Oscar Alemán, a lenda do jazz argentino

Oscar Alemán, artista argentino negro que foi pioneiro no jazz e brilhou em Paris, viveu no Brasil uma infância marginal e pobre. Por Federico Piva | Notas Periodismo Popular - Tradução de Rebeca Ávila para a Revista Opera

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(Foto: Domínio Público)

A vida de Oscar Alemán conta que uma vez houve um homem negro na Argentina que brilhou na Paris dos anos 30, que teve a admiração de Duke Ellington e Louis Armstrong, entre outros, e que, a partir de uma infância atravessada pela perda dos seus pais e pela marginalidade, acabou por se converter em um poliglota musical de alcance internacional. 

O personagem que você está prestes a conhecer teve uma carreira merecedora de um reconhecimento muitíssimo maior do que tem. Com essa simples afirmação, músicos de jazz, amantes da música e alguns outros poucos provavelmente já sabem de quem estamos falando.

Um conselho: podem acompanhar a leitura com a versão deste baião.

Oscar Alemán nasceu na província do Chaco. Sua mãe, Marcela, era uma mulher do povo toba, pianista de profissão. Seu pai, Jorge Alemán Moreira, era uruguaio, violonista e diretor do Quinteto Moreira, no qual estava acompanhado por quatro dos seus filhos, irmãos de Oscar, que se juntou ao grupo aos seis anos para dançar o malambo [dança tradicional da Argentina] e acompanhar o folclore que as cordas da família produziam. 

As coisas não iam nada bem e o pai de Oscar decidiu tentar a sorte no Brasil. Não só com a música, mas também arriscando uma produção de algodão que supunha que poderia dar uma boa renda para retornar à Argentina. No entanto, nada aconteceu como esperavam e depois de pouco tempo receberam a notícia de que Marcela havia falecido, ficando os irmãos mais novos, Herminia e Enrique, sob cuidados de um orfanato. A notícia derrubou a família. Os filhos que estavam no Brasil, todos mais velhos que Oscar, foram abrindo seus respectivos caminhos por contra própria; o pai da família, por sua vez, não pôde suportar a situação e se suicidou.

Com apenas 11 anos, “Oscarzinho” – como era chamado pelos seus conhecidos na cidade de Santos – passou a dormir nos bancos de uma praça, realizando distintas tarefas para sobreviver. Entre elas, abria as portas dos carros que estacionavam na entrada de um cabaré daquela zona. Com isso, e um pouco de ajuda de alguns comerciantes, foi guardando dinheiro até pedir a um luthier seu primeiro cavaquinho, que o acompanharia ao longo da sua extensa carreira. 

Quase por acaso, acabou dormindo na parte traseira de um cabaré e começou a conhecer pessoas da cena artística que reconheceram nele o talento inato não apenas para fazer música – embora não soubesse ler uma partitura -, mas também para dançar e fazer rir. Começou a tocar em tabernas, onde conheceu quem seria o seu segundo pai: Gastão Bueno Lobo, um músico brasileiro que o introduziu à arte do violão e com quem formou a dupla Les Loups (Os Lobos). 

Juntos percorreram o interior do país e conheceram artistas do ambiente musical, como Pixinguinha, através do qual o nosso protagonista descobriu o jazz e começou a praticá-lo escondido de Bueno Lobo. O reconhecimento alcançado pela dupla os levou a Buenos Aires, onde ampliaram o repertório com tango, foxtrote e boleros, em um ambiente onde a cena cultural havia impulsionado o variété, espetáculo ao qual Alemán se adaptava perfeitamente por ser um showman completo.

Nessa época, o tango também o levou a conhecer Enrique Santos Discépolo, Carlos Gardel e outras figuras, conseguindo se sustentar economicamente. Por causa da sua música e dos amigos tangueros, foi contratado pelo selo Víctor para gravar com o violinista Elvino Vardaro, em uma formação que levava o nome “Trío Víctor”.

Nesse contexto, chegavam as primeiras bandas de jazz à Argentina. O bailarino de sapateado Harry Flemming contratou Les Loups e propôs uma viagem à Europa, em que fariam turnês por toda a Espanha e outros países. 

Foi aí que o violonista se consagrou. Pela primeira vez toca em orquestras de jazz e em 1931 forma seu primeiro grupo. Já era apresentado como um violonista do gênero; Bueno Lobo saiu do seu caminho, voltando ao Brasil devido a uma doença e posteriormente suicidando-se. 

Quanto estava submerso na solidão e no whisky por essa perda, Alemán recebeu uma oferta que mudou a sua vida: durante a maior parte dos anos 30, foi membro do music hall de Josephine Baker, um sucesso na Paris daquela época. 

Essa primavera acabou com a invasão de Paris pela Alemanha nazista. O violonista teve que fugir e, depois de passar por alguns países europeus, conseguiu regressar a Buenos Aires. Era voltar à estaca zero, em uma cena cultural dominada pelo tango e onde não tinha o renome que havia conquistado na Europa. Ainda assim, conseguiu formar seu próprio Quinteto de Swing, tocando em rádios, cafés e cabarés, que consagrou gravando com o selo Odeon. Seus shows eram tão únicos que, em termos de popularidade, competiam com as orquestras de Troilo, D’Arienzo e Pugliese.  

Nos anos 50, sua banda já explorava o son cubano, o cha cha cha, a rumba, a milonga e outros gêneros. Aqui, mais uma vez, sua vida viraria de cabeça para baixo: a separação da sua segunda companheira, Carmen Vallejos, o mergulhou em uma profunda depressão, sobretudo porque isso implicou em se distanciar das filhas. Assim começou um longo período de ostracismo. No final daquela década, o jazzista tinha duas úlceras causadas pelo álcool.

Um dos momentos memoráveis na sua vida ocorreu em 1968, quando Duke Ellington, um dos maiores ícones da história do jazz, visitou o país e quis conhecê-lo. Sua admiração por ele era tal que a Embaixada dos Estados Unidos organizou uma homenagem a Alemán. As crônicas contam que, nessa noite, perante um público que não prestava atenção à sua música, foi o próprio Ellington quem levantou a voz para pedir respeito pelo artista em cena.

Sergio Pujol é, certamente, um dos especialistas que mais sabe sobre a vida deste herói do violão que alcançou mais popularidade no exterior do que em sua própria terra. Na sua biografia, Oscar Alemán: la guitarra embrujada (2015), Pujol conta que a relação de Alemán com a música não tinha a ver com um chamado artístico, mas com uma questão de sobrevivência, em que o cavaquinho e o violão foram na verdade seus salva-vidas. 

Sua história esteve atravessada por perdas e reviravoltas próprias de um roteiro de cinema. A disjuntiva entre um músico puramente do jazz e o showman que podia tocar boleros, samba, choros e baiões o acompanhou durante toda a vida, e terminou por selar o requinte da sua obra.

No dia 14 de outubro de 1980, Oscar Alemán, o homem que introduziu o violão no jazz mundial, se despediu deste mundo devido a complicações decorrentes de uma cólica biliar. Sua música, sua obra e sua história merecem outro reconhecimento.