“Vindo do interior pra cá, pobre e sem recurso algum, a Livro 7 era meu porto seguro. Não tinha medo de ficar lá”. Corriam os anos 80 quando Ruth Bezerra, nascida em Arapiraca, Alagoas, descobriu um lugar de acolhimento em um Recife atravessado pelas águas e pelo rebuliço – uma Veneza latino-americana, imponentemente enfiada na lama. No centro da cidade, encontrou uma livraria que apontava para o futuro. 

“Sentia-me segura e maravilhada com tantos livros que, ao final das contas, não podia comprar nenhum, mas [ficava] realizada por estar lá. Ficava encantada em observar tantos intelectuais compenetrados ou conversando, e o Tarcísio sempre presente. Encantada, era a minha sensação. Divino, maravilhoso”. A lembrança de Ruth, hoje uma bibliotecária de 59 anos, é uma das milhares sobre a livraria que marcou um ponto de inflexão na cultura e na política da cidade pernambucana nos últimos trinta anos do século XX. 

Nenhum desses relatos seriam possíveis sem a existência de Tarcísio Pereira. Ao abrir a Livro 7, ele não só apostou em algo que alcançaria proporções até então inéditas na história do país: ele abriu alas para que outras pessoas também pudessem passar e brilhar no caminho que pavimentou. No dia 25 de janeiro deste ano, o livreiro e editor faleceu em Recife, aos 73 anos, por complicações decorrentes da Covid-19, após dois meses de internação. Seguia em plena atividade, organizando inclusive encontros virtuais para comemorar os 50 anos da criação da livraria.

É difícil não sentir certo inconformismo pela partida do “livreiro dos livreiros”, como nomeou o escritor Fernando Dourado Filho. Em meio a uma pandemia marcada por mortes politicamente produzidas, cabe lembrar que é sempre tempo de projetar outros futuros melhores. Ao ousar surgir com outras linguagens e formas durante a ditadura militar, foi precisamente isso que a Livro 7 fez. 

Um livro na mão e uma ideia na cabeça 

José Tarcísio Pereira nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, no dia 11 de março de 1947, sendo um dos nove filhos de Cícero André Pereira e Luzia Fernandes Pereira. Mudou-se para Recife em 1961, onde estudou no Ginásio Pernambucano, o colégio mais antigo do Brasil, e cursou História e Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco. Embora não tenha concluído nenhum dos dois cursos, mostrou-se sempre atento ao que orbitava ao redor desses dois campos.

No dia 31 de janeiro de 1964 começou a trabalhar na Livraria Imperatriz, um espaço já tradicional do centro da cidade. Embora manifestasse interesse pelo mundo dos livros desde a infância, foi nesse momento que aprendeu a vendê-los, e começou a trilhar um caminho sem volta.

(Foto: Claudio Marinho)

Em 27 de julho de 1970, abriu as portas de uma ideia: numa pequena galeria do Edifício Amaraji, na Rua 7 de Setembro, inaugurou a Livro 7 em um espaço de cerca de 20m². Apenas dois anos depois, alugou uma loja vizinha para ampliar a livraria. Mesmo assim, já não conseguia comportar todo o burburinho que ecoava ali, e em 1974 a livraria saltou para o outro lado da rua, estabelecendo-se em um casarão e crescendo em metros quadrados, ofertas de títulos e histórias para contar. Chegou a ter cerca de 1200m², tornando-se a maior livraria do Brasil durante alguns anos, com filiais no Rio Grande do Norte, Alagoas e Paraíba.

O seu grande trunfo, porém, não era o tamanho por si só. Funcionando de maneira colaborativa, naquele labirinto também vendiam-se discos, organizavam-se exibições de cinema em Super-8, sessões de autógrafos e lançamentos de livros. Havia até um teatro. É muito provável que o modelo de Tarcísio tenha influenciado a onda de livrarias gigantescas que se expandiu pelo país – e que agora está em crise. 

Paulo Cavalcanti, Tarcísio Pereira, João Cabral de Melo Neto e Ariano Suassuna em evento na Livro 7, na década de 80. (Foto: Acervo pessoal)

Essas iniciativas proporcionavam a circulação de figuras como João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Gregório Bezerra, Osman Lins, Ana Montenegro, Fernando Sabino, Jomard Muniz de Britto, Giocondo Dias, Gilberto Freyre, Miguel Arraes e Sidney Sheldon (que teria pedido um jatinho como condição para fazer uma noite de autógrafos na cidade). A chance de interação entre autor e leitor também foi mais um motivo para o deslumbramento coletivo que a Livro 7 conseguiu gerar. Tinha algo de instituição, porque conseguia mediar encontros, construir pontes, movimentar toda uma cena cultural; mas também era um templo atípico, um ambiente etéreo capaz de tecer lembranças múltiplas de famílias que levavam os filhos pequenos, estudantes que folheavam páginas por horas a fio, sem dinheiro no bolso – o porto seguro de Ruth e de outras tantas juventudes que ali floriram.

A Livro 7, “uma das mais ousadas”

No entanto, enquanto para alguns a Livro 7 era um porto seguro, para outros era uma barricada. Em 1964, pela vitrine da Livraria Imperatriz, o então funcionário Tarcísio viu a ditadura militar passar diante dos seus olhos: os tanques na rua impunham um novo capítulo na história do país.

Em entrevistas, Tarcísio comentava que abriu o estabelecimento percebendo que não existia no mercado uma livraria especializada no setor de Ciências Sociais. O livreiro não só preencheu essa lacuna, como também fez circular produções de outros campos que não tinham espaço nos meios comerciais tradicionais. De textos políticos sob a mira dos militares a projetos culturais que tinham dificuldade em conseguir distribuição, todos tinham na figura de Tarcísio uma ponte, um apoio, um facilitador. 

(Foto: Acervo pessoal)

Destacava-se a circulação de panfletos e a venda de jornais da imprensa alternativa, como O Pasquim, Opinião, Movimento e o CooJornal, da Cooperativa de Jornalistas de Porto Alegre. Também havia publicações editadas por movimentos de esquerda em parceria com associações, como a Folha Sindical, que tinha auxílio do Centro de Estudos Josué de Castro, de Recife, e do Centro de Estudos e Ação Social (CEAS), de Salvador, também responsável pelo Caderno do CEAS.

Um caso especial foi a relação com o Papa-Figo, o jornal recifense que “não recebia dinheiro de ninguém para falar mal de todo mundo”: lançado no fim de 1984, só não contou com uma propaganda da livraria de Tarcísio na sua primeira edição. Nas páginas de anúncios do veículo, o livreiro se metamorfoseava na figura de um revolucionário Lenin potiguar – impossível confundi-lo, porque era desenhado com a boina característica que incorporou ao vestuário nos anos 70 e nunca mais largou. O jornal chegou até a fazer uma cobertura sobre uma festa de aniversário de Tarcísio.

Anúncio da Livro 7 no Papa-Figo. (Foto: José Teles)

A livraria também apoiou iniciativas feministas a nível nacional, desde empreitadas na imprensa – como a venda do jornal Brasil Mulher e o lançamento da revista Presença de Mulher – ao patrocínio de eventos como o IX Encontro Nacional Feminista em Garanhuns, no agreste pernambucano. Em visita a Recife em junho de 1982, Ana Montenegro lançou ali o livro “Ser ou Não Ser Feminista”, após proferir palestras na Livraria Síntese (outro ponto-chave da cidade, a cargo da livreira Suely Pereira, irmã de Tarcísio, e do marido Murilo Alves) e nos bairros de Peixinhos e Jardim Brasil, a convite de associações de moradores.

A cena cultural pernambucana também saiu ganhando com a existência da Livro 7. O espaço sediou a I Semana do Autor Pernambucano em 1984, onde ocorreu uma exposição sobre o movimento O Gráfico Amador (com curadoria de Paulo Bruscky); abrigou as iniciativas Disco 7, Bar 7 e Cordel 7; patrocinou espetáculos teatrais; foi uma das primeiras livrarias na cidade a estimular a circulação da literatura negra; foi ponto de encontro dos escritores da Geração 65 e lugar garantido de vendas das emblemáticas Edições Pirata. Atento às assimetrias do mercado editorial a nível nacional, Tarcísio observava que os livros dos autores locais vendiam bem – até melhor do que os do eixo sul-sudeste -, mas eram prejudicados pela má distribuição. No final dos anos 70, cerca de 20% das suas vendas vinham da literatura, um número considerado alto.

Tudo isso acontecia com um violão circulando pelo espaço, proporcionando serões embalados por Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Cátia de França, Robertinho do Recife e outros tantos nomes. Também é digna de nota a batida de fruta que era servida e roubava a cena naquelas noites, a ponto de marcar a memória gustativa de muitos.

O clima de festa transbordou os limites do estabelecimento e inspirou a criação da Troça Carnavalesca Independente Nóis Sofre Mas Nóis Goza, em 1976. Com concentração na porta da Livro 7, o bloco saía da Rua Sete de Setembro e seguia até o Pátio de São Pedro, onde pegavam um ônibus alugado rumo a Olinda e lá ficavam até as 22h. Era, portanto, um bloco intermunicipal para foliões perseverantes, sob a batuta de Tarcísio e seguido por amigos fiéis. Realizavam bailes e competições de fantasias, tinham microfone aberto para críticas, publicaram um livro, lançaram um curta-metragem e mantinham o espírito de generosidade: no carnaval de 1981, concederam entrada gratuita no baile para os 140 professores da UFPE e sete da UNICAP que haviam sido despedidos

Tarcísio comandando o carnaval do Nóis Sofre Mas Nóis Goza. (Foto: Acervo da agremiação)

Tamanho pioneirismo acabou lhe rendendo um monitoramento atento por parte da agência recifense do Serviço Nacional de Informações (SNI). Entre 1976 e 1981, pelo menos, a Livro 7 figurou em relações das principais livrarias que estavam “expondo abertamente em suas prateleiras livros de ideologia marxista” sem censura prévia dos organismos responsáveis. O assunto dos relatórios foi mudando ao longo dos anos; no entanto, fossem “livrarias especializadas em literaturas esquerdistas” ou “livrarias especializadas em literatura subversiva”, era constante o destaque da Livro 7 como “uma das mais ousadas”.

As filiais nos outros estados também foram monitoradas. Em um documento formulado pelo então Centro de Informações do Exército (CIE) em 1981, que concentra as livrarias do Brasil que importavam livros de esquerda, todas elas são citadas – diz-se, inclusive, que a filial de João Pessoa era uma das livrarias com maior número de vendas de livros do tipo. Neste mesmo ano, a Agência Central do SNI observou que “o processo de abertura política que o Governo vem paulatinamente conduzindo, ao mesmo tempo em que vem garantindo a liberdade de expressão, propicia, em consequência, o avanço da Propaganda Adversa, notadamente aquela de conteúdo ideológico”, embora também reconhecesse que “as obras que apresentam um grau de penetração maior no mercado literário são aquelas definidas como de ‘leitura mais facilmente digestiva’, isto é, as que não apresentam maior profundidade político-ideológica (…). As obras consideradas fundamentais de doutrina marxista-leninista, ou seja, aquelas que possuem maior envergadura ideológica (…) têm, na realidade, pouca circulação e se autoconsomem na medida em que são lidas por um público que já tem a sua posição política definida”.

Trecho de documento secreto do SNI sobre venda de panfleto considerado subversivo na Livro 7, em 1975. (Foto: Arquivo Nacional)

Tarcísio chegou a prestar esclarecimentos na Polícia Federal sobre a venda dos livros censurados, e por telefone e carta recebeu ameaças anônimas dizendo que as filiais seriam incendiadas. Mesmo após a transição democrática, continuou a ser observado: tendo sido nomeado Diretor-Presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE), foi identificado como “ativista de esquerda” em uma lista do SNI sobre a “infiltração comunista na área da administração pública e estadual de Pernambuco” elaborada em 1988. 

Minha ciranda não é minha só

Embora a ditadura militar tenha pairado sobre a Livro 7 durante grande parte do seu funcionamento, foi o ajuste neoliberal dos anos 90 que a asfixiou de vez. Em efeito dominó, as reformas econômicas relegaram à decadência o movimentado centro histórico da cidade, restringiram o poder de compra do público e provocaram uma altíssima inadimplência no Cred-sete, cartão da livraria utilizado por cerca de 60 mil clientes. A virada do século foi uma sentença. 

Nos anos 2000, Tarcísio investiu no ramo editorial. Após experiências breves com os projetos Livrosite e Livro Rápido, criou a Editora Tarcísio Pereira, em atividade desde 2012. Também atuava como Presidente do Conselho Editorial e Superintendente de Marketing da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). O bloco Nóis Sofre Mas Nóis Goza continuou a sair nos carnavais recifenses, embora reduzindo o percurso original – um sinal da irremediável passagem do tempo, que desafiou a perseverança dos corpos que lançaram a troça em 1976. O que não mudou foi o ponto de concentração: o número 329 da Rua Sete de Setembro, onde existia um casarão que abrigava livros e mundos. 

Contar a história da Livro 7 é também contar a vida do seu criador. A escritora e vereadora Cida Pedrosa, vencedora do Prêmio Jabuti de Poesia 2020 e amiga do livreiro, escreveu que “com o coração e portas abertas para receber estudantes de todas as classes sociais e promover escritores ainda anônimos, Tarcísio Pereira escreveu um belo e definitivo capítulo na história cultural de Pernambuco e deu uma imensurável contribuição à educação”. Ao investir naquele espaço, o potiguar acolhido por Recife não só se inscreveu na memória da cidade; passou a ser uma peça-chave para milhares de trajetórias que cruzaram a sua, que não ficaram indiferentes ao seu semblante sublime – e nesses encontros também se conta a sua vida. Havia, efetivamente, algo de sideral na voz grave, simultaneamente firme e gentil, na sua surpreendente memória, e na sua quase imutável imagem, sempre de boina, cavanhaque e roupas azuis, que usava ininterruptamente desde 1975. Um anjo azul, como nomearam os amigos.

Recife é uma cidade que parece ter a desaparição como sina. É, marcadamente, a metrópole dos espaços que estavam, mas já não estão. Por outro lado, é também uma cidade que não esquece – e nessa dinâmica tensionada se impõe uma admirável forma de permanência, no lugar do vazio. A Livro 7 é daquelas coisas que foram, mas ficam. Tarcísio, que também foi um acontecimento, transcende, torna-se monumento. Materializa a atemporal imprescindibilidade de contornar a monotonia e ousar celebrar a vida em multidão. Dizia, não por acaso, que o importante é que a emoção sobreviva.