Três das grandes narrativas clássicas do mundo ocidental emergiram da Guerra de Troia: a Ilíada e a Odisseia, atribuídas a Homero, e a Eneida, escrita por Virgílio. São todos poemas épicos, que tratam de deuses e heróis com os destinos entrelaçados pela guerra. Ilíada conta a história da guerra em si; Aquiles, bom e bravo, destinado às batalhas, abandona seus homens, desmotivado pela captura de Criseida. Na Odisseia, o centro da narrativa é um Ulisses que, depois de convencer Aquiles a retornar à guerra e vencê-la, passa dez anos tentando o regresso à sua cidade natal, onde sua esposa é cortejada por centenas de homens e seu filho – agora um adulto – o aguarda. A Eneida, por fim, narra os feitos de Eneias, um troiano salvo da Guerra de Troia que parte para o Lácio, onde fundará um novo Estado.

Essas três obras tiveram grande importância na construção de estados – o grego e o romano – e para nortear o comportamento e a cultura de seus homens. No entanto, um aspecto histórico interessante é que, a despeito de todos os mitos, histórias, filmes e espetáculos, há discussão sobre a veracidade histórica da Guerra de Troia, com alguns autores argumentando que o conflito descrito na obra de Homero corresponderia na verdade a um agrupamento de conflitos ocorridos em diferentes locais e épocas. A discussão remete já a Tucídides, que anota no seu História da Guerra do Peloponeso algumas inconsistências e exageros na obra homérica. Ainda assim, escreve Tucídides que a guerra se estendeu “não tanto [pela] escassez de homens quanto à falta de recursos; por carência de provisões, levaram um exército reduzido e restrito ao número de homens que esperavam poder manter com recursos de lá mesmo, quando em luta; mas, depois que chegaram e venceram o combate […] vê-se que não usaram de todas as suas forças, mas que se dedicaram à cultura da terra do Quersoneso e à pirataria, por carência de provisões”.

Hoje vivemos nós uma guerra encarniçada, a nível global. A metáfora irrita alguns, mas não a uso como uma metáfora. É guerra de fato. Na época em que vivemos, não faltam provisões para o combate ao inimigo invisível que subitamente se apresentou. Há respiradores, hospitais, distanciamentos, máscaras, isolamentos, lockdowns, ciência, e o surgimento de vacinas sempre esteve no horizonte. Há recursos suficientes para que ninguém padeça por falta deles. Mas, ainda assim, vão-se às centenas de milhares.

A guerra contra o coronavírus não é uma guerra de fuzis e baionetas, mas ela coloca no centro da rotina dos povos uma interrogação: quanto custa impedir a morte? Quantos, quem, como e onde morrerão? Mao fixou que a política é guerra sem derramamento de sangue, e a guerra, política sangrenta. A economia assombra ambas perpetuamente; move-se na política em função dela, e a guerra costuma estalar quando as soluções sobre a distribuição dos recursos e riquezas não podem ser satisfeitas pela política. Não fica a relação perfeitamente clara quando, em Tucídides, aprendemos que uma guerra se prolongou pela falta de recursos, e quando, em Bolsonaro, aprendemos que “a economia” não pode parar nem quando a disneylândia do agropop é adubada por corpos? Não está cristalino do que se trata quando muitos são jogados à morte, por supostamente não poderem impedir sua marcha, enquanto poucos da marcha lucram? Não é guerra quando, sendo vacinas e insumos as ferramentas da vida, Estados tomam-nas para si enquanto as negam a outros povos?

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Gauden Galea – que não é romano, mas suíço, e não é poeta, e sim representante da Organização Mundial da Saúde na China – traçou o prólogo da possível epopeia de nossa guerra global ao dizer que o isolamento realizado em Wuhan e Hubei foi “sem precedentes na história da saúde pública”. No panegírico sobre o primeiro campo de batalha, na qual não se combatia só um inimigo invisível, mas também desconhecido, se diria que dez mil voluntários se apresentaram em dez horas após a convocação; que mais de 42 mil trabalhadores da saúde foram mobilizados pelo Estado; que 34 mil funcionários e trabalhadores do governo trataram de procurar e atender infectados. E que, assim, somente 4.636 chineses morreram.

Haveria loas também a outros povos. Se mencionaria como uma nação de “rice-eaters” (comedores de arroz), décadas depois de se embrenharem nas florestas tropicais da Indochina e se tornarem arquitetos de esconderijos para combater os invasores, foi convocada pelos alto-falantes da guerra a se esconder mais uma vez – dessa vez dentro de suas casas – para impedir a invasão do vírus. E que, assim, somente 35 vietnamitas morreram.

O esforço de uma pequena ilha – de Cuba, não de Creta – também não passaria despercebido. As linhas da epopeia falariam de um povo que vive completamente isolado da economia global, mas é o mais solidário do planeta; ele voa longe para ajudar onde quer que seja chamado, inclusive nas terras de Virgílio. E, não contente, ainda em isolamento, mobiliza seus cientistas e médicos para a alquimia das vacinas. E assim deixaram de morrer muitos, em muitos lugares; e mortos em Cuba foram somente 384.

A epopeia, no entanto, não foi escrita. As grandes obras midiáticas de nosso tempo ignoram as ilhas e os camponeses, e falam da “ação sem precedentes na história da saúde pública” como um “tempo sem precedentes de autoritarismo e vigilância”, apontando seus dedos, do alto das pilhas de corpos, contra os “erros da China”, enquanto elogiam como defensores da liberdade os mesmos tipos de demônios que, em nossas terras, invadem hospitais. Foram acompanhados, é bom que se diga, por algumas das mentes declaradamente mais esclarecidas desse mundo. Se fizeram dessas epopeias um bestiário, em que gênero descreverão Bolsonaro?

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A despeito de não termos motivo para nenhum tipo de alegria, tomo de uma comédia – a Divina de Dante – um parágrafo apropriado para o que venho escrever: “Abandonai toda a esperança, ó vós que entrais”.

O inferno é tão profundo que muitos dos que vinham vivendo no purgatório confundem-no hoje com o céu; no momento em que escrevo, mais de 287 mil caixões já compõem os degraus da escadaria, e as cornetas e gemidos anunciam todos os dias quase três mil escalões novos.

Há em tudo confusão. Confronta-se a economia com a saúde, a saúde com a economia, para que a guerra seja feita ostensiva, em um caso, ou dissimulada, em outro. Governadores como João Dória ostentam diplomas humanitários sem que tenham agido assertivamente para salvar vidas. Basta que se diferenciem de presidentes e ministros-militares que, assertivamente, trabalham para encerrá-las.

Suspeito que as grandes massas do povo tenham alguma clareza em meio à confusão, ou, melhor, alguma confusão em meio à própria clareza. Intuem que “e daí” deveria ser expressão proibida no léxico presidencial, que vírus não fazem “maricas” e que vacinas não metamorfoseiam jacarés. Mas intuem também que alguém haverá de pagar pela guerra, e desconfiam de decretos estaduais “pela vida” que instituem o telemarketing como uma atividade essencial. Estranham o ator que, na televisão, faz ioga para estimulá-los a ficar em casa, porque sabem quantas estações de metrô há entre Itaquera e a Consolação, e discutem a aglomeração desde que tomam trens; podem ensinar 29 asanas singulares à Globo, aprendidas para manter o equilíbrio quando o ônibus, cheio, breca. Mais que a morte, que não conhecem, temem a fome, que conhecem. Tendem a entregar as próprias vidas à fortuna por não verem virtú em líder algum.

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A Guerra do Paraguai, uma guerra aberta feita no século 19, consistiu na matança de 300 mil paraguaios. Hoje o grande espetáculo de sangue com o qual conformamos nossa República se volta contra nós mesmos – para adoçar (ou amargar) mais a ironia, sob um governo em que pululam militares. Também há militares no Paraguai. Mario Abdo Benítez, o presidente, é um, e carrega o nome de seu pai, um assessor pessoal do militar e ditador Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai entre 1954 e 1989, deixando como rastro de sua ditadura – uma das mais longevas da história desse século – milhares de prisões, torturas, assassinatos e estupros.

O Paraguai tem cerca de 7 milhões de habitantes, e lá 3.620 pessoas morreram em decorrência da Covid-19. Em agosto do ano passado, ainda sob medidas de restrição, o país tinha somente 52 mortes. Em meio à flexibilização das restrições, no entanto, os paraguaios têm vivido nas últimas semanas uma alta nos casos, num cenário de falta de leitos de UTI, fortes indícios de corrupção e ausência de vacinas – menos de 0,1% da população foi vacinada. Por isso, os paraguaios decidiram sair às ruas, pedindo a cabeça de ministros e do presidente: três ministros se foram, mas Mario Abdo segura firme na cadeira. A sede do Partido Colorado, que domina a política do país há mais de 70 anos – o único presidente que não pertencia ao partido durante esse período, Fernando Lugo, foi golpeado em 2012 – foi incendiada.

Não temos nada disso aqui, até agora. Vamos perdendo uma batalha definitiva: a de demonstrar a esse povo receoso e desconfiado que há justiça na sua descrença, mas que também há saída no horizonte, denunciando a estratégia do caos que alimenta de sangue uns e outros. O paradoxo “gostaria de me proteger, mas preciso trabalhar” tem mediação; mas o campo popular não a ofereceu de maneira convincente, sendo encampado pela direita liberal, que mata com modos, em sua luta contra a protofascista, que urra ao matar. É certo que colaboraram para isso o silêncio e as distorções midiáticas sobre as realizações de outros países e povos. Epopeias podem mudar o mundo tanto quanto a sua ausência; escritas fazem guerras onde guerras não houve. Inexistindo, fazem paz onde paz não há.

Há razão portanto para mobilização, para a propaganda, para o aparecimento da virtú – mas nunca para o desespero. A maçã não cai longe da árvore – vale para Mario Abdo, o filho, em relação ao pai; vale para Bolsonaro em relação ao homólogo paraguaio; vale para o povo paraguaio que, como Ulisses regressando à casa, põem-se em guerra, nas ruas, para buscar a paz. Nós também hemos de achá-la. E se aqui a guerra não declarada tomar outros contornos, como um já sugerido Estado de Defesa, ecoarão em nós os versos da Ilíada: 

“Mas uma dor se apoderou do Pelida, cujo coração
no peito hirsuto se dividia no que haveria de pensar:
ou desembainhar de junto da coxa a espada afiada
e dispersar a assembleia matando o Atrida;
ou antes acalmar a ira e refrear o coração.”