Quanto custa a Câmara

Eleição na Câmara deixa claro que oposição não pode ser agrupamento de resignados implorando migalhas; é necessário organizar para o combate. Por Pedro Marin | Revista Opera

0
1101
Presidente Jair Bolsonaro, o presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco, e o presidente da Camara, Arthur Lira, durante sessão de abertura do ano legislativo. (Foto: Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Parlamentares, gerentes, músicos e musicistas, garçons e garçonetes – e outros profissionais. Canapés, champagnes, doces, vinhos, salgados, carnes – e outros consumíveis pelas demais vias. Velhotes dançando como lontras, acompanhando madames decadentes ao som de Zé Vaqueiro e um “Stand By Me” mal entonado. Assim foi a espetacular festa que Arthur Lira, novo presidente da Câmara, deu a 300 convidados, em meio à pandemia, para comemorar sua vitória.

 

“As leis, como as salsichas, deixam de inspirar respeito na medida em que aprendemos como são feitas”, disse o poeta John Godfrey Saxe no século 19. Para ter um aliado à frente da Câmara, pautando seus projetos de lei preferenciais, Bolsonaro cedeu 3 bilhões de reais para os deputados necessários para eleger Lira. É, aparentemente, como elas são feitas, e quanto custa a Câmara.

A ação do general-ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, responsável pela articulação política do governo com o Congresso, foi fundamental para o esquema. “Seria confortável para mim votar no Arthur Lira. Eu poderia vender o meu voto para o Arthur Lira, assim como mais de 200 deputados aqui dentro fizeram […]  Não vendam seus votos, não se deixem seduzir pelo dinheiro do general”, discursou sob vaias o deputado Alexandre Frota (PSDB), que abriu mão de sua candidatura para apoiar Baleia Rossi, candidato apoiado pelo até então presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Os efeitos foram sentidos como uma bomba na véspera da eleição da Câmara, quando a Comissão Executiva Nacional do Democratas anunciou que não comporia o bloco de apoio a Baleia. Logo depois, o PSDB seguiu o DEM. Maia até ensaiou um bom golpe de judô, ameaçando abrir um processo de impeachment. Com isso, travaria a pauta econômica do governo, mesmo que Baleia Rossi perdesse, e concederia ao Centrão uma nova moeda de troca. Atrairia, além disso, todo tipo de conspirador que circunda Bolsonaro. Mas Maia não se atreveu sequer a manter a ameaça, e já na tarde da segunda-feira (1) declarou que não deferiria o impeachment.

A humilhação dos magros 145 votos em Rossi foi compartilhada pelos partidos de oposição que, após meses insistindo na importância de compor com uma direita que usa talheres para evitar o monstro bolsonarista que fala enquanto come, restou como principal pilar de um projeto derrotado; ruína, portanto. Lembraram-se enfim que, apesar dos possíveis relativos modos vitorianos, o DEM continua sendo parte da ameba mal cheirosa que se apelidou Centrão.

Como já vinha afirmando, dois momentos importantes ajudariam a traçar o futuro do governo Bolsonaro: as eleições municipais e as do Congresso. Nessas primeiras, Bolsonaro teve uma estrondosa derrota. Nas do Congresso, uma vitória importante, ainda que ela leve o presidente de novo ao caminho da dependência. Pela primeira ficou traçado o limite de Bolsonaro como constituidor de um novo partido; sem poder e virtú, tendo de recorrer a mungangas extraordinárias, se conservou numa situação de contínua decadência – visível inclusive em seus índices de popularidade. Nessas últimas, impôs um brusco freio aos que, nas últimas semanas, se animavam com a abertura de um processo de impeachment. Não é que ele esteja descartado por completo; seguirá dependendo da perda de apoio de Bolsonaro, entre a população e os símios de coturno que o circundam. Mas o Centrão cobrará o que foi prometido, e seguirá pedindo mais. Enquanto o presidente estiver disposto a pagar, tudo ficará bem.

Estão postas assim as condições para uma aprovação rápida da agenda de Guedes – que deveria vir com Rossi, de qualquer maneira, mas com um certo espaço para a oposição transformar migalhas em convergências ou vitórias autoproclamadas – e também para que alguns projetos importantes para Bolsonaro sejam pautados, dentre eles o excludente de ilicitude; efetivamente uma licença para matar num país com índices de letalidade policial já epopeicos. Guedes declarou que poderá fazer um novo auxílio emergencial para 30 milhões de pessoas em 2021, contanto que haja um “novo marco fiscal”; isto é, que seu projeto de destruição de direitos e investimentos vá sendo aprovado. Agradará seus sócios de rapina e aumentará, ou manterá, a popularidade do governo entre os mais pobres.

O timão das leis custou 3 bilhões de reais, em média 10 milhões para cada deputado que votou com Lira, além de alguns cargos. As salsichas para os miseráveis custarão 9 bilhões, 300 reais para cada. Os partidos da oposição seguirão sendo agrupamentos de resignados institucionais pedindo algumas migalhas mais, à espera de 2022, ou compreenderão que não conquistarão nada a não ser pela menosprezada organização e pelo tão adiado combate?