A “descoberta” do Partido Fardado e as perguntas que não querem calar

Apesar da repentina “descoberta” de que Partido Fardado está vivo e atuante, ainda ficam no ar perguntas a serem respondidas. Por Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: Palácio do Planalto)

Em um famoso encontro com o general vietnamita Võ Nguyên Giap, anos depois da guerra na qual fora humilhado, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert MacNamara, disse que não haveria razão para o envolvimento norte-americano na guerra se os guerrilheiros tivessem dito que não pretendiam conquistar a Indochina. Giap respondeu, simplesmente: “Estava escrito no nosso programa. Por que vocês não acreditam no que leem?”.

O professor Wilson do Nascimento Barbosa, que cita a passagem em seu Escritos Estratégicos, arremata: “Giap se referia à mentira sistemática praticada pela suposta civilização ocidental. Como um mentiroso crônico, doente, como um governante ocidental, iria acreditar na sinceridade do próximo? Problema certamente insolúvel.”

Nas últimas semanas testemunhamos no Brasil um problema similar, mas com caminho contrário. É que os militares passaram anos agindo, demonstrando abertamente suas intenções sinistras, mas uma certa intelectualidade, autoridades e dirigentes de esquerda, aparentemente só se deram conta dos perigos quando o general Villas Bôas confessou tudo em livro. Às palavras de MacNamara poderia se atribuir uma exagerada malícia; ao silêncio de nosso campo, uma estrondosa ingenuidade.

Tendo olhado atentamente aos militares nos últimos anos, confrontando-me ontem com alguns dos problemas aparentemente percebidos hoje e concebendo no caminho um livro para tornar tais problemas públicos, não quero tomar mais o tempo do leitor com a repetição de palavras a essa altura cansadas, nem apontar dedos e acusar oportunismos, ainda que talvez merecidos em alguns casos. Proponho um caminho mais honesto e construtivo, já que os militares foram enfim descobertos, para que os descobridores se ponham agora a fazer algumas perguntas:

Primeiro – em agosto de 2019 o ministro Dias Toffoli, então presidente do STF, declarou em entrevista à Veja que, durante uma “crise institucional” ocorrida em abril daquele ano, “um dos generais próximos do presidente” consultou um ministro do Supremo Tribunal, “para saber se estaria correta a sua interpretação da Constituição segundo a qual o Exército, em caso de necessidade, poderia lançar mão das tropas para garantir ‘a lei e a ordem’”. Isto é, consultou um ministro do STF sobre a constitucionalidade de um golpe. Não cala a pergunta: quem foi o “general próximo do presidente”, e com qual ministro ele falou? O senhor Toffoli certamente pode responder.

Segundo – há algumas semanas, dias antes das eleições para a presidência da Câmara e Senado, um assessor do vice-presidente-general, Hamilton Mourão, teria trocado mensagens com deputados no sentido de articular uma possível sucessão de Mourão à presidência. O assessor declarou que fora hackeado; a vice-presidência declarou que o vazamento era inverídico e, ao fim, o vice-presidente-general disse que o assessor agira sem seu consentimento, demitindo-o. Afinal, o assessor foi hackeado? Se sim, por quem? O vazamento era falso? O assessor do vice-presidente de fato agiu por suas costas? De certo o assessor Ricardo Roesch pode nos esclarecer.

Terceiro – em 30 de abril, o decreto que instituiu a Operação Verde Brasil na Amazônia se extinguirá. Os militares deixarão a região, restringindo sua presença a 11 municípios. A pergunta: o que os militares fizeram na Amazônia nestes últimos anos, a tão elevados custos? Se houve aumento nos índices criminais na região, nas queimadas, nas invasões, na mineração ilegal, eles não devem ser responsabilizados? Não são os generais – dentre eles, Mourão, presidente do Conselho da Amazônia – tão responsáveis quanto o inepto ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, contra o qual todas as bocas falaram em meio ao silêncio sobre os fardados?

Quarto – os militares continuamente apontam possíveis cenários caóticos no horizonte. Como os militares se comportariam em um cenário de ampla revolta popular? O que fariam se algo similar a junho de 2013 ocorresse hoje? Se tivéssemos manifestações massivas, como no Chile, ou se grupos civis efetuassem bloqueios e atos de rua pedindo a cabeça de algum governador, como ocorreu na Bolívia com o presidente Evo Morales?

Quinto – o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, certa feita, disse que para fechar o STF bastavam “um cabo e um soldado”. O atual vice-presidente-general, Hamilton Mourão, falou no passado, respondendo a uma pergunta sobre um golpe, em “aproximações sucessivas” caso o “problema político” não fosse resolvido. Em entrevista à DW, perguntado sobre declarações protogolpistas de Bolsonaro, disse que não se trata de “conversa perigosa”; “é perigoso quando você tem poder de fazer o que quer, mas ninguém tem poder de fazer o que quer aqui no Brasil.” Pergunta: os militares, que fundaram a República às espadadas, participaram do Golpe de Três de Novembro, fizeram a Revolução de 30 e participaram do governo Getúlio, fizeram o Estado Novo para depois golpear o presidente, e por fim estabeleceram a larga noite, em um abril de 1964, não podem fazer o que quiserem? Se sim, o que querem?

Sexto – o presidente Jair Bolsonaro agradeceu ao general Villas Bôas, um dia depois de sua posse, dizendo que o general era o responsável por ele conquistar o cargo e que o que conversaram “morreria com ele”. Já que o presidente fez esse irreversível pacto de morte, por que Villas Bôas não detalha ao público ao que ele se referia?

Sétimo – se o Brasil vivesse algo similar à Invasão ao Capitólio norte-americano pelos apoiadores de Trump, os militares defenderiam o prédio ou o atacariam? Comprometeriam-se com a legalidade ou com os invasores? E se vencesse em 2022 um candidato que não os agradasse, comprometido com uma reforma para levar os coturnos de volta à caserna, mexendo no artigo 142 da Constituição, como reagiriam?

Oitavo – em uma entrevista de junho de 2020, em meio a mais uma “crise institucional”, o ministro-chefe-general da Secretaria do Governo, Luiz Eduardo Ramos, deu a seguinte declaração: “Fui instrutor da academia por vários anos e vi várias turmas se formar lá, que me conhecem e eu os conheço até hoje. Esses ex-cadetes atualmente estão comandando unidades do Exército. Ou seja, eles têm tropas nas mãos. Para eles, é ultrajante e ofensivo dizer que as Forças Armadas, em particular o Exército, vão dar golpe, que as Forças Armadas vão quebrar o regime democrático. O próprio presidente nunca pregou o golpe. Agora o outro lado tem de entender também o seguinte: não estica a corda.” Pergunta: esses ex-cadetes, hoje com tropas nas mãos – fato que o general aponta tão proficuamente -, também não consideram “ultrajante e ofensivo” dizer que a ditadura militar foi… uma ditadura militar? O que é “esticar a corda”? E, se esticar, arrebenta?

Nono – recentemente um minotauro descerebrado com cargo parlamentar foi preso, após proferir, de seu labirinto, alguns impropérios contra integrantes do STF, em defesa do general Villas Bôas. O general, por sua vez, confessou o que era óbvio – que a mensagem que disparara pelo Twitter às vésperas do julgamento sobre o habeas corpus do ex-presidente Lula era um “alerta”. Pergunta: é constitucional que o comandante do Exército “alerte” o Supremo Tribunal? Não cabe, no mínimo, que ele seja convocado a prestar esclarecimentos? Se o ministro Edson Fachin considera o episódio “intolerável e inaceitável”, por que o STF o tolera e o aceita?

Décimo – por fim, prevendo que para tais perguntas não haverá respostas, proponho uma à qual não se deve nunca responder, mas à qual é necessário sempre remeter o pensamento: se os militares se comportarem hoje como se comportaram ao longo de toda a República, o que farão as organizações de esquerda? O que fará o Congresso? O que fará o Supremo? Estamos prontos para reagir, ou repetiremos o deprimente espetáculo do 1º de abril de 1964? Acima de tudo: o que podemos fazer hoje para, adiantando-se ao tempo, estarmos preparados para a tempestade?