guerrilheiros.

Alinhado com o governo, o Arcebispo de San Salvador se negou a permitir o accesso da Justiça  aos arquivos históricos da arquidiocese. Segundo argumentou o Arcebispo José Luis Escobar, o motivo da negativa é proteger as vítimas “contra ambos os lados’’. No entanto, as críticas generalizadas contra a decisão do Arcebispo obrigaram-no a se retratar e permitir que o juiz Jorge Guzmán acesse os arquivos que estão sob poder da Igreja.

  Ainda que pareça loucura, Bukele conta com a aprovação de um setor importante da sociedade salvadorenha. Seu discurso antipolítico, suas formas e manuseio das ferramentas digitais impactaram profundamente  uma parte da população. Segundo o Directorio Legislativo, uma ONG “independente e apartidária que promove o fortalecimento democrático e dos poderes legislativos da América Latina’’ – assim se apresentam no Twitter –, Nayib Bukele é o presidente da América Latina com a melhor imagem positiva, alcançando 93% de aprovação.