As histórias não contadas da libertação da Guiné-Bissau

Amílcar Cabral é um nome amplamente conhecido - mas o que aconteceu com as mulheres que ajudaram na luta pela independência da Guiné-Bissau? Por Ricci Shryock | Africa Is a Country - Tradução de Lucas Kuntz para a Revista Opera

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Uma dúzia de adolescentes com vestimenta camuflada, boinas e olhar resoluto estão lado a lado em uma fotografia em preto-e-branco – algumas delas carregam metralhadoras na altura da cintura. No centro do grupo está Amílcar Cabral, com 39 anos na época.

A data é fevereiro de 1964, um ano do início da luta armada pela independência da Guiné-Bissau contra o colonialismo português. Cabral, o líder da luta pela independência, havia chamado um congresso em Cassacá para os militantes do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) se reorganizarem e tratarem de atritos intra-partidários.

Cabral, nesta e em outras fotos parecidas – com óculos escuros, postura desafiadora e o seu gorro de tricô em pleno calor da África Ocidental se tornaria uma imagem icônica em diversos países. Mais de 50 anos depois, a foto ainda é usada para representar a vitória de Guiné-Bissau numa luta que durou 11 anos e também para representar as esperanças pelo futuro. 

Mas e as mulheres em volta do herói?

Nas minhas viagens frequentes para a capital Bissau, para gravar as histórias de mulheres que contribuíram para a luta de libertação, faço questão de ver Joana Gomes. Joana é membro do Parlamento da Guiné-Bissau, um símbolo do PAIGC pós-independência. Dois meses depois de eu conhecê-la, em 2018, mostrei a foto em preto-e-branco no meu celular para perguntar se poderia identificar alguma das meninas na imagem. Ela caiu em gargalhadas e disse “minha filha, claro que eu conheço! Aquela ali sou eu!”, apontando para si mesma na foto. À esquerda de Cabral está Joana Gomes, com 14 anos na época.

Fulacunda, Guiné-Bissau (06/03/2019) – Joana Gomes posa para uma foto na frente do hospital local de Fulacunda, em Guiné-Bissau. Joana, que era médica nas linhas de frente durante a guerra de independência, doou camas para o hospital como parte de sua campanha. (Foto: Ricci Shryock)

Nesta visita, quero perguntar a Joana sobre o momento em que essa foto foi tirada. Sentada no banco traseiro de um táxi azul a caminho de sua casa, meu carro fica preso no trânsito. O tumulto é causado por um funeral próximo à atual sede do PAIGC, ainda um dos maiores partidos políticos no país. O taxista me explica que um importante membro do PAIGC e ex-guerrilheiro havia morrido naquela semana. Pergunto-me por que Joana está se encontrando comigo ao invés de ir ao funeral.

Mulheres como Joana e sua irmã, Teodora Gomes (uma celebrada guerrilheira e uma das líderes do PAIGC) foram personagens cruciais na luta pela independência. Algumas dessas mulheres, como Titina Silá e Carmen Pereira, ambas já falecidas, são lembradas como heroínas; outras, como Francisca Pereira e Teodora, são tidas como lendas vivas. Mas muitas das mulheres que lutaram durante a libertação dizem que os ideais de igualdade de gênero pelos quais lutaram não se concretizaram na Guiné-Bissau independente. O trabalho que muitas mulheres realizaram durante a luta armada, tais como educação e saúde, foram essenciais para vencer a luta pela libertação, mas hoje em dia esses serviços não estão acessíveis para todos em Guiné-Bissau. Mesmo a Lei da Paridade de 2018, que estabelece uma quota de 36% para as mulheres no Parlamento, ainda não se materializou em uma maior representação formal. Nas eleições de 2019, apenas 14 dos 102 membros eleitos eram mulheres.

Hoje, muitos dos guerrilheiros já faleceram. Mas Joana e outras mulheres do movimento que ainda estão vivas têm histórias importantes para contar sobre a sua contribuição para o esforço de libertação e para o avanço da luta para aumentar a participação das mulheres na política. Elas dizem que suas ideias podem ajudar a aumentar a igualdade de gênero no país, que tem tido um histórico de golpes militares e instabilidade política desde a sua independência.

Fulacunda, Guiné-Bissau (06/03/2019) – Joana Gomes (ao centro) instruindo mulheres limpando o hospital local em Fulacunda, Guiné-Bissau. Gomes, que era médica nas linhas de frente durante a guerra de independência, doou camas para o hospital como parte de sua campanha. (Foto: Ricci Shryock)

Quando o nosso táxi finalmente consegue sair do trânsito e chegar na casa de Joana, já é final da tarde. Joana insiste que continuemos a conversa acompanhadas de comida antes de mergulharmos no passado; hoje ela preparou um almoço de cafriela.

Quando nos sentamos, mostro a ela novamente uma cópia digital da fotografia no meu celular. Joana me conta sobre as longas caminhadas que ela havia feito décadas atrás, quando ela viajou para a região rural de Can, entre Quinará e Cassacá, em uma zona libertada no sul do país. A viagem a pé durou vários dias; ela não consegue lembrar exatamente quantos. Ela se lembra de fazer seu 14º aniversário durante essa rota, e de um soldado do PAIGC carregando-a nos seus ombros quando ela ficou exausta. Joana estava marchando por uma razão dolorosa: ela queria confrontar Amílcar Cabral sobre a morte de seu pai, que teria sido morto por um soldado do PAIGC. Ela queria saber se Cabral havia – conforme contaram a ela na época – ordenado a morte dele. Mas ao mesmo tempo ela admirava o líder da libertação e estava encantada de estar em sua presença. “Pela primeira vez, eu tinha a oportunidade de estar com o nosso líder, Amílcar Cabral! Consegue imaginar? Eu estava muito orgulhosa”.

Pouco antes da fotografia ser tirada, Joana lembra que ela e outras meninas receberam um uniforme militar e armas para posar. “Estava um dia quente. A qualquer momento seria o fim do Congresso, imagine quantas pessoas estavam escondidas naquela selva”.

Pergunto o que estava olhando quando a foto foi tirada, e ela me respondeu: “O futuro de Guiné-Bissau”. Ela continua: “Não sei se você entende; naquela época, nós éramos jovens; tínhamos Cabral ao nosso lado; e nós não sabíamos aonde nós iríamos. Não fazíamos ideia de como o nosso país iria ser”.

Bissau, Guiné-Bissau (8 de março de 2019) – Mulheres do PAIGC em Guiné-Bissau se reúnem para um evento no Dia Internacional da Mulher, dois dias antes das eleições legislativas em que uma nova lei estabelecia uma cota de 36% dos parlamentares fossem mulheres. (Foto: Ricci Shryock)

Na visão desenvolvida para seu o país, Amílcar Cabral deixou claro que a luta pela independência incluía a luta pela libertação das mulheres da opressão patriarcal. Ele insistia que houvesse pelo menos duas mulheres de cada cinco posições políticas nas áreas liberadas, e trabalhou para acabar com o casamento infantil e aumentar o acesso à educação para meninas.

“Cabral era um gênio”, Joana disse. “Cabral admirava muito as mulheres. Ele queria que as mulheres guineenses se destacassem, e por isso ele nos deu armas, e deu o título para essa foto de ‘As Mulheres Combatentes’. Quando você olha para a fotografia, você vê mulheres como combatentes, por conta das armas. Cabral queria mostrar que a luta de libertação nacional não era só dos homens, mas também que havia mulheres nas linhas de frente”.

Nem Joana ou suas amigas na fotografia haviam de fato disparado uma arma até então. Na verdade, momentos depois da foto ter sido tirada, ela e as outras entrariam em um pequeno barco que saiu para Conacri, capital da República da Guiné, onde o PAIGC mantinha a sua base de operações durante a luta de libertação, e onde as meninas imediatamente começariam sua educação em uma sala de aula.

“Quando ele te dava um rifle não era para matar alguém, mas para ir para o combate. E foi isso o que fizemos durante a luta, nós fomos estudar e voltamos para a selva na linha de frente, onde nós ficamos até ganharmos a independência.”

Depois de frequentar a escola construída por militantes do PAIGC em Conacri, Joana foi estudar enfermagem em Kiev, na então União Soviética. Ela retornou para a luta como médica nas linhas de frente. “Enquanto médica, eu dei assistência médica para os comandantes. Na linha de frente, há diferentes formas de se lutar”.

Fulacunda, Guiné-Bissau (06/03/2019) – Joana Gomes (ao centro) ensina mulheres a limpar o hospital local em Fulacunda, Guiné-Bissau. (Foto: Ricci Sryock)

“Meu pai estaria muito orgulhoso se me visse na fotografia”, ela me diz. Apesar de sua jornada para Cassacá resultar em seu alistamento na luta, ela não esqueceu a razão que a levou até ali. Joana conta que, após a morte de seu pai, as pessoas lhe disseram que Cabral havia ordenado a sua morte. “Aquilo me causou muita angústia. Meu pai foi morto injustamente. Aquilo me revoltou porque eu sabia quem meu pai era e os valores que levava consigo. Então, quando eu tive a oportunidade de ir para o Congresso, minha preocupação era ver ele, Cabral, e perguntá-lo porquê ele havia matado meu pai”.

Por vários dias, Joana trabalhou junto a Titina Silá, fazendo café para Cabral e os outros enquanto eles faziam reuniões durante o Congresso. Finalmente, Joana conseguiu seu momento a sós com Cabral. Antes que ela pudesse fazer qualquer pergunta, ele se dirigiu a ela e disse que conhecia o seu pai, e antes que Joana pudesse dizer qualquer coisa sobre o seu assassinato, Cabral virou-se para um camarada e disse que o pai de Joana era a “enciclopédia do país”, e que ele seria essencial depois da guerra. “Naquele momento eu percebi o valor de meu pai, porque para Amílcar Cabral dizer algo como aquilo… Eu fiquei calada. Quando ele terminou, percebi que ele não sabia que o meu pai havia sido morto”.

Joana lembra de começar a chorar muito quando perguntou a Cabral – extremamente surpreso com a notícia – sobre a morte de seu pai. “Eu queria por muito tempo estar na frente da pessoa que me disseram que havia matado meu pai. Enquanto eu estava chorando, ele começou a chorar também. Choramos muito juntos. Ele tirou os seus óculos, enxugou as lágrimas e perguntou como ele havia morrido. Um militante chamado Osvaldo se aproximou e disse que ele havia sido assassinado. Amilcar perguntou: ‘Assassinado por quem?’, no que Osvaldo respondeu ‘José Sanhá’”.

Na época, José Sanhá era outro militante do PAIGC, e uma das razões para Cabral ter chamado o Congresso de Cassacá era para abordar alegações de lutas internas nos escalões do PAIGC. Joana conta que Cabral a perguntou se ela teria forças para acusar José Sanhá na cara dele.

Bissau, Guiné-Bissau (08/03/2019) – Bilony Nhama (à esquerda, de camisa branca) é a Secretária Geral para a União Democrática das Mulheres do PAIGC. Ela senta ao lado de Teodora Gomes (no canto direito), que é uma heroína na guerra de independência do país. Em Guiné-Bissau, as mulheres se reúnem para um evento no Dia Internacional da Mulher, dois dias antes das eleições legislativas em que uma nova lei estabelecia uma cota de 36% dos deputados fossem mulheres. (Foto: Ricci Shryock)

“Eu tenho”, ela lembra de dizer a ele. “E se ele não o fez, eu irei fraquejar. Mas eu sei que não irei”. Quando Joana o acusou, José Sanhá negou ter matado o seu pai e disse que o responsável fora seu subalterno, mas seu subalterno negou essa versão da história. 

De acordo com Joana, depois de Cassacá, Sanhá e outros que haviam sido acusados de crimes atrozes foram detidos sob custódia informal. Ele foi enviado para a frente norte, mas no meio do caminho para a base militar foram atacados por forças portuguesas, e os militantes do PAIGC soltaram Sanhá e outros para ajudá-los a lutar contra os agressores. Cabral disse que Sanhá enfrentaria a justiça do povo guineense depois que a luta de libertação fosse vencida. “Mas então a guerra acabou e eles mataram Cabral. E foi assim que José Sanhá foi salvo”.

Após a libertação, Sanhá tornou-se um oficial militar do alto escalão na Guiné-Bissau. Ele foi capaz de agir impunemente no país e com frequência usou sua contribuição durante a libertação como motivo para derrubar líderes democraticamente eleitos. Guiné-Bissau testemunhou pelo menos 10 golpes ou tentativas de golpes desde 1974 (historiadores diferem sobre o número exato). Em um país pequeno como a Guiné-Bissau, Joana e outros parentes de vítimas de José Sanhá muitas vezes tiveram de encontrá-lo em eventos governamentais. Joana lembra ter visto Sanhá em uma cerimônia no centro de operações militares, mas se recusou a cumprimentá-lo. “Eu o vi, mas fiquei longe dele. Nem sequer cheguei perto de onde ele estava. Ele sabia o motivo”.

Agora, pra mim, faz todo sentido Joana não ter ido ao funeral que acontecia em Bissau. Era o funeral de José Sanhá.