Chávez eterno

Com uma clareza estratégica de poucos, não se pode pensar na história recente da Venezuela sem pensar em Chávez. Por Fernando Toyos | Notas Periodismo Popular - Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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(Foto: Prensa Miraflores)

Embora a história não seja produto da iniciativa individual, como o liberalismo gosta de mentir, existem certas personalidades que – cada uma com suas causas e riscos -, acabam desempenhando papéis transcendentes nos acontecimentos históricos. Hugo Chávez, sem dúvida, é uma dessas figuras excepcionais: carismático como nenhum outro, com uma clareza estratégica de poucos e, como se não bastasse, com uma sólida formação teórica, política e histórica, não se pode pensar na história recente da Venezuela sem se deter frente à sua figura.

1 – Maisanta

Hugo Chávez nasceu em 28 de julho de 1954 na cidade de Sabaneta, localizada no estado de Barinas, território popular no oeste da Venezuela.

Pertencente aos llanos, região rural de produção agropecuária e histórias de homens a cavalo, o jovem Huguito teve seu primeiro encontro com a história venezuelana a partir da polêmica figura de Maisanta. Diz-se que Pédro Pérez Delgado, tal o nome legal deste personagem, teria sido o bisavô de Hugo e seus irmãos. O menino Hugo teve que sofrer a angústia de acreditar, como se dizia em Sabaneta, que Maisanta fora um assassino implacável, que tirara a vida de um militar.

Segundo averigou o próprio Chávez, em uma das anedotas compiladas por Orlando Oramás León e Jorge Legañoa Alonso, o caso tratou-se de uma defesa da honra de sua irmã, Petra Pérez Delgado, que engravidara do coronel Masías, que “não reconheceu a barriga”. Em seguida, Pedro Pérez Delgado, de 15 anos, “disparou quatro tiros” contra Masías e partiu para lutar junto ao libertador Ezequiel Zamora, antes de ser morto em represália. Um velho soldado estacionado no Cuartel de la Montaña, onde hoje repousam os restos de Chávez, conta a história do apelido: ao se lançar à batalha, Pedro Pérez gritou: “Mai santa (santa mãe), são muitos!”

Um elemento mais completo da mística: derrotada a insurreição de 4 de fevereiro de 1992, Chávez recebeu, na prisão de Yare, o escapulário de Maisanta, que exibiu publicamente em mais de uma ocasião.

2 – O “Chicote” Chávez

O jovem Hugo era fanático pelo beisebol, esporte muito popular na Venezuela e em Cuba. Era admirador, por coincidência, de Isaías “el Látigo” (o Chicote) Chávez, ídolo do clube Magallanes.

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Foi seu amor pelo beisebol que o levou a se matricular na Academia Militar: por ser um jovem pobre, era a única chance que teria de jogar profissionalmente, como ansiava. Chávez disse que viajou a Caracas sem a permissão dos pais, para tentar a sorte nas Forças Armadas, sob a proteção de um tio que o recebeu em sua casa e o levou no dia seguinte para o teste do time.

Apesar de ter “passado raspando” em uma matéria, seu bom desempenho no teste de beisebol lhe rendeu a inscrição provisória na Academia. “Marque bem aquele canhoto”, disse o treinador.

3 – O velho comunista

Muito se fala sobre as Forças Armadas venezuelanas possuírem um certo componente antiimperialista pelo qual se destacam em uma região acostumada a seus exércitos serem braços armados das oligarquias e das burguesias locais. Embora isso seja verdade, e muitos dos camaradas de Chávez no Exército terem depois acompanhado o processo chavista, a formação política de Hugo não começou ali.

Com apenas 12 anos, o “arañero de Sabaneta” – como Chávez era chamado por causa dos doces (arañas) que vendia nas ruas – conheceu José Esteban Ruiz-Guevara, um “velho sábio e comunista”. Segundo o biógrafo de Chávez, Modesto Guerrero, Ruiz-Guevara, que sabia muito sobre o lendário guerrilheiro Maisanta, apresentou Hugo às questões fundamentais da história política e social da Venezuela. Militante comunista, ele havia sido secretário-geral da seção de Barinas de seu partido na década de 1950.

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“Talvez tenha sido na casa de Ruiz-Guevara, em Barinas, onde Hugo Chávez recebeu os primeiros venenos do marxismo, as histórias sobre a façanha de seu avô Pedro Pérez Delgado, Maisanta, que Ruiz-Guevara tinha na ponta da língua, além dos encantos revolucionários daquele incendiário ‘livro de poesia’ chamado Manifesto Comunista”, escreveu Guerrero.

4 – O juramento de Samán de Guere

Se Chávez entrou na história política da Venezuela com o famoso “por enquanto” com o qual reconheceu a derrota da insurreição civil-militar que comandou, a história clandestina dessa insurreição começou vários anos antes. Em 1979, junto com seus colegas, fundou o Exército Popular de Libertação da Venezuela (EPLV), o primeiro antecedente do Movimento Revolucionário Bolivariano-200 (MBR-200).

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Este último nasceu em 1983, 200 anos após o nascimento de Simón Bolívar, com um juramento proferido perante o Samán de Guere, uma árvore histórica visitada por Bolívar em seu caminho por Aragua. Com base no juramento de Bolívar no Monte Sacro, dizia:

“Juro pelo Deus dos meus pais, juro pelo meu País, juro pela minha Honra, que não darei tranquilidade à minha alma, nem descanso ao meu braço, até que veja as correntes que oprimem o meu povo pela vontade dos poderosos se quebrarem. Eleições populares, terras e homens livres, horror à oligarquia”.

5 – Sempre Fidel

Embora Chávez tenha assumido a presidência em 1999, foi somente com a derrota do golpe de 2002 que, no marco de uma radicalização do processo, assumiu a perspectiva socialista.

Como conta Guerrero, a influência de Fidel Castro foi fundamental nessa transição, de um Chávez que postulava sua adesão à “Terceira Via” de Tony Blair – socialdemocrata inglês, cúmplice da invasão ianque ao Iraque – para o autodenominado “Socialismo do Século XXI”. Como o resto do mundo, Fidel e o povo cubano souberam de Chávez naquele 4 de fevereiro e, uma vez libertado da prisão, o receberam com os protocolos próprios de um chefe de Estado, em 13 de dezembro de 1994.

A influência do líder histórico da revolução cubana foi fundamental em várias ocasiões, contrariando a ascendência de elementos como Norberto Ceresole, um sociólogo argentino com ideias corporativistas. Mas a situação mais importante, talvez, seja o momento em que Fidel salvou Chávez do suicídio político. Em 11 de abril de 2002, no meio do golpe, disse ao bolivariano que resistia em Miraflores: “Não se imole, não renuncie!” O resto é história.