Como uma campanha de difamação colombiana agitou a eleição presidencial do Equador

Uribismo tenta se colocar como um novo ator da direita regional ao intervir nas eleições do Equador depois de campanha por Trump na Flórida. Por Alexander Main e Jeremy Ross | CEPR - Tradução de Julia Menezes para a Revista Opera

0
389
(Foto: Ministerio de Gobierno Ecuador)

O texto anterior desta série investiga como figuras da extrema direita da Colômbia, como o Presidente Iván Duque, o ex-presidente Álvaro Uribe, e vários senadores do partido do governo, Centro Democrático, influenciaram, na Flórida, as eleições dos EUA em favor de Donald Trump e o Partido Republicano. Poucos meses após essa interferência nas eleições dos EUA, as mesmas forças políticas colombianas agora tentam influenciar o resultado da disputa presidencial no Equador, que está marcada para ser decidida por um segundo turno no dia 11 de abril. 

O exemplo mais recente da intervenção política colombiana começou no dia 30 de janeiro, uma semana antes do primeiro turno das eleições legislativas e presidenciais do Equador. Naquele dia, a revista colombiana de extrema-direita, Semana, aliada próxima do uribismo (movimento de extrema-direita organizado pelo ex-presidente Uribe), que é influenciada pelo modelo de jornalismo da Fox News, publicou um artigo explosivo alegando que o grupo de esquerda Exército de Liberação Nacional (ELN) – movimento guerrilheiro em conflito com o governo colombiano -, doou 80 mil dólares para a campanha presidencial de André Arauz. Além disso, a revista alegou que a transação foi facilitada pelo ex-presidente do Equador, Rafael Correa, que atualmente está exilado na Bélgica. As declarações são supostamente baseadas em arquivos privados e digitais que os militares declararam ter obtido em uma operação militar no acampamento do ELN, e que pertenceriam ao líder do ELN, Andrés Felipe Vanegas Londoño, conhecido pelo pseudônimo “Uriel”. 

No entanto, com a publicação do relatório na Semana, os problemas surgiram rapidamente. De acordo com as fontes da revista, a doação do ELN para a campanha de Arauz foi organizada durante uma conferência em setembro de 2020 da Internacional Progressista (IP), que conta com Arauz e Correa como membros de seu Conselho, junto com outras famosas figuras de esquerda, incluindo o  ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, o ex-ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, intelectuais como Naomi Klein, Cornel West, Noam Chomsky, e Keeanga-Yamahtta Taylor, e atores como Gael García Bernal e John Cusack. O evento foi realizado de forma online e pode ser visto aqui. Não há maneira plausível da doação alegada ter sido organizada durante o evento, que foi realizado ao vivo a todo momento. A IP publicou uma declaração rejeitando categoricamente as alegações, mencionando que o grupo não possui associação de nenhum tipo com o ELN e que membros do ELN não estiveram presentes no evento. 

Se fosse necessária qualquer prova complementar da natureza mentirosa sobre a história do financiamento do ELN, um vídeo mostrando supostos membros da guerrilha apoiando Arauz e disparando com suas armas para o ar foi visto com grande ceticismo quando um pássaro de uma espécie não-nativa da Colômbia foi escutado assobiando no vídeo. De acordo com o ornitólogo que apontou a inconsistência, “o vídeo não pode ter sido filmado na Colômbia.” 

Apesar da implausibilidade, as acusações de financiamento do ELN têm sido muito abordadas na mídia equatoriana, que no geral é hostil à candidatura de Arauz. Da mesma forma, o atual presidente do Equador, Lenín Moreno, que fez grandes esforços para impedir que tanto Arauz quanto Correa concorressem, recentemente procurou dar crédito às alegações. Enquanto a difamação é tratada como “notícia” séria pela imprensa equatoriana, mesmo o diretor da Semana admitiu que elas podem ser falsas, ao declarar: “Eu quero deixar bem claro, não estou dizendo que essa informação é absolutamente verdadeira.” Enquanto isso, alguns meios de comunicação independentes têm chamado atenção para o timing conveniente dessas revelações e apontaram que outros políticos de esquerda na região – incluindo Correa – têm sido acusados de manter conexões com grupos de guerrilha colombianos com base em arquivos “apreendidos” igualmente duvidosos. É notável que, apesar do fervor midiático inicial em torno da apreensão do governo colombiano em 2008, do que tem sido largamente referido como um “laptop mágico”, mesmo os acusadores mais barulhentos de Correa nos EUA nunca mencionaram a “evidência” das suas supostas conexões com a guerrilha colombiana atualmente, supostamente encontradas nos arquivos do computador capturado. 

Assim como na Flórida antes das eleições dos EUA de 2020, oficiais sênior do governo colombiano têm se inserido nas eleições no Equador ao promover essa campanha de difamação frente à iminente votação do segundo turno. Vale a pena destacar, primeiramente, que os supostos arquivos do ELN parecem ter sido revelados à Semana por fontes do governo colombiano, embora não saibamos com certeza. O que sabemos é que oficiais colombianos rapidamente desempenharam um papel proativo na campanha de difamação contra Arauz. O procurador-geral da Colômbia, Francisco Barbosa, viajou a Quito no dia 12 de fevereiro para entregar formalmente uma “evidência” do caso Uriel à sua homóloga equatoriana, Diana Salazar. A visita realizada apenas alguns dias antes do primeiro turno das eleições no Equador foi criticada por muitos como um ato de intervenção injustificável, incluindo o ex-presidente da Colômbia, Ernesto Samper, que chamou o ocorrido de um caso de “jogada desonesta”. 

Não obstante, Salazar está conduzindo uma investigação oficial que pode ser usada como um pretexto para processar o futuro presidente Arauz e removê-lo do posto se ele ganhar a presidência ou até mesmo impedir sua disputa pelo segundo turno, apesar de ter mais votos do que o segundo classificado. O curto mandato de Salazar como procuradora-geral (nomeada em abril de 2019) tem parecido controverso devido à sua decisão de prender dois oponentes importantes de Moreno por acusações duvidosas de “rebelião”, baseadas no apoio de ambos aos protestos massivos contra o governo, liderados por indígenas em outubro de 2019. Salazar também liderou esforços para acusar o ex-presidente Rafael Correa, se baseando em acusações de “influência psíquica” sobre um suposto caso de corrupção, resultando em uma sentença de oito anos contra o ex-presidente. 

Apesar do histórico de acusações controversas e aparentemente politicamente motivadas, Salazar recentemente recebeu um prêmio “anticorrupção” do Departamento de Estado dos EUA. Se Salazar simplesmente comunicasse acusações contra Arauz, isso poderia prejudicar sua candidatura, não importa o quão sem fundamento pudessem ser as acusações, e independente delas levarem a um processo ou não. 

As eleições no Equador também têm sido agitadas pelas alegações de fraude feitas pelo terceiro colocado do primeiro turno, o líder indígena e candidato do partido Pachakutik, Yaku Pérez. Pérez saiu da disputa com apenas 32 mil votos a menos que o banqueiro de direita Guillermo Lasso, e passou semanas pressionando uma recontagem enquanto alegava fraude massiva, e não obteve êxito. As alegações de Pérez parecem se originar do fato de que uma primeira contagem o colocava em segundo lugar, mas ele acabou ficando em terceiro na contagem de votos definitiva. Portanto uma fraude deve ter ocorrido. Esse argumento pode parecer familiar e os cartunistas políticos equatorianos fizeram as conexões entre a campanha de Pérez “stop the steal” (“parem o roubo/parem a roubalheira”) e Donald Trump. Que Pérez ficasse em terceiro lugar, atrás de Lasso, era previsível e previsto, tomando em conta a distribuição geográfica dos votos não contados nas primeiras horas de contagem dos votos, no dia 7 de fevereiro. Entretanto, Pérez espalhou uma teoria da conspiração mal feita, que de alguma forma a autoridade eleitoral, Arauz, Correa e Lasso conspiraram para impedi-lo de participar do segundo turno. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) finalmente rejeitou o pedido de Pérez por uma recontagem adicional e posteriormente um tribunal eleitoral rejeitou a exigência de Pérez pedindo a recontagem de 50% dos votos, declarando que não havia evidência suficiente para justificar tal exigência. 

Incansável, Pérez parece ter apoiado o apelo de um colunista de extrema-direita para que os militares intervenham nas eleições a fim de “prevenir o retorno do Correísmo”. Pérez compartilhou, nas redes sociais, um artigo do jornal El Comercio escrito por Simón Espinosa Cordero, um membro da comissão anti-corrupção do Equador, chamando as Forças Armadas equatorianas para assumir o controle do processo eleitoral e forçar uma decisão imediata sobre o suposto financiamento do ELN na campanha de Arauz. A coluna de Espinosa cita a acusação sobre o ELN feita por parte da Colômbia como uma das principais razões para a intervenção militar, ponto que Pérez reitera em suas próprias demandas para que as forças armadas intervenham e tomem uma decisão imediata sobre o suposto financiamento do ELN. O que fica claro agora é que múltiplas forças políticas na Colômbia e no Equador fizeram uso dessas difamações para julgar, prejudicar e até impedir o líder da corrida nos seus esforços para ganhar a presidência do Equador. 

O governo de extrema-direita da Colômbia agora interviu tanto nas eleições dos EUA em 2020 quanto nas do Equador em 2021, usando táticas de perseguição anticomunistas para causar um temor fatalista sobre o “socialismo” na Flórida e aumentar uma campanha de difamação destinada a prejudicar a candidatura do mais provável próximo presidente do Equador. Essa interferência eleitoral pode acabar tendo implicações significantes para as relações do Equador com a Colômbia, e mais amplamente para a região, que parece cada vez mais polarizada entre um ressurgimento “à esquerda” e governos e movimentos de extrema-direita que parecem continuar recebendo apoio do governo dos EUA.