Biden ressuscita a sua invenção: o Plano Colômbia 2.0 deve começar no próximo mês 

A Colômbia deve retomar uma campanha aérea maciça de fumigação com glifosato da Monsanto pelo país, um plano pelo qual Biden trabalhou duro, com seus colegas republicanos, para que saísse do papel. Por Alan Macleod | MintPress News - Tradução de Bernardo Muratt para a Revista Opera, com revisão de Rebeca Ávila

0
6676
(Foto: 2010 CIAT/NeilPalmer)

Em um esforço supostamente voltado para a redução da produção de cocaína, a Colômbia deve retomar uma campanha aérea maciça de fumigação de glifosato da Monsanto pelo país. O ministro da Defesa, Diego Molano, confirmou que a prática altamente controversa de fumigação – arquivada desde 2015 – será retomada em abril.

“A ordem constitucional é clara: os militares colombianos devem desenvolver operações em todo o país para garantir a segurança dos colombianos”, anunciou Molano. “É por isso que estamos utilizando todas as ferramentas à nossa disposição para proteger toda a população.” Ele não explicou como a pulverização de um conhecido carcinógeno em toda uma nação que tem quase duas vezes o tamanho do Texas protegeria os cidadãos.   

A notícia foi recebida com aplausos em Washington, com um relatório do Departamento de Estado descrevendo-a como um “desenvolvimento muito bem-vindo.” O novo governo também descreveu, de forma confusa, a Colômbia como um “ponto luminoso” no combate regional às drogas, apesar de também notar que o país viu um “crescimento explosivo” na produção de cocaína nos últimos anos, a ponto de se tornar “o principal produtor e exportador de cocaína no mundo”.

O relatório também destacou a Venezuela e a Bolívia – Estados governados por socialistas sem nada similar à produção de drogas na Colômbia – como casos problemáticos que se recusam a cooperar na guerra contra as drogas.

A mudança da Colômbia sinaliza um retorno às políticas associadas à polêmica era do Plano Colômbia (2000-2015) e ao presidente de extrema-direita Álvaro Uribe. O que foi originalmente desenvolvido como uma proposta de reconciliação e desenvolvimento pelo ex-presidente Andrés Pastrana em 1999 foi radicalmente alterado pelos governos Clinton e Bush, que o transformaram em uma maciça e militarizada guerra às drogas, fornecendo armas, dinheiro e apoio político ao governo linha-dura e seus aliados paramilitares para perseguir os guerrilheiros de esquerda das FARC que controlavam boa parte das áreas rurais colombianas, extremamente férteis. O resultado foi um regime de desfolha química em todo o país, não muito diferente daquele visto durante o bombardeio dos Estados Unidos no Vietnã e em outras nações do sudeste asiático, forçando um grande número de pessoas a abandonar as áreas rurais e dirigir-se para favelas urbanas superlotadas.

Sob o Plano Colômbia, as tropas do governo e seus paramilitares associados receberam passe livre para matar quem quisessem, posteriormente enquadrando suas vítimas como guerrilheiros das FARC. Sob os olhos atentos de Uribe, mais de 10.000 pessoas inocentes – muitas delas fazendeiros, dirigentes sindicais e ativistas indígenas – foram massacrados, e o governo só admitiu posteriormente que as vítimas não possuíam ligação com as FARC. Os EUA financiaram diretamente o massacre; quanto mais “narcoterroristas” mortos fossem registrados, mais dinheiro e armas os EUA forneceriam. Sob o Plano Colômbia, o país também se tornou o lugar mais perigoso para ser sindicalista, de acordo com a Anistia Internacional, com mais assassinatos de sindicalistas ocorrendo dentro da Colômbia do que em todos os outros países juntos.

As Nações Unidas estimam que 7,4 milhões de pessoas estão deslocadas internamente até hoje por causa da guerra civil em curso e do Plano Colômbia, com outros milhões deixando o país. Enquanto isso, documentos confidenciais do governo dos EUA identificaram Uribe como um dos traficantes de drogas mais importantes do país, um funcionário do infame Cartel de Medellín e um “amigo pessoal íntimo” do chefão das drogas Pablo Escobar. Lucros do tráfico de drogas financiaram as eleições de Uribe em 2002 e 2006.

Embora a produção de cocaína tenha caído na Colômbia (temporariamente), os produtores simplesmente cruzaram as fronteiras desprotegidas para as nações vizinhas. A cocaína é extremamente transportável e simples de produzir, sendo necessário pouco mais do que algumas panelas e produtos químicos domésticos. Assim, o comércio geral não foi afetado por mais de uma década de bombardeios, pulverização e violência. O que se conseguiu, entretanto, foi que terras orgânicas e intocadas fossem desmatadas para que grandes empresas do agronegócio e mineração as ocupassem. 

“O cara que elaborou o Plano Colômbia”

Em suas próprias palavras, Joe Biden é “o cara que elaborou o Plano Colômbia […] endireitando aquele governo por um bom tempo”. Quando o projeto chegou ao plenário do Senado, Biden trabalhou com os republicanos para pressionar por uma estratégia linha-dura, declarando que “o que está em jogo é se a Colômbia se tornará um narcoestado ou não”, alertando que, se o projeto não fosse aprovado, o hemisfério se transformaria em um refúgio para terroristas e traficantes de drogas.

Biden também está propondo um plano para a América Central baseado em seu modelo colombiano. Portanto, não é surpreendente que a nova administração esteja saudando o retorno à pulverização química.  

A guerra contra as drogas renasce

O Plano Colômbia foi abandonado pelo presidente Juan Manuel Santos, no poder entre 2010 e 2018. Santos interrompeu a campanha de desfolha em 2015 como parte de um movimento mais amplo para negociar com as FARC. No ano seguinte, seu governo assinou um acordo de paz com o grupo guerrilheiro, que se dispersou formalmente e entregou suas armas. Santos recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

No entanto, com a eleição do discípulo de Uribe, Iván Duque, em 2018, o governo começou a renegar suas promessas e uma nova onda de violência ressurgiu. As autoridades governamentais ou os paramilitares de extrema-direita, intimamente associados entre si, começaram a usar a lista de ex-membros das FARC que assinaram o acordo como uma lista de alvos. Pelo menos 259 pessoas foram mortas, de acordo com o grupo colombiano de direitos humanos Indepaz, que observa que já ocorreram 17 massacres somente em 2021, com muitas das vítimas sendo líderes sociais e ativistas. Dez ex-membros das FARC foram assassinados nos últimos três meses.  

Até hoje, o governo Duque ainda os usa como justificativa para a violência contra sua própria população. No início deste mês, o governo realizou um ataque aéreo contra um grupo dissidente das FARC na província de Guaviare, no sul do país. Estima-se que 12 crianças morreram no ataque. O ministro da Defesa Molano confirmou que os militares sabiam que havia crianças na área, mas insistiu que todos os mortos eram crianças-soldados forçadas e parte de uma “máquina de guerra que planejava ataques terroristas.”

A notícia de um retorno à pulverização é particularmente aterradora, pois a empresa madrinha da Monsanto, a Bayer, anunciou no ano passado que estava reservando até 10,9 bilhões de dólares para acordar ações judiciais de pacientes com câncer, uma admissão tácita de que sabe que seu produto é cancerígeno. Os tribunais estadunidenses já concluíram o mesmo. Assim, a decisão de expandir seu uso na Colômbia é mais um fato irretocável sobre a volta do equivalente à guerra química.    

Em última análise, muito pouco sobre a guerra às drogas, desde a demonização da Bolívia e da Venezuela até o apoio a um conhecido traficante de drogas como presidente, para agora festejar o retorno de uma prática desacreditada e prejudicial como a da fumigação, faz qualquer sentido, se assumirmos que o objetivo dos EUA é defender os direitos humanos ou reduzir o fluxo de entorpecentes ilegais. No entanto, se visto pelas lentes frias da realpolitik, onde os EUA estão tentando destruir a resistência ao seu domínio e manter a enorme riqueza do país equatorial em apenas algumas mãos – a maioria delas ocidentais -, então o confuso caso colombiano se torna consideravelmente mais claro.