Pandemia, farmacêuticas e a crescente inquietação social

Desigualdade no acesso às vacinas, empobrecimento, desemprego e mais de 2 milhões são os efeitos já visíveis no segundo ano de pandemia. Por Isabella Arria | CLAE - Tradução de Ciro Moreira para a Revista Opera, com revisão de Rebeca Ávila

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(Foto: Mstyslav Chernov)

Com o aumento dos contágios de coronavírus no inverno, em diversos países do hemisfério norte recrudesceram os descontentamentos sociais de todas as classes, ressaltando a má gestão dos recursos sanitários frente à pandemia e a inconformidade dos programas e calendários oficiais de vacinação, assim como as prioridades outorgadas a distintos grupos etários e populações.

Claro, não faltam aqueles delirantes (ou aproveitadores) que elaboram teorias da conspiração em que a Covid-19 não existe, foi fabricada para controlar ou dizimar a população, e que as medidas de contenção são inúteis, um engano, ou parte de um plano para controlar o povo. Acrescente-se a isso aqueles que se empenham em explicar o surto de Covid-19 como um mero projeto de negócios das empresas farmacêuticas.

Há um crescente mal-estar em quase todo o mundo pelos programas de vacinação, particularmente por uma lentidão atribuída ao ritmo de produção e abastecimento dos insumos.

Protestos relacionados à pandemia do coronavírus que flagela o mundo ocorreram no penúltimo fim de semana (23) na Dinamarca, em duas cidades da Holanda, na Espanha e no Brasil, enquanto os Estados Unidos, agora sob a presidência de Joe Biden, voltou a proibir a entrada de viajantes da União Europeia, Reino Unido e Brasil, medida que Donald Trump havia levantado dois dias antes de terminar seu mandato.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Gebreyesus, alertava sobre o que qualificou como “egoísmo dos países ricos e das farmacêuticas” na distribuição das vacinas contra a Covid-19. Explicou que 49 países de renda média e alta já receberam cerca de 39 milhões de doses de vacina, enquanto os países com poucos recursos tiveram acesso a uma quantidade absolutamente ridícula.

A relevância da percepção da população sobre este tema é tanta que, já em 2019, a OMS havia identificado a “relutância à vacinação” (relutância ou recusa a vacinar-se apesar da disponibilidade de vacinas) como um dos dez desafios principais para a saúde global.

O diretor-geral alertou sobre outro fato grave: a desigualdade que está ocorrendo pelos contratos bilaterais firmados entre companhias farmacêuticas e nações ricas, que põem em risco a iniciativa Covax da OMS [N.E: a iniciativa Covax visa garantir a vacina a nações pobres.]

Da mesma forma, a Unesco – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – advertiu sobre a perda aproximada de dois terços de um ano acadêmico em todo mundo devido às quarentenas causadas pela Covid-19 e os efeitos que  800 milhões de estudantes ainda sofrem.

No Dia Internacional da Educação (24 de janeiro), a organização especificou que os alunos que seguem enfrentando interrupções na sua educação representam mais da metade da população estudantil global. Atualmente, 31 países estão com suas escolas fechadas por causa da pandemia, enquanto 48 reduziram os horários.

A Unesco ressaltou que antes da Covid-19, apenas um em cada cinco países demonstrava um forte compromisso com a igualdade na educação através de seus mecanismos de financiamento, e há poucos indícios de que exista uma forte preocupação sobre esse tema nas respostas à pandemia.

Peru e Brasil, dois exemplos

Até 24 de janeiro, quase 20 milhões de casos de Covid-19 já foram registrados na América Latina e no Caribe. O Brasil é o país mais afetado por essa pandemia na região, com cerca de 8,8 milhões de casos confirmados. A Colômbia está em segundo lugar, com mais de dois milhões de infectados, seguida pelo México e Argentina, com cerca de 1,8 milhões de casos. A esses, seguem o Peru, Chile e Equador.

O Peru, com 1.232 mortos por milhão de habitantes, ocupa o primeiro lugar na América do Sul com essa estatística trágica. Os hospitais estão novamente saturados, os doentes morrem sem poder ser atendidos, e crescem as filas para comprar oxigênio em negócios privados que se aproveitam do fato de que, para milhares de pessoas, consegui-lo é a diferença entre viver ou morrer, e então especulam com seu preço.

Enquanto isso, as autoridades observam sem atuar, alegando que o modelo defende o livre mercado. Cenas dramáticas que impactaram o país meses atrás, quando começou a pandemia do coronavírus, e agora se repetem como um pesadelo que retorna.

Entre 14 e 20 de janeiro, pelo menos 78 pessoas morreram literalmente sufocadas nos estados brasileiros do Amazonas e Pará, no norte do país: faltou oxigênio nas unidades de terapia intensiva (UTI), algo que foi parcialmente remediado com o apoio do governo venezuelano.

A situação no estado setentrional do Amazonas é desesperadora, com o colapso do sistema de saúde e a sua capacidade reduzida para produzir oxigênio. Registra 7.051 mortes e 248.561 contágios, o que provocou o colapso do sistema sanitário e chegou a causar o anúncio de um toque de recolher.

Outras mil pessoas morreram na região devido ao colapso dos hospitais. Médicos e investigadores alertam que a tragédia vivida em Manaus pode se estender pelo país. Colapsaram, ou estão à beira do colapso,  os hospitais públicos e privados em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, três principais estados do país.

No sábado (23), milhares de brasileiros saíram pelas ruas em seus automóveis para pedir um impeachment contra Jair Bolsonaro por sua péssima gestão da pandemia. Ocorreram marchas em mais de 20 capitais estaduais, entre elas o Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Belém. O dirigente do Partido Socialismo e Liberdade, Guilherme Boulos, disse que essas marchas pautam o começo de “um levante popular contra este governo genocida”.

“Estamos aqui para anunciar que não vamos esperar até [as eleições presidenciais de] 2022, porque há vidas em jogo. Agora é o momento de derrotar Bolsonaro. Deixará a presidência e irá diretamente para a prisão”, declarou Boulos.

Os negócios das farmacêuticas

A pergunta se repete em muitos dos principais meios de comunicação europeus: por que as farmacêuticas reduzem a quantidade de doses alegando que não poderão produzi-las, quando os acordos com a União Europeia haviam sido feitos há meses e se supõe que  deveriam ter avaliado sua própria capacidade produtiva?

A farmacêutica alemã Pfizer, por exemplo, disse que deve aumentar a produção por causa da imensa demanda que tem recebido. Para poder fazer isso, necessita fechar a fábrica que possui na Bélgica, onde se produziam todas as doses para a Europa, porque era necessário aumentá-la. Curiosamente, a suspensão das produções é só para a demanda da Europa, não se aplica aos Estados Unidos, segundo publicou o jornal italiano Il Fatto Quotidiano.

A Itália ameaça iniciar processos judiciais contra a farmacêutica estadunidense-alemã Pfizer-BioNTech, bem como contra a britânica Oxford-Astrazeneca, devido à redução das doses de vacina contra a Covid-19 acordadas em dois contratos com a União Europeia, anunciou o primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte, depois de ambas as farmacêuticas dizerem que reduzirão a produção de doses no primeiro trimestre de 2021.

Segundo Airfinity, a Pfizer-BioNTech fez a União Europeia pagar 14,50 dólares por cada dose, os Estados Unidos pagaram 19,50 dólares e Israel 28 dólares, enquanto a África do Sul pagou 10 dólares e a União Africana 6,75 dólares. Para a América Latina, não há números. Estados Unidos e Israel, os dois países que pagaram mais, aparentemente não sofrerão efeitos pelo fechamento da fábrica na Bélgica.

A pandemia econômica

A exasperação dos governantes não está relacionada com políticas de saúde pública, nem com teorias da conspiração, mas sim com as desastrosas consequências econômicas das medidas de mitigação adotadas para frear o ritmo das infecções.

As diretrizes de distanciamento social e reclusão deixaram desempregadas centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, acabaram com negócios médios e pequenos, e devastaram de maneira severa setores inteiros das economias, como os serviços turísticos e o transporte aéreo.

A alternativa que se apresenta aos governos é reabrir as atividades produtivas para permitir uma recuperação, com o risco de provocar dessa forma surtos ainda mais severos da pandemia, ou manter e até reforçar as medidas preventivas, colocando grupos populacionais em uma situação de pobreza ou sobrevivência.

Os governos, de maneira geral, têm tentado buscar um equilíbrio entre confinamento e desconfinamento, mas os resultados não são promissores: as reaberturas parciais são insuficientes para impulsionar a recuperação e a manutenção pela metade das medidas sanitárias preventivas não foi capaz de reduzir o ritmo de contágio.

O comércio exterior da América Latina e do Caribe teve em 2020 seu pior desempenho desde a crise financeira mundial de 2008-2009, sobretudo por causa da crise econômica gerada pela pandemia global da Covid-19 e as restrições impostas pelos governos para frear sua propagação. O valor das exportações regionais diminuiu 13%, enquanto as importações reduziram em 20% durante o ano de 2020.

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) assinala que a recuperação dos preços dos produtos básicos e o aumento da demanda nos Estados Unidos, China e Europa geraram condições para uma recuperação incipiente das exportações regionais desde a segunda metade do ano de 2020, melhora essa sujeita a uma considerável incerteza devido às segundas ondas em vários países e à lentidão no acesso à vacinação.

Assim, vem tomando forma a perspectiva alarmante de uma instabilidade social e política – estima-se que mais de 500 milhões de pessoas no planeta podem cair na pobreza como consequência da pandemia –, que de maneira inevitável agravaria a circunstância de penúria econômica e reduziria a força e presença das instituições governamentais frente à pandemia.